segunda-feira, 29 de agosto de 2016

OS NOSSOS UTENTES

VITÓRIA MARIA LOPES SERRA


É uma das últimas “aquisições” do Centro de Dia.
Diz-se feliz pela opção que tomou e confessa que veio encontrar um ambiente acolhedor e, pelo menos por enquanto, só pode dizer bem de toda a equipa.
Apresentemo-la então:

“Chamo-me Vitória Maria Lopes Serra, completei 83 anos em Fevereiro passado e sou viúva há 9 anos de João Morraceira. Tenho uma filha – Mila – e dois netos – Mário e Daniela.”

Mas comecemos pelo princípio de tudo:

“Nasci em Lavre, onde vivi até aos 14 anos. Andei à escola mas não concluí a 4ª classe do ensino primário. Mas sei ler e quanto a escrever, lá me vou remediando. Aos 14 anos fui para Coruche como criada doméstica de uma filha do cavaleiro Simão da Veiga. Quando tinha 18 anos, um irmão da minha patroa, recém-casado e que viria a ser o pai do também cavaleiro tauromáquico Luís Miguel da Veiga, pediu à irmã que me dispensasse, a fim de ficar ao serviço da sua casa, aqui em Montemor. Porque me sentia bem, vim um pouco contrariada mas, passado pouco tempo, habituei-me e acabei por gostar também na nova família que, aliás, me tratou igualmente de uma maneira impecável. Aqui estive, de forma permanente, durante cinco anos, tendo visto nascer o Luís Miguel e os restantes irmãos.”

Por esta altura, já com 23 anos, certamente era chegado o momento de pensar em casamento.

“Isso mesmo. Eu já conhecia o João, que estava empregado na casa Mouzinho. E foi exactamente com essa idade de 23 anos que nos casámos, pelo que a partir da

í continuei a ir trabalhar a casa do sr. Luís Fernando da Veiga mas apenas dois dias por semana.”

O casamento originou, como é natural, alteração de morada…

“Quando nos casámos fomos residir para uma casa perto do que é hoje o Hospital de S. João de Deus. Ficámos aqui algum tempo e pouco depois fomos morar para a Rua da Estação, onde ainda hoje tenho casa.”

A nova situação alterou também os seus horários de trabalho…

“Sim. Já não podia estar permanentemente ao serviço de qualquer família. Assim, depois de casada, e mesmo após enviuvar, continuei sempre a trabalhar “a dias” em várias casas e tenho a honra de poder dizer que fiquei amiga de todas essas pessoas, porque em todo o lado fui bem tratada.”

Mas para além disso, e dada a sua reconhecida competência para a cozinha e dedo especial para os doces, ainda era frequentemente chamada para outras situações…

“É verdade. Eu nem sei quantos casamentos, baptizados e outras festas eu fiz ao longo da minha vida. Só tenho gratas recordações.”

Sempre muito ligada a Lavre, por laços familiares e sentimentais, a D. Vitória recorda:

“Tenho realmente por Lavre um carinho muito especial, porque passei lá a minha infância, porque deixei muitas amizades e porque tinha ali a minha família. Recordo o meu tio João Domingos Serra, trabalhador agrícola, cuja figura inspirou uma das personagens que José Saramago criou em “Levantado do Chão”. Também a minha madrinha e grande mulher chamada Maria Saraiva, que nos tempos difíceis matou a fome a tanta gente, ficou imortalizada naquele mesmo livro como “Maria Graniza”.

E desfiando o rosário de recordações, evoca então uma das passagens mais dramáticas por que passou:

“Quando tinha pouco mais de dois anos, morávamos então num monte nos arredores de Lavre, a minha mãe abandonou o lar, levando consigo apenas o meu irmão que teria um ano. Quando vi que a minha mãe ia a sair, sem ter, evidentemente, a noção de que se tratava de um abandono, tentei ir atrás dela pela estrada que liga Lavre a Vendas Novas. Fui andando num grande pranto até que, em determinada altura fui vencida pelo cansaço e por ali fiquei à beira da estrada, nas proximidades do Polígono, até ser encontrada por militares que andavam em exercícios e me transportaram para o quartel em Vendas Novas. Como não poderia ficar ali, o comandante levou-me para sua casa, até ser encontrada uma solução. O meu pai, já tendo dado pela minha falta e muito aflito, teve conhecimento de que uma criança tinha sido achada e levada para o quartel. Foi lá imediatamente e dali foi encaminhado para a casa do comandante. Confirmada a paternidade, lá me levou de regresso a casa.
Curiosamente, o meu pai nunca me contou nada disto. Só muitos anos mais tarde é que, por mero acaso, vim a saber de todos estes pormenores por intermédio de uma senhora que à época era nossa vizinha e me revelou o que acabo de relatar.”

Parece, na verdade, um episódio de novela. Mas, se bem que com uma vida bem preenchida, a D. Vitória também passou por maus bocados no que à saúde diz respeito:

“O pior de tudo foi um grave acidente de automóvel que sofri perto de Coruche e me atirou, primeiro para o hospital de Santarém, e depois para o hospital de Évora, num total de oito meses de internamento e vinte intervenções cirúrgicas.”

Mas como mulher de coragem que é, ultrapassou esses problemas e continuou a fazer pela vida. Hoje está no Centro de Dia do Abrigo. Por quê ?

“Vivia praticamente em casa da minha filha, onde estou completamente à vontade e era tratada como sempre fui, até porque tenho um genro que é tão bom como se fosse meu filho. Porém, como a minha filha trabalha como cozinheira e está praticamente todo o dia ausente, e eu não tenho temperamento para andar da casa desta para a casa daquela, passava os dias sozinha. Então, e porque desde há muitos anos que tinha esta intenção, resolvi inscrever-me no “Centro de Dia”. E aqui estou desde Julho. Sinto-me imensamente satisfeita. Para ocupar o meu tempo vou ao ginásio com frequência e ajudo a descascar batatas, a arranjar feijão-verde e noutras tarefas semelhantes. Agora, por exemplo, estou a fazer pegas para tachos e panelas a fim de serem vendidas, para a Feira da Luz, no pavilhão do Abrigo.”

