segunda-feira, 18 de agosto de 2014

OS NOSSOS UTENTES

FRANCISCO  BALTAZAR  CHARNECA  TIRA-PICOS


Com 80 anos feitos no passado dia 25 de Junho, o nosso entrevistado deste mês prestou-se de bom agrado a falar para a nossa página e, ainda que parco em palavras, lá nos foi contando os principais momentos da sua história de vida.
 “Sou viúvo, ainda não há um ano, de Maria de Jesus Ganso Ribeiro, com quem estive casado durante mais de meio século. Entrei para o “Centro de Dia” do Abrigo no dia 10 de Outubro de 2013, juntamente com a minha esposa que, infelizmente, pouco viria a beneficiar desta situação, porque faleceu no mês seguinte.”

Mas comecemos então pelo princípio:
 “Nasci no Sabugueiro, concelho de Arraiolos, onde sempre vivi, exceptuando os períodos em que os meus pais tiveram de se deslocar para outras paragens onde conseguiam trabalho.”
A escola foi sempre uma miragem, que nunca passou disso mesmo:
 “Ainda com pouca idade, os meus pais foram morar para os Foros da Branca, perto de Canha, onde não havia escola e, portanto, nunca a frequentei. Em vez disso comecei a guardar gado teria 8 ou 9 anos. A partir daí fui lançado no mundo do trabalho e o saber ler e escrever deixou de ser prioridade.”

Os anos foram passando e…
 “Mais tarde, teria para aí os meus 17 anos, fui trabalhar na lavra do arroz na herdade da Represa, onde o meu pai era o arrozeiro, mas eu fazia também os mais variados trabalhos agrícolas.”

Novo salto na sua vida:
 “Em 1955 fui para a tropa. Assentei praça em Estremoz e tempo depois mandaram-me para a Manutenção Militar, em Évora. Daqui regressei a Estremoz e passado um ano e meio fui desmobilizado e enviaram-me para casa.”

E voltou à vida antiga:
 “Sim, e à herdade da Represa, para a faina do arroz que, de uma maneira geral, me ocupava praticamente de Janeiro até Setembro, com interregnos para acudir à ceifa dos outros cereais. Claro que, livre da tropa e com trabalho mais ou menos garantido, comecei então a pensar em termos de futuro, porque não queria continuar na dependência dos meus pais.”

E agora, sim, surgiu a grande decisão:
 “Já antes de ir para a tropa eu namorava com a rapariga que eu sabia que, logo que estivesse livre da obrigação militar, viria um dia a ser a minha mulher. E assim aconteceu. Casámos ou, mais propriamente, juntámo-nos, e fomos morar para o Sabugueiro. Deste enlace nasceram quatro filhos, mas uma menina morreu passados poucos dias. Neste momento, portanto, tenho dois filhos (um mora em Sabugueiro e outro em Arraiolos) e uma filha que reside aqui em Montemor. São todos casados.”

Apesar do namoro não ter sido contrariado pelos pais, mesmo assim nesses tempos a vida não era fácil para os namorados:
 “Quando nos começámos a namorar, trabalhávamos ambos na Represa. Tinhamos de arranjar a maneira de nos encontrarmos no caminho de regresso a casa, mas com o cuidado de nos separarmos quando já estávamos perto da aldeia, porque era impensável sermos vistos juntos fora de portas. Só me era permitido falar com a minha namorada numa janela mais alta e, mesmo assim, com a mãe a vigiar. Parecido com o que se passa agora, não é ? O que dantes era de menos, agora é de mais.”

Mas, é claro, também iam a divertimentos.
 “Fomos algumas vezes a bailes no Sabugueiro, em S. Pedro da Gafanhoeira ou nalguns montes ali à volta. Isto num tempo em que as namoradas iam sempre acompanhadas, sobretudo pelas mães, para que não pusessem o pé em ramo verde. Já agora, e a propósito destes bailaricos, deixe-me contar-lhe um episódio que nunca mais esqueci. Uma vez, num monte perto de S. Pedro, organizou-se um baile com um tocador de harmónio, como era normal. À entrada da casa havia um poial com potes e cântaros com água. Ora como o pessoal era muito e a casa era pequena os empurrões sucediam-se e, a dado momento, um dos homens que por ali estava não conseguiu evitar e foi contra os cântaros, que se partiram. Foi o princípio de uma enorme zaragata. Envolveu-se tudo à pancada e à pedrada e já ninguém se entendia. Não tive outro remédio que não o fugir para evitar a confusão ou levar com alguma pedra transviada.”

Segundo nos confessa, é bem tratado no Abrigo e não tem razão de queixa seja de quem for:
 “Integrei-me bem no espírito da instituição e já fiz parte de algumas iniciativas que aqui se fazem para tornar mais agradáveis as nossas horas. Fiz teatro, entrei no coral, vou às piscinas municipais e não me escuso a ir dar os meus passeios, dos quais destaco as idas ao Fluviário de Mora e ao Palácio de Vila Viçosa. Como já disse, toda a gente me trata bem, mas sem desprimor para as restantes, gostaria de salientar o papel da D. Céu, que é realmente uma pessoa extraordinária.”

