quinta-feira, 6 de setembro de 2012

OS NOSSOS UTENTES



Sofia Machado: uma vida com história

Revela-se tarefa impossível pensar, sequer, que vamos conseguir contar, no espaço disponível, a história de vida de uma família que conheceu durante anos a angústia, a aflição e a incerteza do que seria o seu dia seguinte.
 

SOFIA MARIA SANTOS MACHADO é utente deste Abrigo e tem 83 anos. Foi casada durante 58 anos com João Joaquim Machado, também conhecido como “Machadinho”, falecido em Março deste ano. Deste enlace nasceu uma menina, a Maria Margarida, hoje com 56 anos, que também ficou marcada para a vida inteira pela perseguição movida injustamente ao seu pai.



“A minha infância e juventude foram sempre difíceis”, confessa a nossa entrevistada deste mês. “Sendo a mais velha de dez irmãos, cedo tive de assumir as minhas responsabilidades e contribuir para a economia do lar. A certa altura, o meu pai arrendou uma pequena fazenda para ir aproveitando a mão-de-obra dos filhos, ainda crianças, que não tinham idade para trabalhar por conta de outrem. Depois, e de acordo com a idade que tinham, assim era a tarefa que lhes era destinada quando passavam a trabalhar por conta dum patrão. Isso acontecia entre os 10 e os 13 anos. Vivíamos então no Monte das Forneiras e a escola mais próxima situava-se em S. Mateus. Como eram muitas as crianças por aqueles lados e havia apenas uma professora e uma sala, tínhamos de esperar que houvesse vaga para assistirmos às aulas. A minha mãe, que sabia ler e escrever, foi-me ensinando em casa as primeiras letras e os números, de modo que, quando consegui lugar na única sala, a professora, de nome Marieta Marques Martins, pôs-me logo na 2ª classe. Todos os meus irmãos aprenderam a ler, ainda que ali só se leccionasse até à 3ª classe. Muitas vezes abalei de casa com a minha mãe, ainda mal se via, para estarmos cedo à porta da escola a fim de tentar um lugar na sala.”

E a D. Sofia, sem a necessidade de lhe fazermos perguntas, continuou: “Terminada a escola, era eu que estava incumbida de ir tratando dos meus irmãos mais novos, que iam nascendo em média um de dois em dois anos. Com 11 anos iniciei-me nas tarefas agrícolas mais leves, mas logo um ano depois comecei os mais difíceis, os de enxada ou foice na mão, como por exemplo a sachar grão, milho, feijão, ceifar, etc. Com apenas 13 anos já trabalhava para outros patrões, de sol-a-sol, ceifando e fazendo todo o género de serviços rurais, a distâncias de bastantes quilómetros de casa, palmilhando pelos campo fora, até chegar antes do nascer do sol ao trabalho, onde me era exigido fazer o mesmo que uma Mulher. Regressava a casa já noite dentro. Era assim nesses anos…”