Mais: por sugestão nossa, já foi ter com o maestro André para vir a fazer parte do coral “Cant’Abrigo”. Na próxima segunda-feira, às 10 horas, lá estará para o primeiro ensaio.

Um beijo, D. Vitória.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

OS NOSSOS UTENTES

LUÍS SEGISMUNDO SOVELAS

“Só fui verdadeiramente feliz enquanto vivi ao lado da minha mulher.” Foi com estas palavras que o nosso entrevistado deste mês iniciou a nossa conversa. Mas vamos conhecê-lo melhor:

“Nasci em Fevereiro de 1931 e tenho, portanto, 85 anos. Fui um dos seis filhos que os meus pais trouxeram ao mundo mas apenas quatro viveram ao mesmo tempo. Com 6 anos fomos morar para os Chões, no que é hoje o Largo Gulbenkian. Ali vivi até aos 28 anos, apenas com um pequeno interregno em que morámos na Ruinha”.

Considera que teve uma infância normal ?

“Normal terá sido se considerarmos o que eram esses tempos a vários níveis. Por exemplo: andei na escola primária e conclui a 3ª classe. Ainda frequentei a quarta mas o meu pai retirou-me porque eu tinha um irmão mais velho que era muito estudioso e, com 13 anos, faleceu com uma meningite. Os meus pais associaram a doença ao estudo e, então, retiraram-me da escola.”

Sem escola, cedo começou a trabalhar …

“Pois, com certeza. Logo aos 12 anos comecei como servente de pedreiro e, aos 17, já exercia a actividade como oficial, que continuei até me reformar. Mas enquanto fui solteiro, e especialmente quando era mais novinho, a nossa vida não foi fácil. Havia muita falta de trabalho, os rendimentos resultantes do nosso labor eram poucos e incertos e as dificuldades resultantes dessa situação eram constantes. Tínhamos de recorrer com frequência à boa vontade de alguns comerciantes, que nos iam fiando os produtos alimentares. Foi um tempo desesperante. A minha mãe, coitada, levava o tempo a contar os tostões para ver se chegavam para a comida do dia-a-dia, o que raramente acontecia. E como se não bastasse, a situação ainda se agravava mais porque um meu irmão adoeceu com gravidade e os remédios eram caros. Infelizmente acabou por falecer. Entretanto, éramos nós, os mais novos, que íamos às lojas pedir fiado, o que nos colocava numa situação tremendamente desagradável. Foi um período que me marcou para sempre. Normalmente era às mercearias dos Srs. Henrique Pinto de Sá e Albino Ferreira (Albino da Luz), ali na Rua de Avis, que nós recorríamos. Mas foi a minha tia Constança Sovelas Pereira (que ficou conhecida como a Viúva do Germano) quem mais nos ajudou. Cheguei a estar lá em casa, a comer e a dormir, durante uns meses.”

Mas esse período menos bom foi ultrapassado…

“Sim, mas deixou marcas. Quando tinha 28 anos resolvi mudar de vida e juntei-me com a minha mulher. Isto em Julho de há 57 anos, tendo sido celebrado o casamento em Outubro. Ainda estivemos uns meses numa casa perto da Rua de Avis mas em Janeiro seguinte fomos então residir no Rossio, onde ainda hoje moro. Esta casa pertencia à minha sogra – Cristina Serôdio – que era filha de Generosa Serôdio, que ali mantinha o negócio de taberna, iniciado pelo marido, e que possuía também, num anexo, uma estalagem, que alugava essencialmente a carreiros e a louceiros, para além de uma cocheira onde eram recolhidos os animais. O edifício era de chão de terra e de telha vã e, como eu era pedreiro e a minha sogra entretanto havia terminado o negócio, fui fazendo obras no prédio até chegar ao que é hoje.”

A sua vida, portanto, conheceu uma enorme transformação.

“Sim, e sem dúvida para melhor. Todo aquele drama que tinha vivido, e todas as dificuldades por que passei, deixaram uma marca tão profunda que, quando casei, prometi a mim mesmo que haveria de lutar com todas as minhas forças para nunca mais reviver tais dificuldades. Aliás, a minha vida começou logo a mudar. Primeiro porque, já com trinta anos, conclui o exame da 4ª classe, após o que fui convidado para ir para as Caldas da Rainha trabalhar na construção de uma nova escola. Mas não aceitei porque, entretanto, a minha situação já tinha melhorado, graças à preciosa ajuda da minha mulher – Cecília Maria Serôdio Trindade, minha adorada companheira de sempre e que me deu dois filhos: o António Joaquim, que tem 56 anos, e a Cecília que tem presentemente 49. Vivi 55 anos de um casamento feliz e tranquilo. Foi o melhor período da minha vida. Infelizmente a doença bateu à porta da minha mulher e essa felicidade foi completamente interrompida quando, há dois anos, fiquei sem a sua abençoada companhia. Foi um rude golpe do qual jamais irei recuperar.”

Mas tem de continuar a sua luta para ultrapassar mais esta dificuldade, certamente a mais dolorosa de todas.

“Pois, eu bem tento, mas tem sido muito difícil. Estou aqui no “Centro de Dia” há pouco mais de um mês, mas o regresso a casa, ao final de cada dia, é sempre penosa, sabendo o vazio que me espera.”

O Amigo Luís deu mostras, ao longo da vida, que é um homem de carácter e moralmente forte. Vença mais este desafio.


            

segunda-feira, 27 de junho de 2016

OS NOSSOS UTENTES

PALMIRA DA LUZ PARREIRA

 

Dia 23 de Junho, véspera de S. João.
O nosso amigo André, que estava de partida para o Porto, para mais uma actuação, nas festas da cidade, com os seus colegas dos “Peña Kalimotxo”, sugerira, para nossa entrevistada do mês, uma Senhora que eu próprio já conhecia por termos sido vizinhos, há muitos anos, na rua dos Almocreves.
Nem chegaram, portanto, a ser necessárias as apresentações. E a conversa que se seguiu, dada a excelente memória e discurso fácil da D. Palmira, foi apenas a de recolher os principais acontecimentos da sua história de vida.