A nossa conversa chegava ao fim, mas ficámos com a certeza de que muito ficou por revelar pelo nosso amigo Tira-Picos. Fica para uma próxima oportunidade.

terça-feira, 24 de junho de 2014

OS NOSSOS UTENTES

ANGELINA ROSA MERENDEIRA

Praticamente recém-chegada ao Abrigo, onde se encontra ainda não há um mês,a nossa convidada tem 80 anos, é viuva há trinta, de António José Inocêncio, e possui dois filhos (um casal).

“Nasci no Hospital Civil de Santo André, aqui em Montemor, na enfermaria de Santa Rita, no dia 18 de Fevereiro de 1934. Os meus pais viviam no Pomar da Gamela, para onde naturalmente eu fui logo que a minha mãe teve alta do parto. Teria perto de seis meses quando nos mudámos para o Monte do Bexico, rodeado pela Gamela, Rio Mourinho, São Luís e Ervideira. Aqui estive até aos meus 20 anos, idade com que me casei.”
            
A escola era, então, um luxo que estava vedado a quem vivia sobretudo no campo e mesmo a mentalidade da época contribuia para esse afastamento, como revela a D. Angelina: 

“Nesses tempos, e por várias razões, não era fácil as crianças irem aprender a ler e a escrever. O meu pai, por exemplo, dizia que as raparigas não precisavam de ir à escola porque, na sua opinião, escola de mais já elas tinham…”
            
E, portanto, o seu destino estava traçado: 

“Com dez anos comecei a apanhar azeitona e até aos quarenta e quatro nunca mais deixei a lida do campo.”
            
Enquanto isso, muitas outras coisas foram acontecendo: 

“Comecei a namorar o que viria a ser o meu marido quando tinha perto de catorze anos. Claro que à revelia sobretudo do meu pai. Namorávamos no trabalho. Mas passado algum tempo zangámo-nos e ainda namorisquei outro rapaz. Mas era do primeiro que eu gostava e, então, aos 17 anos recomeçámos o namoro e foi até casar, o que aconteceu tinha eu vinte anos. Estivemos casados 32 anos.”
           
A sua vida deu, por conseguinte, uma grande volta: 

“Claro está. Montámos a nossa casa no Moinho da Ana e, depois, ainda passámos pelos Baldios, Moinho do Pisão e estivemos também em Abrigada, perto da serra de Montejunto, a trabalhar num aviário. Mas aqui a vida não nos correu como desejávamos e regressámos a Montemor, para o Monte das Forneiras, onde o meu marido faleceu.”
            
Nova e profunda alteração na sua vida.

“Após o falecimento do meu marido vim morar para Montemor, mais propriamente para o nº 12 da Ruinha.” E esclarece: “Enquanto fui casada, nunca dei qualquer passeio, quer por dificuldades económicas, quer porque com dois filhos, cujas idades distavam apenas vinte e dois meses, tal não nos era possível”.
            
Reformou-se ainda relativamente cedo, mas explica porquê: 

“Problemas de saúde impediam-me de continuar a fazer os exigentes trabalhos agrícolas. Depois, graves problemas ao nível dos joelhos, tendo até sido operada a um deles, e o facto de não ter praticamente sensibilidade nas mãos agravaram o meu estado de saúde.”

Mas não querendo desistir da vida, resolveu dar outro passo de que guarda belíssimas recordações: 

“Já reformada, inscrevi-me no MURPI, actualmente ARPI, aqui na nossa cidade. E enquanto as minhas pernas e as mãos permitiram, desenvolvi ali actividades que nunca tinha tido a possibilidade de fazer. Aprendi, pelo menos, a conhecer as letras e a fazer cópias e, pela primeira vez na minha vida, percorri muitos lugares de Portugal e até fomos a Espanha. Fiz teatro, entrei num grupo coral e, veja bem, fui jogadora e ganhei prémios em modalidades como o dominó, sueca, bisca, malha e inclusivamente em concursos de pesca que a Instituição organizava anualmente.”
           
E hoje, como passa o tempo?
            
“Como já disse, estou no Abrigo há poucas semanas, porque entretanto o meu estado de saúde foi-se agravando. Mesmo assim, já faço parte do Grupo Coral “Cant’Abrigo”, cuja estreia teve lugar no dia de Santo António, durante as festas do 47º aniversário, e vou dando os meus passeios, com o auxílio das canadianas, nesta zona envolvente do edifício.”

            
Estamos convencidos de que, mais dia menos dia, vamos ter a D. Angelina a fazer parte do elenco artístico do Abrigo numa das habituais rubricas de teatro aqui levadas à cena.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

O ABRIGO CELEBROU 47 ANOS


O Abrigo dos Velhos Trabalhadores que, com esta denominação, assinalou a passagem do seu 47º aniversário a 13 de Junho, dia de Santo António, nasceu e herdou a sua vocação assistencial a partir do Asilo de Mendicidade, que em Janeiro deste ano fez um século de existência.