Saltando no tempo, adiantou: “Casei em Fevereiro de 1954. Tinha então, já na altura, uma noção perfeita do que me esperava, pois sabia e compartilhava as ideias e convicções do meu marido que, aliás, já em solteiro havia sido preso três vezes por motivos políticos.” E recorda um dos muitos episódios de que a sua vida está recheada: “Quando casámos, fomos morar para o Monte do Machado, também perto de S. Mateus. Em Maio, de 1961, o meu marido deixou de poder ir dormir lá a casa, embora lá fosse comer as refeições, mas sempre com muitas cautelas, porque sabia que a Pide andava a querer apanhá-lo. Numa noite desse mês fui acordada, por volta das 4 horas da manhã, com umas pancadas brutais que davam contra a minha porta. Pensei logo o que era, estava sozinha com a minha filhinha de 5 anos, saltei da cama e perguntei quem era, enquanto mergulhava um vestidinho vermelho num alguidar com água. Aqui devo esclarecer que nós tínhamos combinado um sinal de aviso: se eu me apercebesse de algum perigo, pendurava um vestido da nossa filha num estendal que havia frente à casa e, nesse caso, ele afastar-se-ia de imediato. Responderam que era a autoridade e que abrisse imediatamente a porta. Abri e vi um enorme aparato policial de GNR’s e PIDES, um deles de metralhadora em punho, direita a mim, perguntando pelo meu marido. Disse-lhes que não sabia. Peguei no vestido e fui para sair mas eles desconfiaram e impediram-me. Apesar dos meus protestos dizendo que o vestido fazia falta para a criança vestir, eles tiraram-mo das mãos, dizendo que ele não precisava de nenhum sinal e não me deixaram sair de casa.(*) Fiquei naturalmente em pânico. A sorte é que o João, escondido numa seara próxima aproximava-se de casa sempre muito devagar e com redobrada atenção. Lembro que era de noite e não havia nenhuma luz mas, mesmo assim, ele lá conseguiu vislumbrar uns vultos (havia jipes parados e homens que circulavam à volta do Monte) e fugiu. Os guardas e pides revistaram toda a casa, vasculhando tudo e mais alguma coisa, procurando quaisquer vestígios ou elementos comprometedores. Não encontraram nada. A quantidade de agentes e jipes era tanta, que deu para fazer o mesmo, e ao mesmo tempo, a várias Famílias vizinhas e, inclusivamente, na casa dos meus sogros.. De seguida, metade daquele aparato ficou junto de mim e da casa e o restante dirigiu-se para um monte, chamado Ricolme, onde morava o meu cunhado Manuel, irmão do João, pensando que ele estaria lá escondido. Ainda antes de perguntarem fosse o que fosse ou dizerem quem eram, começaram logo a disparar tiros contra a porta. A minha cunhada chorava, com o filho ao colo, e o meu cunhado pegou na espingarda de caça que tinha, pois pensavam que eram assaltantes. Finalmente lá disseram que era a autoridade e o meu cunhado abriu logo a porta, dizendo que podiam ter informado mais cedo, pois não tinha nada a esconder. Não mataram ninguém porque a porta era resistente e as balas ficaram lá cravadas durante muitos anos. Depois de virarem tudo do avesso lá concluíram que o João não estava. A minha cunhada, quando conseguiu falar, pois apanhou um “susto de morte” e perante aquele aparato e brutalidade, disse: Hiiii! É preciso isto tudo para prender um Homem tão pequeno e que não faz mal a uma formiga?...”

E o relato continua, sem pausas nem dúvidas: “Na sequência destes acontecimentos, o meu marido viu-se forçado a sair desta área e, sob nome fictício, andou por esse Alentejo fora, sempre a pé, no meio de matos e searas, evitando as estradas e veredas para não ser visto por ninguém. Passou fome e sede. Chegou a comer folhas das faveiras num faval, de noite, para matar a fome e para beber água atava os lenços, que tinha com ele, uns aos outros para chegar à água dos poços e depois espremia-os na boca, para vencer a sede. Contou com a solidariedade e coragem de muita gente do Povo de Montemor e doutras terras por onde passou, que do pouco que tinham, algumas vezes dividiram com ele um almoço ou um jantar e lhe deram dormida. Mas muitas noites foram passadas debaixo das árvores ou onde calhava, com frio ou chuva. Assim foi caminhando até chegar à zona de Vila Viçosa, onde ninguém o conhecia. Procurava qualquer trabalho para conseguir o seu sustento. Trabalhou nas pedreiras e no que lhe foi surgindo. Esteve lá perto de um ano, período durante o qual só o vi por três vezes, e sempre em locais diferentes.”

Mas o pior ainda não tinha surgido: “Certamente por denúncia, uma patrulha da GNR acabou por o prender, no dia 13 de Maio de 1962. Levaram-no primeiro para o quartel de Vila Viçosa e logo depois para a sede da Pide em Lisboa. Só em finais de Junho tive conhecimento, por informação particular, que o meu marido estava preso. Fui logo com a minha filha à rua António Maria Cardoso, a fim de saber o que se passava e de o ir visitar. Disseram-me de imediato que ele não tinha visitas mas que passasse para outro gabinete porque queriam conversar comigo. Separam-me da minha filhinha, que tinha então 6 anos, não obstante os meus protestos. Acabámos por ser ambas interrogadas em separado, durante toda a tarde. Nem por uma miúda tiveram o menor respeito. De mim queriam saber, essencialmente, quem é que me tinha dito que o meu marido estava preso, e muitas outras questões, tentando apanhar-me em contradição. O agente da Pide que me interrogava ia dando fortes pancadas numa secretária, que me faziam tremer dos pés à cabeça. Respondi sempre o mesmo, que tinha ido á Vila de Montemor e ouvia nas ruas toda a gente a comentar que o João Machado tinha sido preso. Esta conversa ouvia-se à porta das tabernas, das lojas, das pessoas que andavam na rua, por todo o lado, mas eu nem conhecia as pessoas que o diziam, era tanta gente…
Disse que estava ali para saber se era verdade e, se fosse, para o ver. Confirmaram a sua prisão mas não me deixaram vê-lo. À menina soube depois que lhe perguntaram se ia lá a casa alguém que não conhecesse, que não pertencesse à família, se se juntavam lá pessoas em reunião, etc.. Ela tremia de medo, sem saber de mim, a prever o que se estava a passar com o Pai... e tão pequena… Isto durou toda a tarde, só nos deixando sair após a hora da camioneta que vinha para Montemor. Não consegui ver o meu marido, nem saber nada dele (só que estava lá), nem regressar para Montemor. Assim estava sozinha, numa rua de Lisboa que não conhecia, perto da noite, com a minha filhinha agarrada á minha mão e a pensar o que fazer, ainda com a cabeça atordoada com tudo o que estava a passar. Só desta vez o João esteve preso durante 6 anos, durante os quais foi sujeito às mais diversas e brutais formas de tortura.