“Completei em Janeiro 91 anos de idade. Sou viúva há 17 anos de Manuel Maria (Mira Serrano) e tenho 1 filho – Cláudio – mas estou deveras arrependida de não termos tido mais. Nasci na Rua de D. Vasco. Éramos três irmãos, dos quais um rapaz e outra rapariga já faleceram. Quando tinha três anos fiquei sem a minha mãe e, nessa altura, fui para casa de umas tias.”

E foi aí que continuou o seu crescimento ?

“Não. Quando fiz 5 anos meteram-me no Asilo de Infância Desvalida. Era então directora uma senhora que tratávamos por D. Maria se bem que, na verdade, eram duas das asiladas mais velhas, a Carolina e a Guiomar, que, tendo já idade para saírem, mas não tendo familiares nem alguém que as acolhesse, ficaram no Asilo a desempenhar as funções de monitoras. Estive nesta Instituição, de que era presidente o Padre Cartaxo, até aos 12 anos, idade em que as minhas tias aconselharam o meu pai a retirar-me de lá. E ele assim fez, tendo eu ido viver com o meu pai que, já viúvo, voltara a casar, e com a minha madrasta – Maria da Conceição – residentes na Rua dos Almocreves.”

Foi uma nova fase da sua vida …

“Com certeza. O meu pai tinha uma carroça e uma mula com as quais fazia fretes, transportando lenhas e outros produtos para quem solicitava os seus serviços. Mas, como se compreende, a vida não era fácil em termos económicos. Então, vi-me desde logo envolvida nos trabalhos agrícolas, tais como ceifa, monda ou apanha de azeitona. Também servi em casas particulares de famílias abastadas de Montemor. Curiosamente, foi na casa do sr. Herculano de Oliveira, que tinha uma barbearia na rua 5 de Outubro, que eu servi pela última vez e que acabou por ser o meu padrinho de casamento. E assim iam decorrendo os anos. Em determinada altura, e porque o ser criada de servir (hoje são empregadas domésticas) envolvia ter de dormir em casa dos patrões e nunca ter um horário, resolvi passar a ir trabalhar a dias, com horas de entrada e de saída.”.

E quando é que entra a fase do namoro ?

“Ainda eu estava em casa do sr. Salvador da Costa, era também lá empregado um rapaz chamado Manuel Maria e em determinada altura chegámos à conclusão de que gostávamos um do outro. Mas não foi namorar e casar logo. Tinha eu já 25 anos quando comecei a namorar o que viria a ser o meu marido. Ele tinha então 19 anos, pelo que nem sequer à tropa tinha ido. Depois de cumprido o serviço militar, e sem perspectivas de melhor emprego, fui eu pedir ao sr. Jerónimo Faria e à Esposa que tentassem, junto dos seus conhecimentos, que ele fosse admitido na Polícia, porque ali teria um futuro mais estável. E a verdade é que esse desejo se concretizou mesmo.”

E então foi casar logo …

“Ainda não. Namorámos durante dez anos e tinha eu 35 anos e o noivo 29 quando, enfim, demos o nó. Casados, fomos morar para o Beco de S. Francisco, para casa dos avós dele. Dali fomos para Évora, onde o meu marido estava colocado. Já o meu filho Cláudio tinha nascido havia pouco tempo. Passados quatro anos, o meu marido pediu para ir fazer uma comissão a Angola enquanto polícia. E fomos. Primeiro partiu ele com os colegas e, uma semana depois, fui eu com a criança. Estávamos em 1964 e o meu filho fez os 4 anos no barco. Chegámos no dia de Finados, 2 de Novembro”.

E como decorreu a sua estada em Angola ?

“Estivemos lá dez anos e as recordações não são das melhores. Trabalhei muito e muitas vezes doente. Como na casa onde vivia tinha um quarto disponível, arrendava-o a membros da polícia ou da tropa. Chegaram a estar lá três ao mesmo tempo, utilizando apenas aquele quarto. Mas era na nossa casa que eles, para além de dormirem, também comiam do que eu lhes cozinhava. Mais: tratava-lhes da roupa e, como se não bastasse, ainda arranjava a roupa de mais dezasseis militares ou polícias. Isto, claro, para além de cuidar do meu marido e do meu filho. Foi uma vida de muito trabalho e sacrifício. E só mais um pormenor que atesta bem o quanto foi importante e laboriosa a minha labuta: em Angola, o meu marido nunca recebeu directamente o seu vencimento. Era o seu pai que o levantava aqui no continente e se encarregava de o ir depositar na Caixa Geral de Depósitos. Foi assim que, durante os dez anos que permanecemos em África, vivemos apenas com o dinheiro que eu ganhava lavando roupa e cozinhando para cerca de vinte militares e polícias.”

Na verdade, não teve uma vida descansada.

“Mas, ao mesmo tempo que tudo isso, ainda tive de suportar as doenças que me afligiram, particularmente o paludismo. E, como se não fosse suficiente, também fui lá operada a um peito quando tinha pouco mais de 40 anos. Mesmo assim, nestas condições, continuava a tratar daquela gente toda.”

Entretanto passaram-se dez anos …

“Em 1975 regressámos a Montemor e fomos para a casa da minha sogra, mas o meu marido comprou uma morada na Rua de Avis, onde fizemos obras e onde eu ainda hoje resido. Mas voltando a esse tempo, o meu marido voltou ao serviço em Évora mas de imediato pediu para ser transferido para Montemor. Ainda aqui esteve algum tempo, mas como sofria de gota e já tinha ultrapassado o tempo de serviço, passou à reforma.”

E a vossa vida, enfim, estabilizou.

“Sim. Tivemos finalmente uma vida mais tranquila. O meu filho entretanto concluiu o que é hoje o 12º ano e fez um curso profissional de electricista, o que lhe permitiu ingressar na EDP, onde ainda hoje se encontra. Infelizmente, o curso normal da nossa vida acabou com o falecimento do meu marido.”