Aliás, todo este processo está superiormente descrito no livro da autoria da Dra. Teresa Fonseca que foi dado à estampa por altura da efeméride, conforme foi largamente divulgado. A propósito, e para os interessados em conhecer mais em pormenor toda a história e o dia-a-dia da Instituição, aproveitamos para informar que ainda temos alguns exemplares da obra, que se intitula exactamente “Do Asilo de Mendicidade ao Abrigo dos Velhos Trabalhadores de Montemor-o-Novo – 1914/2014”, que pode ser adquirido nas nossas instalações pela módica quantia de 10 euros.

Posto isto, vamos então tentar relatar o que foi a festa que comemorou o recente aniversário, se bem que os momentos de emoção ali vividos sejam impossíveis de descrever.

Estava previsto, e é assim que acontece normalmente, que a cerimónia protocolar dos discursos de boas-vindas iniciasse os festejos. Mas desta vez furou-se a tradição.

Por razões de estratégia, o programa foi ligeiramente alterado, pelo que logo a abrir houve um excelente momento de teatro protagonizado pelos utentes do Abrigo e que serviu para evocar e homenagear figuras de Montemor que se notabilizaram ao longo dos anos nas mais variadas áreas. E sobre cada um dos homenageados foram relembradas facetas mais ou menos bem conhecidas.

Vamos então aqui lembrar as personagens e os intérpretes:

Manuel Justino Ferreira – Leopoldo Gomes
Curvo Semedo José Manuel Brejo
S. João de Deus Joaquim da Cabrela
Comandante Fragoso Salvador Boleto
Luís Miguel da Veiga Joaquim da Cabrela
Simão Malta José Grulha
Mafalda Veiga Salomé Pedras Alvas
Margarida Guerreiro Sandra Santos
Isabel Joaquina da Cruz Otília Brejo
João Luís Nabo (seu aluno de piano) – Leopoldo Gomes (que depois também dirigiu um Coral ali mesmo constituído de entre os assistentes).
Feliciano Rabaça do Carmo Francisco Tira-Picos
António Justino e Maria FlorentinaJosé Manuel e Rosária Baixo
Francisco Abílio Cara-Linda José Manuel Brejo
Teresa Fonseca e Jorge Fonseca Céu Mestrinho e José Manuel Brejo


As utentes que deveriam interpretar Mafalda Veiga e Margarida Guerreiro (eram elas Albina da Visitação e Angélica Ferro) tiveram de ser substituídas à última hora por motivos de saúde. Aqui fica uma palavra de apreço às substitutas, que desempenharam muito bem os seus papéis e cantaram de tal forma que pareciam mesmo as artistas originais.

Seguiram-se então os discursos da praxe. Com todo o elenco directivo em palco, o Presidente da Direcção, Joaquim Manuel Batalha, deu as boas-vindas aos presentes, seguindo-se António José Danado (Presidente da União das Juntas de Freguesia de Na. Sra. da Vila, do Bispo e Silveiras) e Hortênsia Menino (Presidente da Câmara Municipal) que em breves palavras realçaram o significado da festa e o papel importantíssimo desempenhado pelo Abrigo dos Velhos Trabalhadores ao longo dos anos.


Era chegado, portanto, outro momento importante: o lanche ajantarado. Num espeto rebolava um porco (generosa oferta de um amigo) para ser comido à tira, e noutros assadores o cheiro das sardinhas já ia invadindo todo o espaço, fazendo crescer água na boca. E então, através de atenciosas funcionárias e colaboradoras do Abrigo, aqueles acepipes foram sendo servidos, regados sobretudo com fresquinha e saborosa sangria ou sumos de fruta para os estômagos mais delicados.


E a tarde ia correndo com as conversas a subirem levemente de tom, como aliás sempre acontece nestas circunstâncias.

E foi sentados à mesa que vimos surgir outra surpresa por ser estreia absoluta. Subiu ao palco o “Grupo Coral Cant’Abrigo”, constituído na sua totalidade por utentes de ambos os sexos e excelentemente dirigido pelo escriturário do Abrigo e talentoso músico André Banha. Interpretaram, sob fortes aplausos, diversos temas bem conhecidos de todos os presentes, incluindo um deles (“A cegonha”) conjuntamente com o “Fora d’Horas” que se exibiria a seguir.


E a tarde ia decorrendo sem se dar pelo passar do tempo. E é bom sinal quando isso acontece.

Chegou então a altura do Grupo “Fora d’Horas” mostrar mais uma vez o seu reconhecido valor. Interpretou, com agrado geral, vários números do seu vasto reportório.


Aproximava-se o fim, mas ainda surgiu outra agradável surpresa. O novo conjunto musical, intitulado “Reflexus Band”, iniciou a sua actuação e desde logo mostrou que veio para ficar. Acompanhou o desfile da marcha onde os pares, com os respectivos arquinhos, iam desenvolvendo os seus desenhos artísticos.