Apesar de ter vivido anos de angústia, aflição e desespero, nem um só dia se arrependeu de ter escolhido o seu João Machado para marido: “Nunca. Para além do amor que nos unia, eu estava consciente dos riscos que corríamos. Mas sabia também que a forma de o meu João idealizar a vida era correcta. Afinal, o seu “pecado” era apenas o de querer pão e justiça social para todos os portugueses. Foi simplesmente por defender isto que foi incessantemente perseguido e esteve detido nas masmorras políticas por várias vezes (cinco), num total de cerca de 10 anos, um castigo pior do que se fosse um malfeitor. Nunca roubou nem fez mal a alguém. Somente defendia os seus ideais, que eram a Paz, Liberdade e Justiça Social. Era um homem justo e bom.

Como avisámos no início, era impossível em tão curto espaço darmos conta da dimensão desta família, que viveu durante largos anos em constante sobressalto mas nunca abdicou de lutar para ver concretizados os seus sonhos.

Para terminar, revelamos o que, um dia, a neta da D. Sofia lhe disse: “A avó foi uma pessoa inteligente. Soube escolher para marido um Homem Bom, como toda a Gente que o conhece diz e que dedicou toda a sua vida a uma causa que visava apenas justiça social para todos”.

                                           ………………………………………………

(*) – Nota: Este episódio, em jeito de conto, e com o título de “O Sinal” faz parte de um capítulo do excelente livro “Outros Contos de Vila Nova”, da autoria de João Luís Nabo, cuja leitura nos permitimos recomendar.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O ABRIGO esteve na Feira da Luz


Mantendo uma tradição que já vem de longe, o Abrigo dos Velhos Trabalhadores esteve novamente presente no importante certame que anualmente acontece em Montemor e que dá pelo nome de “Feira da Luz/Expomor”.

 Para além da sua reconhecida importância em termos económicos, a Feira proporciona diversão e conhecimentos culturais a todos os milhares de pessoas que ali acorrem durante seis dias, para além de ser também pretexto para reunir familiares ou amigos que a vida separou geograficamente e que naqueles dias voltam a abraçar-se.

 

O Abrigo mais uma vez esteve representado com um pavilhão, onde havia bastantes motivos para ser visitado. 
 

Realizados pelas habilidosas mãos das nossas utentes, ali puderam ser vistos, apreciados e adquiridos laboriosos trabalhos em tecido e croché, nomeadamente saquinhos, pegas e almofadinhas, simples ou contendo sabonetes ou ervas aromáticas, como, por exemplo, a alfazema. 


Não faltavam também as tradicionais rifas, onde era sempre garantido um valioso e útil prémio.
E o que dizer daqueles biscoitos, com sabor a limão, ou ainda do bolo, a que o coco dava um toque de requinte, que podiam acompanhar um cafezinho que as nossas colaboradoras ou voluntários(as)  também ali serviam com simpatia? Excelente!

Entretanto, podia dar-se uma vista de olhos pelos painéis que mostravam, nas dezenas de fotografias expostas, vários aspectos da nossa realidade, tais como o dia-a-dia dos utentes, as actividades de animação sócio cultural, os passeios, a colónia de férias e, também de enorme importância, algumas fases das obras de remodelação e ampliação das instalações do edifício, que ainda estão a decorrer.