E a situação voltou a alterar-se

“Foi um rude golpe, que ainda hoje me afecta diariamente. Passei a morar sozinha, porque o meu filho já constituíra família e tinha o seu próprio lar . Comecei então a ser abrangida pelo “Centro de Dia” do Abrigo, onde primeiramente estive cerca de um ano. Num Domingo dei uma queda na minha própria casa, feri-me na cara e fracturei uma perna. Fui logo nesse dia transportada para o hospital de Évora mas só fui operada na sexta-feira seguinte. Uns quatro dias depois, ainda bastante combalida, passaram-me a alta. Como não podia ficar sozinha, o meu filho colocou-me no Lar da Quinta da Ponte. Entretanto, ele teve conhecimento de que em Estremoz havia uma clínica da Cruz Vermelha onde poderia ser ajudada na recuperação. Estive lá durante quatro meses. Passado esse tempo, o Abrigo aceitou o meu regresso e desde Março do ano passado que aqui estou de novo.”

E como tem evoluído a sua recuperação ?

“Aqui dentro ainda me desloco com o auxílio de um andarilho, mas tenho vindo a recuperar, sobretudo porque frequento todos dos dias o ginásio desta Instituição, o que acho que me tem ajudado bastante.”

Foi um prazer conversar consigo, D. Palmira. Quem diria que depois de a ter conhecido quando eu era uma criança, nos viríamos a encontrar passados tantos anos. Que tenha as melhoras que deseja.



quarta-feira, 25 de maio de 2016

OS NOSSOS UTENTES

ALFREDO JOSÉ RAFAEL PEREIRA DA SILVA


Tem 94 anos e uma excelente memória. Está no Abrigo, como residente, há perto de um ano e enviuvou há três anos de Lourença Custódia Vieira, sua companheira de sempre.

“Nasci no Monte Novo das Fazendas. Éramos oito irmãos, dos quais agora somos só dois, sendo eu o mais velho. Ainda muito novinho viemos morar para a rua do Matadouro e depois para a Rua de Aviz. Como éramos muitos a comer e apenas um a ganhar, fui guardar porcos com apenas sete anos.”

Então e a escola? Mesmo morando cá na vila não foi aprender a ler e a escrever?

“Como já disse, a vida era muito difícil e todos os tostões faziam jeito. Comecei a trabalhar no Monte do Reguinguete, colado à Caravela, e o meu patrão era o sr. José Antas (pai). Porque o local de trabalho ficava longe e não tinha qualquer meio de transporte, nem todas as semanas vinha a casa. Ficava lá a dormir numa tarimba e a comida era fornecida pelo patrão e cozinhado pela manteeira para todos os trabalhadores. Estive nesta situação meia dúzia de anos.”

Então nunca chegou a aprender a ler ?

“Aprendi. Teria eu uns quinze ou dezasseis anos, e portanto já sem idade para entrar para a escola primária oficial, comecei a ir a casa de uma professora reformada, que morava na Rua de Aviz, e, pagando, lá fiz a 3ª classe.”

E o que aconteceu depois de concluídos os estudos ?

“Como não podia deixar de ser, voltei aos trabalhos agrícolas. Entretanto, chegou a altura de ir “às sortes”, isto é, à inspecção militar. Fiquei apurado e mandaram-me assentar praça em Lanceiros 1, em Elvas.”.

E depois de cumpridas as obrigações patrióticas …

“Regressei ao mundo rural. Porém, já por volta dos meus trinta anos, comecei a dar serventia de pedreiro tendo como patrão o empreiteiro sr. Luís Torres, mais conhecido por Luís da Volta. E até me reformar estive sempre mais ou menos ligado a esta arte da construção civil.”

Não conheceu, portanto outras actividades?

“Conheci. Como ainda hoje acontece, havia alturas em que o trabalho escasseava. Então tinha de recorrer a tudo o que ia aparecendo, inclusivamente a vender cântaros de água. Por conta do sr. Adolfo Velhinha, percorria a vila com uma carroça preparada para transportar vários cântaros e ia avisando a freguesia da minha chegada com uma campainha que agitava.”

Recordo-me dessa, ou de outra carroça idêntica, cujo condutor de vez em quando batia com uma varinha nos cântaros para saber, pelo som produzido, os que estavam cheios e os que já se encontravam vazios…

“É verdade. Mas, já agora, quero contar-lhe um episódio que me aconteceu enquanto aguadeiro e que viria a mudar completamente o rumo da minha vida. Um dos meus clientes era o sr. Júlio Guerra Pereira, cuja casa fazia esquina da rua 1º de Maio com a rua dos Almocreves. Era lá empregada doméstica, ou criada, como na altura se dizia, uma rapariga que se chamava Lourença e que um dia, por brincadeira, mas certamente já com o propósito de meter conversa comigo, escondeu-me uma das rolhas de cortiça com que os cântaros eram tapados. Eu não dei por isso e ela ia mangando comigo, mas só para ter pretexto de conversa. Rindo, gostava de me dizer que eu andava à cata da rolha. E o estratagema resultou, porque começámos a namorar e passados poucos meses já estávamos juntos. Só mais tarde casámos oficialmente.”

Digamos que foi praticamente “tiro e queda” …

“É verdade. E foi um passo importante que dei na minha vida. Demo-nos sempre bem durante os mais de sessenta anos em que vivemos juntos. E ainda conhecemos a felicidade de ter dois filhos – o Júlio e a Palmira.”

E, entretanto, foi conhecendo novas residências:

“Quando casámos fomos morar para o Monte do Lameirão, depois para um monte perto da Maia, para a Travessa da Hora das Bacias e, finalmente, para o Bairro Dr. Cunhal. Com o falecimento da minha esposa e com o meu estado de saúde a degradar-se, de tal forma que me obriga a estar confinado a uma cadeira de rodas, era inevitável uma solução. E a entrada para o Abrigo foi a melhor forma de resolver o meu problema.

Obrigado, sr. Alfredo. Foi um gosto conversar com o meu Amigo.

terça-feira, 26 de abril de 2016

OS NOSSOS UTENTES

MARIA BERNARDINA DE JESUS VERMELHO


Num dia em que a Primavera continua desagradável e a teimar em não nos oferecer aquele tempo ameno de que todos já temos saudades, estivemos à conversa com a D. Maria Bernardina.