E pronto. A partir daqui estava o baile armado. E já se sabe que quando os pares entram na dança quem é que os faz parar? E ainda bem. É sinónimo de que estão a viver e a desfrutar de horas bem agradáveis.

Ficam para o fim os agradecimentos. Os grandes responsáveis pelos momentos teatrais que periodicamente ali são apresentados, para além evidentemente dos utentes que sempre se disponibilizam (e cada vez são mais), são, como se sabe, o animador cultural José Manuel Brejo e a talentosa Maria do Céu Mestrinho, que alia um profissionalismo exemplar enquanto funcionária do Abrigo a uma aptidão natural para as artes cénicas. A secção teatral pretende fazer os seus agradecimentos particulares a quem cedeu roupas ou outros adereços para que a representação resultasse em pleno. O nosso obrigado a; Bombeiros Voluntários, Grupo Teatral Theatron, João Luís Nabo, Luís Miguel da Veiga, Manuel Henrique Macau Ferreira e Quim Guerreiro. A todos, o nosso obrigado.

Também a Direcção quer agradecer, de todo o coração. às pessoas e entidades que, com as suas generosas ofertas, tornaram possível estes momentos de agradável convívio entre todos os utentes, familiares e amigos.

Finalmente, uma palavra de apreço para os Funcionários e Funcionárias, Colaboradores, Voluntários e, enfim, para todos os amigos da Instituição, porque sem o seu esforço, trabalho, voluntarismo e dedicação estes eventos não seriam realizáveis, sobretudo com tal eficiência e brilhantismo. Por último, é de salientar que toda a decoração, incluindo os vasos com manjericos confeccionados em papel, foram obra paciente dos nossos utentes.


Para todos, o nosso BEM HAJAM !

terça-feira, 27 de maio de 2014

OS NOSSOS UTENTES

NORBERTO JOÃO PICANÇO

O nosso entrevistado deste mês é o exemplo de que quando se pretende atingir um objectivo, todos os obstáculos podem ser ultrapassados, mesmo quando as condições para lá chegar não são as mais favoráveis.

Assim começa a sua história:



“Nasci no Monte de Sancha Cabeça, freguesia de S. Mateus, vai fazer 85 anos no próximo mês de Julho. O nosso agregado familiar, para além dos meus pais, incluía cinco filhos. Ainda muito novinho, mudámo-nos para o Monte da Lage e depois para o Monte do Passarinho, perto da Venda do Bravo. Quando tinha sete anos transferimo-nos para o Monte da Fusca, também ali para os mesmos lados.”





E começou então a sua luta para alcançar o seu primeiro grande objectivo: aprender a ler.

“Não tinha escola perto, mas havia uma senhora, de nome Gertrudes do Foro, que contra o pagamento de cinco escudos mensais, juntava um grupo de rapazes e raparigas num barracão sem as mínimas condições e, utilizando livros antigos cedidos por pais, por outros familiares ou amigos, ia ensinando as primeiras noções que nos iam permitindo ler, escrever e fazer contas. Como já disse, o tal barracão era totalmente desprovido dos meios de conforto mais elementares. A única coisa boa era que não chovia lá dentro. Apenas possuia, num dos lados, uma parede digna desse nome, porque o resto eram paredes mal amanhadas que não evitavam frios cortantes e permitiam que o vento entrasse por um lado e saisse pelo outro.”

Mas não se ficavam por aqui as carências de tal “escola”

“Não tinhamos qualquer material escolar. É claro que não havia carteiras. Eram duas ou três mesas velhas, de dimensões e alturas diferentes, juntas umas às outras. De um lado sentavam-se alunos em cadeiras também velhas e, do outro lado, apoiada em duas pilhas de tijolos, uma tábua servia de assento às outras crianças. Nos dias mais frios a senhora fazia um lume dentro do barracão, sentava-se num mocho e, para outro mocho colocado à sua frente, ia chamando cada aluno para ler ali a sua lição. Quando estava vento, o que era frequente, o fumo ia todo para cima do rapaz ou da rapariga porque a professora tinha escolhido o lado mais abrigado. De vez em quando mandava um rapaz ir buscar lá fora uma vara de vime, que haveria de servir para castigar e bater, algumas vezes, no próprio que a tinha trazido. Porque a D. Gertrudes quando batia não era nada meiga.”

O nosso amigo Norberto frequentou estas aulas durante dois anos e já lia, escrevia e fazia contas com grande capacidade. Aliás, diz-nos que para a aritmética teve sempre vocação. Porém, e como se compreende, estes conhecimentos não eram reconhecidos, porque a escola onde andara, não era propriamente uma escola e, por isso, não era oficial. Havia, portanto, que dar outros passos:

“Terminados estes dois anos, a minha família e a do meu amigo e colega Luís Torres (conhecido como Luís da Volta) tentaram inscrever-nos na escola de S. Mateus. Mas já tinham terminado as matrículas e só havia lugar para um de nós. Fiquei eu. Então, e dados os meus conhecimentos, entrei logo para a segunda classe, e no ano seguinte fiz o exame da 3ª. E fiquei por aqui, porque naquela escola rural só se davam aulas até àquele nível. O Luís acabou por ir para uma escola de Montemor, onde concluíu a 4ª classe.”