Claro que quem ali se deslocou estava consciente de que ao adquirir alguns dos nossos produtos, estava simultaneamente a contribuir para uma obra cada vez mais necessária e que a todos engrandece. Bem hajam!

domingo, 22 de julho de 2012

AS SAUDADES DO PASTOR


Chama-se MANUEL JOSÉ mas, segundo ele próprio confidencia, é conhecido sobretudo pela alcunha de  “Lagarto”.

E o nosso entrevistado de hoje dá-se então a conhecer: Nasci há 84 anos no Monte da Serrinha, que fica entre Santana do Campo e S. Pedro da Gafanhoeira, pertencentes a Arraiolos, mas desde tenra idade que resido aqui no concelho de Montemor. Estou casado há 54 anos com Rosária Violante Marques Ferreira, natural de S. Geraldo, e desta união nasceram 7 filhos, sendo 4 rapazes e 3 raparigas.

O seu percurso de vida não foi calmo nem isento de dificuldades: Éramos dez irmãos e, se agora a vida não está fácil, nesse tempo as dificuldades eram muito maiores. No Verão, no tempo das ceifas, os meus pais trabalhavam na Herdade das Carias, que ficava a muitos quilómetros de distância da nossa casa. Então, ainda de noite, porque a viagem durava mais de duas horas e eles tinham de “enregar” ao nascer do sol, lá íamos nós, com uma burrinha, a caminho do destino. Os meus pais e os meus irmãos mais velhos iam a pé, e quanto aos mais novos, metia-se um em cada compartimento lateral do alforge e outros dois montados no animal, em cima da albarda, para que aquela espécie de saco não tombasse com os dois miúdos lá dentro.
Chegados, éramos “arrumados” à sombra de uma árvore e lá ficávamos todo o dia, à espera que o sol desaparecesse no horizonte para voltarmos para casa. E já depois do sol-posto, após um dia de trabalho exaustivo, o regresso fazia-se seguindo as mesmas regras.

E continua: Os anos foram correndo e, aos 7 anos, fui ajudar a guardar porcos na Herdade do Cabido Encarnado. Foi aqui que, aos 18 anos, passei a pastor e tive o meu primeiro “povilhal” (1).
Quando atingi os 21 anos, o patrão decidiu que era altura de passar para a “trincha”, isto é, trabalhar com juntas de bois. Dois animais se o trabalho fosse lavrarem e quatro quando a tarefa era arrojarem a terra. Passei mais tarde para carreiro e fui, ao longo dos anos, fazendo praticamente todos os trabalhos agrícolas. Tinha consciência de que sabia trabalhar, tinha brio em tudo quanto fazia e gostava de ensinar os mais novos.

Até parece que o nosso amigo Manuel José ficou por aqui. Puro engano. Ouçamo-lo: Casei-me com 30 anos e fui viver para a Amendoeira da Graça, junto à Fonte do Abade, perto do Monte do Divor e mais tarde, e sucessivamente, fui vivendo e trabalhando em Bate-Pé Velho, Quinta de Sousa, Romeiras (Cabrela), Comenda do Coelho (S. Geraldo), Benafecim (onde fui contratado por 15 dias e estive 9 anos), Monte da Horta da Avenida (Silveiras), Foros da Pintada e, finalmente, na zona da Ponte de Évora, onde actualmente resido.
Até aos 80 anos, idade em que deixei de trabalhar por as pernas já não o permitirem, fui sempre labutando. Ser pastor a sério é uma vida muito dura e sacrificada. Os animais têm de ser cuidados de dia e de noite e há períodos em que nem à cama vamos. Mas tenho saudades, muitas saudades das ovelhas. Nunca me posso esquecer de que foram elas que me ajudaram a criar os meus filhos.

Manuel José é analfabeto e hoje arrepende-se de, mesmo em adulto, não ter aprendido a ler e a escrever. No entanto, esse facto não o inibe de ir fazendo versos. Os que se seguem foram ditos quando se casou:

Quem quiser comprar, eu vendo
O ramo que estou deixando:
O ramo da mocidade
P’ra mim vai-se acabando

Eu casei aos trinta anos,
Era já maior de idade,
Foi quando eu arranjei
Amor à minha vontade !

Mais recentemente, dedicou a seguinte quadra a uma Colaboradora do Abrigo:

Entrei aqui nesta casa
E vou-lhe tirar o chapéu
Bom dia para os que estão
E p’rá menina Maria do Céu ! 