Tem 84 anos e nasceu em Vale de Marias de Baixo, perto de S. Matias. Está casada, há sessenta e tal anos, com Manuel Francisco Pires.

E começa então a desfiar a sua história:

“Éramos quatro irmãos, mas infelizmente só eu e uma irmã mais nova somos vivas. A vida no campo, naquele tempo, era muito difícil. Comecei a trabalhar com 10 anos e aos onze já ceifava. Nunca frequentei a escola, até porque por esses anos ainda não havia essa obrigatoriedade e só anos mais tarde houve escola em S. Matias.”

Então, foi a labutar nas fainas agrícolas que se foi fazendo mulher…

“Exactamente. Em determinada altura veio dos lados de Portel um rapaz, acompanhado pelo pai, para trabalhar para o mesmo patrão. Ele era cinco anos mais velho do que eu, que apenas tinha doze ou treze anos. Aliás, o pai dele, em jeito de brincadeira, ia dizendo que um dia haveríamos de casar. Mas, claro, o meu pai não achava graça a isso.”

E ficou por aí a conversa ?

“Teria eu 17 anos, cheguei à conclusão de que gostava desse rapaz e começámos muito timidamente, e à socapa, a conversar, porque os meus pais achavam que eu era muito nova. Já o pai dele via com bons olhos o namoro e até um futuro casamento porque, sendo ele já viúvo, queria ver o filho amparado.”

Portanto, já estou a adivinhar que as coisas começaram a andar para a frente…


“Estava mesmo a ver-se. Começámos a namorar ao sério e, tinha eu 19 anos e ele 25, resolvemos juntar os trapinhos. Como consequência normal, eu engravidei e, pouco depois, no casamento de uma cunhada, ela disse ao Padre a posição em que nós estávamos e ele prontificou-se a regularizar a situação, o que aconteceu passados brevíssimos meses. Já casados, ficámos a morar numa outra casa em Vale de Marias de Baixo. Eu fui trabalhando até começarem as nascer os restantes filhos, especialmente a partir do segundo, enquanto o meu marido ia labutando na sua actividade muito exigente: porqueiro e afilhador de porcas”

Então, quantos filhos tiveram ?

“Tivemos, e temos, 5 filhos: 4 raparigas e 1 rapaz, felizmente todos eles com as suas vidas arrumadas. A minha filha Romana mora perto de nós, ali na Rua de S. Domingos, e é quem nos vai ajudando naquilo que é necessário.”

Recordando os tempos passados, D. Maria Bernardina reconhece e confessa:

“Eu hoje é que vejo que naqueles anos estava completamente às “escuras”, se bem que nos últimos tempos já tivéssemos luz eléctrica e até televisão. Mas vivíamos num ermo e nem me apercebia do mundo que girava à nossa volta, metida naqueles matos sem ver praticamente ninguém. Houve anos em que quando por qualquer circunstância ali aparecia alguém desconhecido, até fugíamos com medo.”

E da sua casa no campo veio logo para o Abrigo?

“Não. Vim primeiro morar na rua das Ricas e depois para a rua de S. Domingos. Foi quando comecei a abrir os olhos e a ver coisas que eu nem sonhava que existiam. Entre o ambiente de ermo em que vivíamos e o que viemos encontrar em Montemor era uma enorme diferença.”

Mas de vez em quando dava os seus passeios…

“Não. Nunca gozei a vida. Primeiro porque o meu pai era muito austero e, depois de casada, a actividade do meu marido não lhe permitia afastar-se do gado. Só por duas vezes, em que conseguiu um substituto, é que fomos a duas excursões de um dia, a Fátima e à Marinha Grande. Mas num dia, era tudo a correr. Nem dava praticamente para nada.”

E agora ? O Abrigo organiza passeios a vários locais. Era uma boa oportunidade para ver o que nunca viu.

“Realmente, hoje em dia há essa possibilidade, mas o meu marido não quer ir e também não vê com bons olhos que eu vá sozinha.”

É de referir que o casal está no “Centro de Dia” do Abrigo há um ano e que, segundo nos confessou, são muito bem tratados.

quarta-feira, 23 de março de 2016

OS NOSSOS UTENTES

JOAQUIM ANTÓNIO MARTINS

Num destes primeiros dias de uma tímida Primavera, que ainda não se libertou do Inverno, conversámos com uma das últimas “aquisições” do Abrigo, utente do “Centro de Dia” há pouco mais de dois meses.

Joaquim António Martins é o seu nome, nasceu em Julho de 1929 e já passou, portanto, por 86 primaveras.
            
Vamos ver, então, o que tem para nos contar:

“Nasci em Vale do Pereiro, freguesia de Santa Justa, concelho de Arraiolos. Sou o mais velho de quatro irmãos. Andámos todos na escola que havia no lugar onde nascemos. Fiz lá a terceira classe e só não conclui o último ano da instrução primária porque, como eram muitos alunos a cargo de uma só professora, ela pediu uma outra colega. Como não mandaram mais ninguém, durante três anos não foi ministrada a quarta classe. Tive o azar de essa interrupção me ter abrangido.”

Isso significou uma alteração na sua vida…

“Exactamente. Com a idade de dez anos terminei a minha carreira académica e fui logo “promovido” a ajuda de gado, primeira etapa de um percurso em que fiz praticamente todos os trabalhos agrícolas.”

E foi essa a sua actividade ao longo da vida ?
           
“Não. Teria uns dezanove anos comecei a trabalhar na CP, na construção e/ou reparação das vias férreas. Durante uns tempos estive lá como eventual, mas depois ingressei mesmo nos quadros da Companhia, onde me mantive cerca de trinta anos, até atingir a idade da reforma.”

Percorreu então vários locais de trabalho…

“É verdade. Estive a trabalhar em várias estações e apeadeiros: Cabeço de Vide, Estremoz, Fronteira, Évora, Évora-Monte, Casa Branca, Pinheiro do Sado e Paião, onde me encontrava quando me reformei. Construí, reparei ou substituí muitos quilómetros de via férrea, contribuindo assim para o desenvolvimento da empresa e para a segurança dos passageiros.”