Atingido, ainda que parcialmente, este objectivo, surge uma mudança na sua vida:
            
“Com 11 anos havia que começar a trabalhar, não só porque continuar os estudos não era possível como ainda era necessário ajudar na economia doméstica. Integrado num grupo de mulheres, comecei por ir arrancar mato, mais propriamente sargaços, ganhando dois escudos e cinquenta por dia.”
           
Até cerca dos vinte seis anos foi fazendo praticamente todos os trabalhos agrícolas. Porém, por esta altura começou a desenvolver o segundo sonho da sua vida e que não descansou enquanto não o concretizou.
           
“Sempre tive o desejo de um dia vir a ser tractorista. A certa altura, trabalhava eu para o lavrador Joaquim Falcão Marques, o feitor, que era o João da Pontinha, perguntou-me se eu não gostaria de ir aprender a trabalhar com o tractor. Claro que lhe disse logo que sim. Estava a esgalhar uma oliveira e larguei imediatamente o machado. Então, disse-me, vai ter ao Monte de Cuncos, porque anda lá o António Marcelino a charruar com o tractor e pede-lhe que te encaminhe. Cheguei, cheio de entusiasmo, e ele, que já estaria avisado, mandou-me montar no tractor e foi-me dando as primeiras instruções. Ainda não tinha decorrido uma hora, largou-me em cima do tractor e foi-se embora. Claro que cinco minutos depois já eu estava atascado. Chamei-o, aflito, e ele lá regressou e ensinou-me a forma de sair daquela situação. E foi assim a minha aprendizagem.”

Mas ainda havia que resolver outro problema:
            
“Entretanto, eu precisava da 4ª classe para poder ir tirar a carta. Então, fui ter com o António Mendonça, que me preparou para ir fazer exame, o que consegui. Já na posse da tão desejada carta de tractorista, esta começou desde aí a ser a minha principal actividade.”
            
Realizado o seu segundo sonho, a sua vida estabilizou, trabalhando naquilo em que sentia realizado.
            
“Teria talvez uns quarenta anos, ou pouco mais, e achando que ganhava pouco, pedi ao meu patrão que me aumentasse mais cinco escudos, isto é, passasse de cinquenta para cinquenta e cinco escudos diários. Respondeu-me que não estava disposto a isso. Então, tive a informação de que na Herdade de Cordeiros, de que era proprietário Augusto Tavares da Silva, residente no Seixal, tinham necessidade de um tractorista. Dirigi-me lá, apresentei-me, disse ao que ia e foi-me perguntado quanto queria ganhar. Respondi que sessenta escudos e, para surpresa minha, o sr. Augusto disse-me que ficaria com o emprego mas a ganhar sessenta e cinco escudos diários. Depois, em conversa com o feitor, este disse-me que se o patrão gostasse do meu trabalho, ele próprio tomaria a iniciativa de me aumentar o salário. E assim foi. Logo no primeiro sábado começou a pagar-me setenta escudos.”
            
Chegou o momento de dar novo rumo à sua vida:
            
“Estive três anos na herdade dos Cordeiros, findos os quais tentei a sorte como emigrante. Fui para a Alemanha, mas não gostei da experiência e ao fim de pouco mais de seis meses regressei à minha casa no Monte da Fusca. Quando teve conhecimento de que eu havia voltado, o patrão de Cordeiros convidou-me novamente para voltar a desempenhar o mesmo serviço, mas agora também como operador de uma ceifeira-debulhadora. Aceitei e aqui estive mais três ou quatro anos.
Mais tarde foi convidado para exercer as mesmas funções na Cooperativa Bento Gonçalves, por onde me mantive mais de vinte anos.”
            
Quando chegou a altura, reformou-se, tendo continuado a viver no Monte da Fusca, mas agora sozinho, porque os pais entretanto tinham falecido e os irmãos cada um já tinha ido à sua vida. Nunca pensou em casar?
            
“Ao longo dos anos os meus irmãos foram arranjando a sua casa e eu fui ficando com os meus pais. Entretanto, o tempo foi passando, deixei passar a altura certa e quando dei por isso já era tarde. Mas não estou arrependido porque, afinal, tive sempre uma vida livre e à minha vontade.”
            
Está no Abrigo há aproximadamente cinco anos:
            
“Tive de tomar esta decisão porque a idade foi avançando e não tinha condições na casa onde morava. Aqui sou bem tratado e alinho nas viagens que o Abrigo organiza periodicamente para me ir distraindo. Gosto de ler, sobretudo jornais, mas não posso abusar porque já fui operado à vista duas vezes e tenho de ter cuidado.”