Manuel José e a Esposa estão desde há dois anos no “Centro de Dia” do Abrigo. Ao final de cada dia regressam a casa e ainda vão mexendo no que podem e dando dois dedos de conversa com as vizinhas.

Até um dia destes.


(1)   Nota:  (Pegulhal: algumas ovelhas pertencentes ao pastor e que este apascenta juntamente com o rebanho do patrão).

quinta-feira, 5 de julho de 2012

A HORTA E O POMAR


Desta vez propomos aos amigos leitores uma breve visita à nossa horta e respectivo pomar.

Na companhia do “vereador” do pelouro, António Joaquim Vedorias, percorremos as “zonas rústicas” do Abrigo que, sob a responsabilidade dos hortelões António Inácio Regouga e António Lourenço, vão produzindo grande parte dos produtos alimentares consumidos na Instituição.


Este final de Junho não terá sido o momento mais favorável, em termos visuais, para uma visita desta natureza, ainda que constitua sempre um renovado encantamento ver nas árvores os frutos apetecíveis à espera de serem colhidos e levados para a mesa. Todavia, a intenção foi (é) apenas a de lembrarmos o que se faz no interior da Instituição e que por vezes se ignora.

Uma grande dor de cabeça para quem ali trabalha tem a ver com o combate permanente que se trava para ir eliminando as ervas daninhas que invadem as áreas de cultivo.

“Na verdade - dizem-nos - grande parte do nosso tempo é gasto a mondar a terra, protegendo as plantas da nociva invasão destas indesejáveis intrusas. Como temos um sistema de rega por aspersão, toda a área recebe o precioso líquido, o que constitui um convite à sua disseminação”.

Há perspectivas, ainda que neste momento não passe de isso mesmo, de num futuro mais ou menos próximo, e contando com a ajuda de benfeitores, instalar um sistema gota-a-gota o que, dizem os responsáveis, não só contribuirá para a diminuição dessa praga indesejável, como nos disponibilizará desde logo mais tempo livre para explorarmos uma área mais vasta. António Regouga assegura mesmo que “a concretizar-se essa solução, conseguiremos produzir maior quantidade sem a necessidade de recurso a mais mão-de-obra.”

Para além do pomar, com mais de duas centenas e meia de árvores com várias espécies de fruta (laranjas, tangerinas, clementinas, pêssegos, maçãs, pêras, nozes, figos, nêsperas, dióspiros, damascos, ameixas, abrunhos), na área de cultivo produzem-se os mais diversos tipos de hortaliças e legumes, próprios de cada estação ou época do ano.

A azáfama é contínua. Vimos zonas onde batatas, abóboras e outros produtos estão prontos para ser colhidos, enquanto aqui e ali se observam áreas já preparadas para que outras sementes ou plantas possam iniciar o seu ciclo de vida.

 
“Não somos auto-suficientes, uma vez que nas três valências (ou respostas sociais, como agora também se diz,) servimos diariamente 366 refeições principais, nas quais incluímos, por norma e habitualmente, produtos hortícolas e fruta. Vemo-nos, por isso, perante a necessidade de recorrer também a fornecedores externos. No entanto, sem a nossa horta, esse recurso a terceiros seria muito mais frequente e oneroso”.

Até este momento, e segundo afirma António Regouga, “a água que temos vai chegando para as necessidades, sem sabermos o que o futuro nos reserva.”

O Abrigo chegou também a possuir, junto ao espaço hortícola, uma pequena exploração de gado suíno e instalações povoadas por dezenas de galinhas. Eram um excelente contributo para manter mais equilibrado o orçamento. Todavia, determinações superiores impediram, há quatro ou cinco anos, a sua manutenção e continuidade. Presentemente, só em ovos o Abrigo gasta cerca de 250 euros mensais, o que seria evitado se aquela situação se mantivesse.

Vamos esperar que o futuro nos traga dias melhores e que nos seja permitido continuar a cumprir os objectivos por que todos vimos lutando desde há 45 anos.


ÚLTIMA HORA: O gota a gota já chegou!

Quis o “destino” que, pouco depois da nossa conversa com o hortelão António Inácio Regouga, uma firma montemorense, como que adivinhando os nossos anseios, disponibilizou-nos todo o equipamento, que nos permitirá colocar este sistema de rega gota a gota nas nossas árvores frutíferas.

Esta conceituada empresa, sempre disponível e solidária quando se trata de apoiar instituições locais, chama-se CAMINHOS DO FUTURO e tem a sua sede aqui em Montemor. Para os seus responsáveis e colaboradores, aqui fica registado o público agradecimento do Abrigo.