E depois da reforma ficou a viver na estação do Paião ?

“Não. Em devido tempo consegui adquirir uma casita ali no Bairro da CHE, onde ainda hoje resido. Mas depois de reformado ainda me deslocava para o Paião, numa motorizada, a fim de cultivar e tratar de uma hortita. Até que há cerca de 15 anos um AVC limitou-me fisicamente e tive de desistir dessa actividade.”

Mas voltemos uns anos atrás. Perto de comemorar 60 anos de casado com Ilda da Silva Soares Pires Martins, o nosso Amigo Joaquim recorda como tudo começou:

“Ainda em Vale do Pereira, tinha eu dezasseis anos, conheci, por uma circunstância de acaso, a Ilda, com menos três anos do que eu e que morava na estação do Vimieiro. Dada a distância geográfica que nos separava só um tempo mais tarde voltei a vê-la, porque os seus pais foram morar para Vale do Pereiro. Mas a verdade é que, apesar dos anos de afastamento, eu nunca a tinha esquecido. E então, a chama que parecia adormecida voltou a acender-se e com mais força. E começámos a namorar ao sério se bem que, apesar de estarmos ambos já com mais de vinte anos, tínhamos de namorar às escondidas, porque a mãe não queria o namoro da filha, se bem que nunca tivesse quaisquer motivos ou razões de queixa em relação a mim.”

Mas, apesar de tudo, o namoro continuou:

“Sim, e em 1956 casámo-nos. Mas, curiosamente, só uns seis meses antes é que a mãe da Ilda lhe deu autorização para namorar. Mas, até lá, quantos castigos infligiu à filha para impedir o namoro… Mas a verdade é que estamos casados há 60 anos e fomos sempre felizes. Apenas a doença da minha mulher, que também sofreu um AVC que a deixou ainda em pior estado do que eu, nos impediu de gozarmos a nossa velhice. A minha mulher também aqui está desde Outubro. E quando à noite regressamos a casa, é a minha filha que nos dá todo o apoio de que necessitamos.”

Quando no princípio da entrevista lhe perguntámos se ele estava sozinho aqui no “Centro de Dia”, respondeu-nos que estavam cá três membros da família. Perante a nossa surpresa, elucidou-nos: estou eu, a minha mulher e a minha filha Maria Rita, que também está no Abrigo … mas como cozinheira.


Melhoras para o casal, com os desejos de uma BOA PÁSCOA para todos os Utentes, Funcionários(as), membros dos Órgãos Sociais, Colaboradores(as) e Leitores(as) desta página.




terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

OS NOSSOS UTENTES

ISALINA MARIA MARCELINA


Depois das festividades carnavalescas a que o Abrigo aderiu, como é costume, voltámos à conversa, já mais calmos e recuperados das folias, com uma das nossas utentes. 


Nascida há 83 anos nos Foros dos Carapuções, perto de Cortiçadas de Lavre, numa família de oito irmãos dos quais só duas raparigas eram mais velhas que a nossa entrevistada, foi casada com António Filipe e é viúva há cerca de 25 anos. 

A vida, como se sabe, naqueles anos era muito difícil a todos os níveis. Repare-se nas primeiras declarações da D. Isalina: 

“Nunca aprendi a ler porque para aprendermos tínhamos de nos deslocar para Cortiçadas de Lavre e dos montes que compunham os Foros dos Carapuções eram só rapazes que se dirigiam para a escola, pelo que, nestas circunstâncias, o meu pai não me deixava ir. Outros tempos, outras maneiras de ver as coisas.”

E como também era habitual em casos semelhantes, começou a trabalhar bem cedo na lida do campo:

“Ao longo da minha vida fiz todas as tarefas agrícolas. Com cerca de 20 anos, ainda solteira, os meus pais foram morar para a Barrosinha. Então, só a minha irmã mais velha era casada, pelo que os restantes irmãos estavam na casa paterna e a labutar no campo.”

Por esta altura, certamente que já havia namorico …

“É verdade que tive vários pretendentes, mas eu era muito esquisita e nenhum me agradava. Até que, teria eu os meus vinte e quatro anos, apareceu aquele que pensei ser o certo. Ainda hoje não sei porque foi o escolhido. Inclinei-me para ali. Num baile campestre apareceu esse rapaz que começou a dançar comigo e foi como que o fogo ao pé da estopa. Aceitei-lhe namoro e passados dois anos estávamos casados. Fomos abençoados pelo Santo António e casámos pelo S. João.”

Passemos então à fase de casada:

“Depois do matrimónio, ficámos ainda na Barrosinha, ainda que noutras casas. Mas a nossa permanência aqui foi sol de pouca dura, porque o monte era muito isolado. Fomos então para a Sesmaria Nova, da Família Praça, onde, aliás, o meu marido nascera tal como os seus quatro irmãos. O meu António Filipe sabia e fazia todos os trabalhos agrícolas e eu ajudava-o, porque desde os meus 12 anos que sabia o que era trabalhar a sério. E para não perdermos mais tempo arranjámos logo o primeiro filho, o Manuel António, que haveria de nascer no ano seguinte.”

Teve de deixar a sua actividade enquanto o seu filho era bebé…

“É verdade. Só quando o meu filho era pequenino e precisava de mais cuidados é que interrompi o trabalho durante cerca de dois anos. E só retomei a minha actividade quando o podia ter ao pé de mim. Porque nessa altura tinha a meu cargo a cozinha dos trabalhadores. Fazíamos um grande lume ao ar livre e eu tomava conta das panelas, normalmente cobertas com testos de barro, contendo o almoço que cada um trazia de casa. Perto desse brasido existia um alpendre, coberto com folhas de zinco, e era aí que o meu Manuel ficava sob o meu olhar.”

E terminaram aí as vossas andanças ?

Não. Dali fomos para uma outra herdade da mesma Família Praça, chamada “Carregais”, onde viria a nascer o meu Jorge Manuel. Por aqui ficámos durante  nove anos. Seguiu-se mais um igual período de nove anos em “João Pais”, ali para os lados do Reguengo. Finalmente mudámo-nos mesmo para o Reguengo, onde o meu marido teve a infelicidade de sofrer uma trombose que lhe haveria de ser fatal três meses depois.”