            
O Sr, Norberto é, afinal, um exemplo de que o desejo de realizar determinado sonho é um factor decisivo para o poder alcançar.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

PEDDY-PAPER

“NA ROTA DO ABRIGO – 2014”

Já inserido nas comemorações do 47º aniversário da Associação, que ocorrerá no próximo dia 13 de Junho, e ainda no âmbito das celebrações do centenário da instituição Asilo de Mendicidade/Abrigo dos Velhos Trabalhadores de Montemor-o-Novo, que foi assinalado em Janeiro deste ano, realizou-se no passado dia 15 deste mês de Maio, um participado “Peddy-Paper” que constituiu um assinalável êxito.
Esta primeira edição foi chamada de “Na Rota do Abrigo”, porque todo o percurso se desenrolou não só no interior do edifício, mas sobretudo no seu bem cuidado espaço envolvente.



O evento teve uma participação que superou a centena de concorrentes, representando várias instituições locais (Associação 29 de Abril, Casa João Cidade, Cercimor – CRP e CAO -. Escolinha “Jardim dos Sentidos”, Escolinha “O Meu Futuro”, Lar da Santa Casa da Misericórdia e Universidade Sénior do GAMN).


José Manuel Brejo foi o cérebro da iniciativa, que contou com a colaboração de funcionários e utentes do Abrigo.

Foi distribuída a cada equipa (houve instituições que se desdobraram em mais de uma formação) um mapa do percurso, com a localização de cada um dos 12 postos de controlo. Foi também distribuída uma folha que indicava a ordem dos postos a visitar que, não sendo igual para todas as formações, evitava aglomerações em cada posto e proporcionava que as equipas se cruzassem nos seus itinerários.
Foi fornecida também a cada equipa uma folha com um conjunto de elementos respeitantes à vida da Instituição e de onde se extraía a resposta à pergunta que era feita em cada um dos doze postos de controlo.


Claro que existia um posto de abastecimento de água, naturalmente bem.vinda dado o esforço despendido pelos “atletas” perante uma temperatura já apreciável.
E foi ver as crianças, na sua habitual algarviada, juntamente com os outros concorrentes menos jovens a percorrerem em alegre e sã convivência um espaço que muitos não conheciam e que, para outros, constituiu uma agradável surpresa todo o conjunto de beneficiações que o Abrigo alcançou nos últimos anos. Aliás, e segundo os organizadores, fui exactamente esse um dos objectivos: dar a conhecer mais em pormenor a actividade desenvolvida no dia-a-dia da Instituição.


No final do convívio-competição, em que todos foram justos vencedores, foi entregue ao “capitão” de cada equipa um saquinho com uma recordação de uma manhã que todos desfrutaram.
Dado o êxito da iniciativa, os promotores da ideia projectam repeti-la para o ano, se tal for possível. Esperemos que sim.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

OS NOSSOS UTENTES

MARIA VICÊNCIA PASTANEIRA

Neste final de Abril das águas mil, estivemos à conversa com a nossa utente Maria Vicência Pastaneira, que procurou a ajuda do Abrigo há pouco mais de um ano.

Segundo nos revelou, nasceu há 83 anos no Monte da Giblanceira. Também ali viram pela primeira vez a luz do dia as suas duas irmãs e dois irmãos. Destes apenas resta um irmão, que conta mais de 90 anos.


Em Giblanceira, propriedade da família Reis, onde o meu pai era feitor e a minha mãe se encarregava de desmanchar e tratar das carnes dos porcos, abatidos no matadouro municipal, para além de responsável pela queijaria e de outras tarefas afins, trabalhava toda a família.

E numa altura em que a escola era um luxo, sobretudo para quem vivia fora dos espaços urbanos, “entrava-se ao serviço” ainda em tenra idade.

“Comecei na lida do campo com 11 anos, fazendo praticamente todas as tarefas que a minha idade permitia. Ainda não havia tractores nem essa maquinaria agrícola que só mais tarde apareceu e, portanto, para além da ajuda dada pelas parelhas de machos ou mulas, todos os serviços exigiam grande esforço físico.”

Mas era assim a vida no campo que, para além da dureza dos trabalhos, sob o sol escaldante ou os frios cortantes, ainda havia que percorrer, a pé, longas distâncias  para se chegar de casa até ao local em que se ia enregar.

“Vencidas as primeiras dificuldades, já tinha 17 anos quando entreguei o meu coração e comecei a namorar com o rapaz que viria, aos 21, a ser o meu marido durante 50 anos. Foi meio século de uma vida em comum em que nos demos sempre perfeitamente. Infelizmente, o meu Manuel José Neves faleceu repentinamente há mais de 10 anos, o que para mim foi, e continua a ser, um desgosto enorme."

Ficámos também a saber que quando casaram, e porque o marido também já trabalhava em Giblanceira, ficaram ali a residir, ainda que numa moradia independente da casa paterna.

“Quando os meus pais faleceram fomos morar para perto do Escoural e Torre da Gadanha. Do nosso casamento nasceram dois filhos –  o Alfredo e o Manuel – que nos deram três netos, uma neta e duas bisnetinhas que são o meu enlevo.”