 
Está, assim, parcialmente resolvido o problema que havia sido referido anteriormente.

Talvez quem sabe, num futuro mais ou menos próximo, possamos anunciar a instalação de idêntico sistema também na área de cultivo.

Bem haja quem ainda se vai lembrando de quem precisa!

segunda-feira, 2 de julho de 2012

AS OUTRAS DUAS APOSTAS: “LAR” e “CENTRO DE DIA”


Há pouco tempo demos a conhecer uma das três valências que o Abrigo tem vindo a assegurar, e continuará a tentar manter, para proporcionar o nível de qualidade de vida que os trabalhadores idosos do nosso concelho bem merecem. Assim, e depois do “Apoio Domiciliário”, vamos agora referir-nos às outras duas respostas sociais que igualmente merecem a nossa melhor atenção.


LAR

É aqui que, a tempo inteiro, a Associação Protectora do Abrigo dos Velhos Trabalhadores presta todos os cuidados a pessoas idosas de ambos os sexos, naturais do concelho ou aqui residentes, em situação de maior risco de perda de independência e/ou autonomia, procurando facultar-lhes um ambiente saudável de convívio e participação.

Actualmente com a capacidade para alojar permanentemente 88 utentes completamente esgotada, e com extensa lista de espera, nesta vertente prestam-se os seguintes cuidados:
- Alojamento; 
- Alimentação; 
- Cuidados de higiene pessoal e de habitação; 
- Serviços médicos e de enfermagem; 
- Animação cultural e recreativa; 
- Actividades de estimulação física em ginásio; 
- Acompanhamento em situações de emergência; 
- Tratamento de roupas; 
- Serviços de barbeiro e cabeleireira; 
- Participação nas várias actividades diárias da Instituição e outras acções, tais como passeios, visitas culturais, festas de aniversário, intercâmbios com outras IPSS, etc.

Pretende-se assim, e sobretudo:
- Garantir o bem-estar, a qualidade de vida e a segurança dos utentes;
- Potenciar a integração social e estimular o espírito de solidariedade por parte dos utentes e seus agregados familiares;
- Contribuir para a estabilização ou retardamento do processo de envelhecimento;
- Criar condições que permitam preservar a sociabilidade e incentivar a relação interfamiliar e intergeracional.

Temos consciência de que muitas mais pessoas carenciadas teriam todo o direito de usufruir destes serviços, mas infelizmente não temos capacidade para mais alojamentos.


CENTRO DE DIA


Entretanto, e para além do já anteriormente referido “Apoio Domiciliário”, uma terceira resposta social pode ser prestada a quem dela precise.

Falamos, naturalmente, do “CENTRO DE DIA”, que consiste essencialmente na prestação de um conjunto de serviços que visam contribuir para o não afastamento completo dos idosos do seu ambiente sócio-familiar, ao mesmo tempo que são satisfeitas as suas necessidades básicas.

Se sente necessidade deste tipo de apoio, contacte-nos pessoalmente ou pelo telefone 266899760. Não lhe podemos dar antecipadamente qualquer garantia, mas pode contar, isso sim, com a nossa melhor boa vontade para tentarmos dar solução ao seu problema.

Tal como a própria designação indica, os utentes deste serviço de acolhimento estão durante o dia no Abrigo e ser-lhes-ão dispensados os seguintes cuidados:
- Alimentação;
- Cuidados de higiene pessoal; 
- Serviços médicos (desde que o utente seja, no Centro de Saúde, doente do médico da Instituição); 
- Serviços de enfermagem; 
- Animação cultural e recreativa; 
- Actividades de estimulação física em ginásio; 
- Tratamento de roupas; 
- Serviços de barbeiro e cabeleireira; 
- Serviço de transportes (dentro da cidade de Montemor-o-Novo); 
- Um ambiente saudável, de convívio e participação;
- e a disponibilização de cacifo próprio, fechado, destinado à guarda de objectos pessoais.  

Não estão incluídos nesta valência o acompanhamento em deslocações a hospitais, a consultas médicas ou a meios auxiliares de diagnóstico ou outros exames.