E a sua vida sofreu uma grande transformação.

“Sim, como é fácil de perceber. Já estava então reformada e vivia com o meu filho mais novo, também ele operário agrícola, que, sendo solteiro, contribui para o sustento da casa, completando a minha reforma. Então, com o decorrer dos anos a deixarem as inevitáveis mazelas, consegui que o Abrigo me admitisse no “Centro de Dia”, onde me encontro desde Julho de 2014. À noite transportam-me para o Reguengo, onde estou com o meu filho.”

Não sabendo ler e não ligando muito aos programas transmitidos nos vários televisores espalhados pelas diversas salas, o dia da D. Isalina passa-se normalmente a conversar com outras utentes, quando o assunto lhe agrada ou desperta interesse.

Confessou-nos que em nova gostava de cantar, pelo que lhe sugerimos a entrada para o grupo coral “Cant’Abrigo”. Sorriu, mostrou-se reticente mas ainda não se decidiu.


Boa saúde, D. Isalina, é o que todos lhe desejamos.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

OS NOSSOS UTENTES


HORÁCIO ANTÓNIO PREGUIÇA


Com o novo ano renova-se também a vontade de continuarmos a dar a conhecer a parte mais significativa da vida dos nossos utentes.

Hoje é a vez de Horácio António Preguiça, que lutou para conquistar o seu lugar mas que não viu a sorte sorrir-lhe, em termos de saúde, quando a sua vida estava bem encaminhada. Mas vamos ouvi-lo:
“Nasci em 1946 no Monte de Monfurado, que pertence ao Escoural. Aqui vivi até ir para a tropa. Frequentei a escola em Rio Mourinho, onde conclui a 4ª classe. Como era normal, terminada a instrução primária comecei logo a trabalhar no campo, nomeadamente a guardar gado. E assim se foram passando os anos até assentar praça. Durante a minha vida militar dei várias voltas, mas quando terminei estava em Cavalaria 3, em Estremoz, ainda que também tenha prestado serviço no Forte da Graça, em Elvas.”

Foi então altura da sua vida conhecer novos horizontes…
“Desmobilizado e concluída esta fase obrigatória, era para mim impensável voltar à vida antiga. Fui então para Lisboa tirar um curso de electricista, ramo que me seduzia e que certamente me permitiria conseguir colocação numa área que me agradava. E aproveitei a estada para concluir também o Ciclo Preparatório. Já habilitado profissionalmente, entrei para uma empresa denominada Electro-Técnicas Reunidas, e o meu primeiro trabalho foi num palacete em Cascais que, mais tarde, haveria de ser a Capitania do Porto de Cascais.

Mas não ficou por aqui.
“Claro que não. Por conta da mesma empresa fui trabalhar, também como electricista, para a refinaria de Sines, onde estive mais de um ano. Entretanto, ainda tentei tirar o 5º ano dos liceus, mas a transferência para Sines e a dificuldade com o “francês” impediram-me de alcançar esse objectivo. Para a mesma empresa trabalhei ainda numas residências aqui junto à Pintada, não só como electricista mas inclusivamente na qualidade de técnico de telefones.”

Então, nova volta no seu percurso:
Concluída esta fase da minha vida, desloquei-me para Angola, já por conta de outra empresa, denominada Acta. Andei por lá três anos, e trabalhei, por exemplo, sempre como electricista, em três delegações de um Banco, o BIC.”

Deu-se o regresso e novo patrão, ainda que desempenhando as mesmas funções:
“Fui para o Porto, para uma empresa que estava a ser construída e que se viria a dedicar ao corte e plastificação de aço inox, que vinha de Espanha. Calhou-me, portanto, proceder à instalação eléctrica para depois os espanhóis virem montar as máquinas que permitiam que, ali,  o aço inox fosse cortado, polido e plastificado de harmonia com os desejos de cada cliente, de forma a evitarem-se desperdícios.
Do Porto, e ainda por conta da mesma empresa, desloquei-me para Azeitão para fazer a iluminação pública de algumas ruas.”

E foi por esta altura que se deu o episódio que, infelizmente, iria influenciar definitivamente o futuro do sr. Horácio:
“Aqui, já eu tinha ultrapassado os 60 anos, aconteceu o que me haveria de marcar para o resto da vida. Durante o período de trabalho, fui vítima de uma trombose e fui de imediato transportado para o Hospital Garcia de Orta, em Almada. Estive ali internado durante uma semana e, depois de uma ressonância magnética à cabeça, disseram-me que não havia nada a fazer e mandaram-me para casa, paralisado do braço direito. Algum tempo depois, não muito, desloquei-me a Évora e caí. Fui conduzido ao Hospital e, segundo penso por problemas de circulação, até porque já tinha feridas nos dedos do pé esquerdo, operaram-me e cortaram-me a perna esquerda uns quatro dedos abaixo do joelho.”

Foram tempos dolorosos, física e psicologicamente…
“Foram tempos terríveis. Quando saí do hospital de Évora vim para Montemor fazer fisioterapia no Hospital de S. João de Deus durante uns meses. Depois, estive em Mora num centro de acolhimento, até que consegui vaga aqui no Abrigo, em Montemor, para onde entrei como interno em Julho de 2013.”

Confinado a uma cadeira de rodas, e mesmo assim limitado na sua deslocação devido à paralisia no braço direito, como é que o sr. Horácio ocupa os seus tempos ? Falámos nas hipóteses que tem no grupo coral, no teatro, na leitura (até porque tem um bom nível escolar), mas nada disto lhe desperta suficiente interesse. E justifica-se:
“Não sei cantar, nunca tive jeito para o teatro e quanto a leitura a minha vista já não é o que era, pelo que me limito a ir vendo a televisão.”


É pena, mas respeitamos a sua opção. Obrigado pela disponibilidade com que nos atendeu.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

OS NOSSOS UTENTES

CAPITOLINA MARIA  (PITEIRA)


Vamos encerrar as entrevistas deste ano com uma Senhora cuja família é bem conhecida de todos nós.