Durante a nossa conversa, a D. Maria Vicência ainda se dispôs a recordar tempos da sua juventude.

“Quando era rapariga nova gostava muito de bailes. Tinha um irmão que tocava concertina e, então, qualquer casa ou monte das redondezas servia para organizarmos uma funçanada. Sobretudo durante o Carnaval, o pessoal mais novo divertia-se a valer. Pode ter a certeza que, apesar de tudo, a mocidade era divertida. Percorríamos os montes mais próximos e em cada casa estava sempre uma mesa posta à medida das possibilidades de cada um. Chegávamos, comíamos e, como se usa dizer, estava logo um baile armado.”

Como já se disse, a D. Maria Vicência nunca frequentou a escola: "Conheço apenas as letras de forma, que aprendi com uma cunhada minha, que se prestou a ensinar-me, no trabalho, durante os breves períodos do almoço ou do jantar.”

Como já vão longe os tempos daquela juventude, lamenta a nossa entrevistada:“Com o falecimento do meu marido, o desgosto e a tristeza apoderaram-se de mim. Provavelmente será por isso, aliado ao avançar da idade, que começou a faltar-me a ideia. Dá a impressão que esgotei o cérebro de tanto pensar. Estou muito esquecida. Bem gostaria de lhe poder contar mais coisas, mas não me ocorrem. Há tempos fiz um exame à cabeça e na chapa até parecia que tinha os miolos brancos.”
         
Agora, a D. Maria Vicência encontra-se no “Centro de Dia” do Abrigo e vai passar a noite a casa do filho Alfredo, ali na Rua Cidade do Fundão.

Agradecendo a disponibilidade, fazemos votos para que vá gozando de boa saúde.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

OS NOSSOS UTENTES


JOAQUIM JOSÉ PEREIRA


Tem oitenta e dois anos, é solteiro e considera-se bom rapaz. Chama-se Joaquim José Pereira e prestou-se de bom grado a revelar algumas particularidades da sua já longa vida.


“Nasci em Montemor no dia 9 de Fevereiro, do já distante ano de 1932, na Rua do Poço do Passo. Nesta casa vivi até aos 14 anos, depois de concluído o ensino primário. Por essa altura a família foi morar para a Quinta das Laranjas, propriedade da D. Antónia Padeira, onde o meu pai era rendeiro. Dali retirávamos os alimentos que a terra nos dava em abundância.

Mas não tinham outra fonte de rendimento ?

“Colada àquela quinta tínhamos o Pomar Bravo, uma pequena propriedade nossa que, para além, de nos proporcionar o valor da renda de umas casitas, ainda nos permitia criar, essencialmente para venda, umas ovelhas, cabras e galináceos. Era daqui que conseguíamos mais alguns rendimentos pecuniários.”

Deixemos esta fase da vida do nosso entrevistado e avancemos no tempo:

“Teria eu trinta e tal anos quando regressámos à então vila. Deixámos a Quinta das Laranjas mas continuámos a explorar o Pomar Bravo que, mais tarde, foi vendido.”

Já em Montemor houve que procurar meio de subsistência:

“Empreguei-me na serração da família Silva Borges, ali na Vilamor. Estive lá uns meses e depois coloquei-me na Câmara Municipal. Fiz aqui os mais diversos trabalhos, desde colocar alcatrão nas estradas, andar no serviço de limpeza até que, finalmente, fui para a secção de pintura e carpintaria, no estaleiro. Por aqui me mantive  até me reformar.”

Depois dos pais falecerem, o sr. Joaquim Pereira vivia, sozinho, na Rua do Poço do Passo, sensivelmente no mesmo local mas depois do prédio ter beneficiado de obras de fundo. Será que nunca pensou em casar ?

“Quando era novo namorei uma rapariga durante cerca de catorze anos. Claro que pensávamos casar, mas ela era tremendamente ciumenta. As constantes cenas, de ciúmes infundados, que previ poderem continuar pela vida fora, foram decisivas para acabar com o romance antes que fosse demasiado tarde.”

Mas voltemos à actualidade.

“Como estava sozinho, durante os últimos cinco ou seis anos tive o “Apoio Domiciliário” prestado pelo Abrigo. Porém, há cerca de seis meses dei uma queda, no passeio junto ao Minipreço, que me provocou uma séria lesão ao nível da bacia e de que resultou uma incapacidade permanente. Na altura fui radiografado e o ortopedista disse-me que o caso não tinha solução.”

E daí …

“Daí que não tive outra solução senão a de pedir ao Abrigo que me aceitasse no “Lar”, uma vez que a minha casa tem degraus que eu não conseguia, nem consigo, subir ou descer. Tenho bastantes dores e dificuldades para me deslocar mesmo em superfícies planas. Com a ajuda de uma bengala lá vou dando uns passos, mas sempre à custa de muito sofrimento.”