Como bem sabemos, nada substitui a nossa casa, onde deveria ser possível manter-nos até ao fim dos nossos dias. Contudo, há situações em que isso não é possível e, portanto, tentamos, dentro das nossas possibilidades, compensar de algum modo a ausência do seio familiar.




sexta-feira, 22 de junho de 2012

REQUALIFICAÇÃO DAS INSTALAÇÕES


ABRIGO MAIS FUNCIONAL

No passado mês de Março iniciaram-se importantes obras de beneficiação e requalificação das instalações do Abrigo.

Estas obras resultaram de uma candidatura, já aprovada pelo INALENTEJO, no âmbito do QREN, que surgiu integrado no Programa de Acção “Montemor Pedra a Pedra”, desenvolvido pela Câmara Municipal de Montemor-o-Novo com a qual foi estabelecido um protocolo de parceria.

O montante do investimento é de € 485.499,38, sendo a comparticipação financeira do FEDER de € 388.399,50, o que corresponde a 80% do total. A parte suportada pelo Abrigo será, então, dos restantes 20%, isto é, € 97.099,88.


Apesar de tudo, o montante sob a responsabilidade do Abrigo é, na actual conjuntura, muito elevado, pelo que serão bem-vindas quaisquer dádivas que ajudem a minimizar o encargo.


A presente intervenção, que em princípio se prevê estar concluída a 30 de Setembro mas que, mesmo nas mais adversas circunstâncias, nunca poderá ir para além do final do ano, contempla a construção de duas casas de banho por cada camarata, a construção de casas de banho na zona dos apartamentos, a construção de uma casa de banho de apoio ao Posto Médico e a transferência, para outro local, da barbearia/cabeleireiro a fim de possibilitar a construção de balneários para as colaboradoras.


Todos nós sabemos o que representa, em termos de incómodos de vária ordem, a presença de pedreiros em casa. Mas, como também reconhecemos, esse desconforto temporário e inevitável é depois largamente compensado pelos melhoramentos introduzidos.



Assim, a Direcção vem apelar à maior compreensão por parte dos utentes, familiares, visitas e colaboradores para suportarem com paciência e um sorriso nos lábios este período que pode ser menos agradável mas cujo resultado final vale a pena o pequeno sacrifício.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

OS NOSSOS UTENTES


Joaquina Linguiça: Uma vida de trabalho

 “Tinha 10 anos quando comecei a trabalhar no campo”, começou por dizer a nossa figura deste mês, como início de conversa. Mas antes de continuarmos, vamos primeiro apresentá-la:


Natural de Foros de Vale Figueira, tem 80 anos, chama-se JOAQUINA MARIA LINGUIÇA e é utente do nosso “Centro de Dia”. 

E foi revelando: “Devido principalmente à doença do meu marido, que já sofria bastante e estava incapacitado há longos anos, fomos forçados a recorrer ao Abrigo como a melhor solução. Começámos a usufruir deste serviço há oito anos mas, infelizmente para ele, cinco dias depois, e quando já tinhamos regressado à nossa casa nos Foros, nessa noite sentiu-se mal, ainda foi levado para o hospital em Évora mas parece que já nada havia a fazer, tendo acabado por falecer.”

Hoje, a D. Joaquina continua no “Centro de Dia”, sempre na expectativa de um dia conseguir uma vaga no “Lar”.

Desfiando o seu rosário de recordações, D. Joaquina continuou: “A minha infância não foi fácil. Éramos oito irmãos, dos quais eu era a mais velha. O meu pai sempre foi um trabalhador rural e, portanto, apenas com o seu reduzido salário, pode-se facilmente adivinhar as carências que tinhamos de vencer todos os dias. Acresce ainda que, devido à guerra, os alimentos escassevam e  alguns deles só se conseguiam através das senhas de racionamento. Foram tempos muito difíceis, mas lá nos criámos e ainda hoje, felizmente, todos os oito irmãos estão vivos.

A nossa entrevistada, como já referimos, começou a trabalhar no campo desde tenra idade, logo depois de concluída a 3ª classe da instrução primária, que frequentou na escola dos Foros. Como faz questão de salientar, “os tempos eram difíceis e havia que ganhar para a casa. Então, primeiro eu, e pouco depois a minha irmã, que era um ano e pouco mais nova, começámos desde cedo a contribuir para o sustento da família. Mais tarde, já eu era mais crescida, o meu pai começou a sua actividade de carreiro e, aí, para além da jorna sempre pequena, lá ganhava mais 2 litros de azeite e 50 kg. de farinha por mês e um porco por ano. E as coisas começaram a compor-se um pouco mais.”

E continuou: “Fiz ao longo da vida praticamente todos os trabalhos agrícolas que, nessa altura, e sem o auxílio das máquinas que há hoje, eram duros e conseguidos pela força dos braços. Entretanto o tempo foi passando e quando já tinha os meus 20 anos casei-me com o que foi meu marido durante 52 anos – Manuel Lopes. O casamento deu três frutos: Maria Augusta, Delmira e Adriano. Os filhos foram crescendo, juntaram-se com as namoradas (ou, como então também se dizia, amigaram-se) mas todos eles se casaram formalmente mais tarde. E, como nas histórias de amor, todos são felizes, o que  me enche de alegria.”

Mas não foram apenas os trabalhos rurais que preencheram o tempo da D. Joaquina, como esclareceu:: “Toda a vida gostei de costurar. Fiz muitas rendas, trabalhos em malha e neste momento tenho estado dedicada a fazer talegos para os telemóveis, a fim de serem vendidos ou sorteados no pavilhão que o Abrigo irá ter, como habitualmente, na Feira da Luz, em Setembro. É uma forma de passar o tempo e, ao mesmo tempo, ser útil à Instituição.

D. Joaquina ainda nos disse que recorda frequentemente versos que aprendeu e decorou  há muitos anos mas que, naquele momento, a memória estava a pregar-lhe uma partida. Não faz mal; fica para uma próxima oportunidade.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

ANIVERSÁRIO DA INSTITUIÇÃO


O ABRIGO SOPROU 45 VELAS


Foi bonita a festa que assinalou, exactamente no dia de Santo António, o 45º aniversário desta instituição.

A azáfama começou logo pela manhã, com os colaboradores a alindarem o espaço e a montarem as mesas que iriam acolher as cerca de três centenas de utentes e familiares que quiseram associar-se a este evento.

Ainda faltava quase uma hora para o início das festividades e já se notava bastante movimento, com os lugares a serem rapidamente preenchidos.

As cozinheiras já tinham preparado as saladas e sob a batuta de dois especialistas em churrasco – Manuel Aldinhas e António Joaquim Falcão – os frangos e as sardinhas começavam a dourar e a lançar para o ar os cheiros característicos que despertam o apetite.


Pouco passava das 15 horas quando subiu ao improvisado palco o presidente – Joaquim Manuel Batalha – acompanhado dos restantes membros da Direcção e dos representantes das Juntas de Freguesia de N. Sra. da Vila e N. Sra. do Bispo. 


Teceu considerações sobre a vida do Abrigo, lembrou o papel importante desempenhado por todos quantos, ao longo dos anos, tornaram possível esta realidade, agradeceu aos colaboradores e voluntários que a esta causa se têm dedicado e lamentou o estado a que os responsáveis governativos deixaram chegar este país, com as asneiras e os abusos a serem agora suportados maioritariamente pela população que vive apenas do seu trabalho ou das pensões de reforma.

Já com as primeiras sardinhas a chegarem às mesas, foi a vez de um grupo de utentes do Abrigo mostrar os seus talentos. Sob a responsabilidade do animador cultural José Manuel Brejo, que escreveu o guião, representou, encenou e dirigiu os actores, foram recreadas conhecidas cenas de antigos filmes portugueses, nomeadamente o “Pátio das Cantigas”, “A Canção de Lisboa” e a “Aldeia da Roupa Branca”. 

Foram momentos de boa disposição em que todos os intervenientes se saíram a contento. Antes de terminarem a actuação ainda cantaram o “Hino do Abrigo”. Muito bem!

Logo depois exibiu-se o Grupo de Dança da ARPI de Montemor-o-Novo, que mostrou que a idade não é – não pode ser – motivo impeditivo para que cada um se dedique a qualquer manifestação artística ou cultural. Parabéns!

E o lanche continuou e foi-se prolongando até à hora do jantar, sempre com música ao vivo interpretada por Eduardo Panóias, que animou toda a tarde e entusiasmou alguns pares a meterem o pé em dança.

Durante mais de quatro horas esqueceram-se achaques e maleitas e a boa disposição era evidente nos rostos de quem assistiu e participou nas comemorações de mais um aniversário do Abrigo dos Velhos Trabalhadores de Montemor-o-Novo.


Os elementos directivos do Abrigo agradecem, de todo o coração, as ofertas para este fim, vindos de várias entidades e fornecedores, tornando assim possíveis estes momentos de alegria para os nossos utentes. Bem hajam!

E para o ano cá estaremos de novo.