Conseguimos saber que o nosso entrevistado deste mês anda a tentar escrever uns versos. Confessou-nos que ainda não estão prontos mas, mesmo assim, prontificou-se a ditar o que a seguir se transcreve:

                     
                       "Se há Deus, eu não acredito
                        É o que a sorte me diz.
                        Não tem dó dum infeliz
                        Que se vê num conflito.

                        Muita gente me tem dito para eu ter devoção
                        E peço tanto a salvação
                        Que não consigo alcançar
                        Só me custa é o penar
                        Dêem-me todos atenção.

                        Choro a minha desventura
                        Eu estou farto de sofrer
                        Vivo assim até morrer
                        Se meu mal não tiver cura."

                     
Amigo Joaquim: Não desespere. Vamos ter esperança de que melhores dias virão.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

OS NOSSOS UTENTES

ARSÉNIA MARIA ESPONGINHA

Este mês trazemos à nossa página uma cara bonita que celebra 85 anos no próximo dia 3 de Março.


Sendo a mais velha de sete irmãos, nasceu no Monte do Poço da Rua, nos arredores da estação de Casa Branca, na casa da avó. “Ainda com poucos meses fui morar para o Monte do Lagar, no Escoural e depois para o Monte do Outeiro de Santa Sofia”

Nunca andou à escola. Era a sina de quem, naqueles tempos, vivia sobretudo afastado dos meios urbanos. A aprendizagem mais importante fazia-se no trabalho, muitas vezes duro para a idade, mas necessário para equilibrar a economia doméstica. E a pequena Arsénia não fugiu à regra.

“Primeiro tive de ajudar a criar os meus irmãos a fim de a minha mãe poder ir, ela própria, trabalhar. Depois, exactamente no dia em que fiz 12 anos, calhou-me a mim iniciar o que seria toda uma vida de labuta constante. Comecei por ir mondar trigo, na companhia da minha mãe, por conta de uma família de Évora, de apelido Soares, que tinha propriedades que iam de Santa Sofia até praticamente àquela cidade.”

Especialmente para as raparigas mais jovens, nessa altura o namorar era, salvo raras excepções, praticamente tarefa impossível.

“A minha mãe só me deixou namorar quando atingi os dezoito anos. Dizia ela que primeiro tinha que aprender a ser mulher, para um dia poder assumir a responsabilidade de gerir uma casa. E graças a Deus aprendi.”

E foi então que começou o romance de amor com um seu colega de trabalho, de nome Laurentino José Piteira. E passados 4 anos deram o nó.

“Casámos vai fazer 63 anos. Eu tinha 22 e o meu marido estava com 27 anos. Nunca tivemos filhos, ainda que eu gostasse muito de crianças. Nos primeiros anos fomos adiando porque quisemos primeiro estabilizar a nossa vida. Depois, os anos foram passando quase sem darmos por isso e a oportunidade passou.”

Recordemos então algumas fases desses primeiros anos de vida em comum: “Já casados, fomos residir para o Monte de Vale de Rei, perto da Graça do Divor. Continuávamos a trabalhar os dois para a família Soares. Ali morámos seis anos.”

Mas a vida ainda lhes reservava muitas outras voltas: “Labutámos muito para nos orientarmos e levarmos uma vida limpa, digna e sem dívidas. E por isso procurámos sempre o que nos parecia ser o melhor para nós. Viemos depois para o Monte dos Tanques, junto a S. Mateus e mais tarde demos um salto maior. Fomos para os arredores de Palmela para uma exploração pecuária. Estivemos lá até uns meses depois do 25 de Abril.”

E regressaram a Montemor.

“Sim, finalmente comprámos e viemos residir para uma casa no Largo do Terreiro Novo, já dentro de Montemor. Empregámo-nos primeiro na Quinta da Cruz Velha, da D. Nazaré Mousinho, onde tomávamos conta da vacaria e algum tempo depois na Herdade da Amendoeira, da família Salgueiro.”

Mas não acabaram aqui as andanças da D. Arsénia e do Sr. Laurentino.

“Algum tempo depois, o meu cunhado Joaquim Abel, que estava na Suiça, perguntou-nos se não quereríamos ir lá trabalhar uma temporada. Como tinhamos adquirido recentemente a casa, recorrendo a empréstimo bancário, aceitámos o convite para ver se nos conseguíamos ver livres desse encargo. Estivemos lá por duas vezes, num total de 15 meses. Como trabalhámos os dois e os salários eram bons, quando regressámos pudemos pagar o que faltava do empréstimo.”

E a seguir a essa aventura ?

“Ainda trabalhámos durante muito tempo, até que a idade e sobretudo a doença nos impediu de continuar. Foi assim que acabámos por solicitar ajuda ao Abrigo. Durante seis anos prestaram-nos “Apoio Domiciliário”. No entanto, o estado de saúde do meu marido foi-se agravando e, tendo havido uma vaga como residente, entrou o meu marido e eu comecei a utilizar o “Centro de Dia”, situação que ainda se vai mantendo.

D. Arsénia: desejamos-lhe as melhoras do seu marido e que a Senhora vá continuando com esse espírito jovem durante muito tempo.