Nasceu em S. Cristóvão há 93 anos, mais propriamente no dia 9 de Outubro de 1922. É a mais velha de três irmãos (2 rapazes e ela própria) e começou bem cedo a conhecer as agruras da vida: 

“O meu pai era carvoeiro e vinha numa carrocinha com um burro trazer o carvão a Montemor. Dentro do que a minha idade permitia, lá o ia ajudando em diversas tarefas, reunindo lenha ou toros com que se alimentavam os fornos da carvoaria. É claro que quanto a escola nem pensar nisso. E foi assim que decorreu a  minha vida até aos 11 anos, idade que tinha quando a minha mãe faleceu. Os meus irmãos tinham, então, 9 e 6 anos.”

Se a vida não tinha sido fácil, percebe-se que a partir daí tudo se agravou:

“Este triste acontecimento foi um rude golpe para todos nós. Como já disse, tinha onze anos e foi precisamente com esta idade que vim trabalhar para casa do Sr. Francisco Simões Carneiro, que era 2º comandante dos Bombeiros e morava na Rua 5 de Outubro, ou Rua Nova, como era mais conhecida. Desde criança que sentia um certo entusiasmo com a cozinha. E foi nesta casa que aprendi e fui desenvolvendo os meus conhecimentos nesta arte. Com catorze anos fui servir para casa da D. Celeste Falcão, mãe de Guilhermina Marques. A senhora morava ali na esquina da Ruinha com a Rua do Calvário, junto ao Jardim Público. Recordo que depois da senhora falecer, esta casa foi abandonada e esteve em ruínas durante muito tempo, só conhecendo a sua reabilitação há relativamente poucos anos.”

E por quanto tempo por lá se manteve?

“Estive ali até aos 21 anos, idade com que me casei, depois de ter namorado cerca de 3 meses.”

Estranhámos e perguntámos se apenas com três meses de namoro ficou logo com a certeza de que iria dar o passo certo. E a resposta veio pronta:

“Aquele que viria a ser o meu marido – Joaquim Francisco Piteira - trabalhava como carpinteiro de carros (carroças) na oficina do Sr. Serra, conhecido por “Segeiro”. Então, dada a proximidade entre o seu local de trabalho e a casa onde eu servia, o conhecimento aconteceu naturalmente. O meu pai entretanto já tinha falecido há quatro anos atrás, eu vi-me sozinha e decidi que era altura de encaminhar a minha vida. Nunca tinha namorado e ninguém tinha qualquer coisa a apontar-me. E logo que conheci aquele rapaz fiquei com a certeza de que era a pessoa certa e, felizmente, não me enganei. A minha sogra morava na Ruinha e, como depois vim a saber, estava sempre a perguntar ao filho quando é que ele me levava. Então, um dia aconteceu. Fugimos, mas não foi para muito longe porque ao lado da minha sogra havia uma outra casa e foi lá que nos instalámos. Pouco tempo depois regularizámos oficialmente a nossa união, numa cerimónia celebrada na Igreja do Calvário pelo Padre Cerca. Foi naquela casa que nasceu o nosso primeiro filho.”




A prova mais evidente de que a D. Capitolina acertou na escolha do seu marido e de que estiveram sempre muito ligados afectuosamente, está no facto de terem tido 7 filhos (5 raparigas e dois rapazes) felizmente ainda todos vivos…”

“É verdade. Graças a Deus. E a sucessão está garantida, porque tenho 16 netos, os bisnetos já são 11 e com um outro a caminho.”

Mas vamos lá a retomar o seu percurso de vida.

“Como já disse, naquela casa da Ruinha nasceu o meu primeiro filho. Entretanto, as carroças começaram a desaparecer, sendo aos poucos substituídas por carros, carrinhas e camionetas. E a oficina do sr. Serra começou a sentir essa mudança, traduzida em menos trabalho. Daí que, em determinada altura, o meu marido foi convidado a ingressar na firma José Joaquim Cornacho & Filhos, onde acabou por ficar durante mais de quarenta anos. E ali, desde reparações de maquinaria agrícola, serviços de carpinteiro, forjador e ferramenteiro fez praticamente de tudo. Quando entrou para a firma fomos morar para o chamado “Monte dos Cornachos” e posteriormente para uma casa junto à oficina.”

Foi um bom período da sua vida…

“Exactamente. Sobretudo até o meu marido falecer, tinha eu 66 anos. Nessa altura fui morar para o Bairro de N. Sra. da Visitação, onde residi mais de 20 anos.”

Está no Abrigo, na vertente “Centro de Dia”. E à noite ?

“À noite e durante os fins de semana vou, alternadamente, para casa de cada uma das minhas filhas.”

Já nos disse que nunca andou à escola enquanto criança. E depois de adulta ?

“Há uns anos, já então era viúva, andei ali no Convento de S. Domingos, mas por motivos de doença tive de desistir. Ainda aprendi uns rudimentos, mas com o passar do tempo fui-me esquecendo.

E aqui no Abrigo desenvolve alguma actividade ?

“Aproveito os passeios que o Abrigo organiza, e já fui a vários lados, nomeadamente a Fátima e Vila Viçosa. Também aqui em Montemor, e para além das minhas voltas pelo espaço exterior, participo igualmente nas visitas que fazemos regularmente a vários locais.”

Mas a D. Capitolina sabe que existe aqui um grupo de teatro e um grupo coral. Nunca esteve tentada a experimentar ?

“Olhe, ainda ontem (dia 15 de Dezembro) assisti à Festa de Natal, feita pelos utentes do Abrigo, e gostei de ver. Aliás, devo confessar que já pensei ir para o grupo coral, mas depois acabo por desistir da ideia.”

Porque ficámos convencidos de que a concretização deste desejo é só uma questão de tempo e de um empurrãozinho, fomos com a D. Capitolina junto do maestro André Banha dar-lhe conhecimento de que estava ali uma possível futura coralista. Ficou logo combinado que iria comparecer na segunda-feira seguinte para o seu primeiro ensaio.

Para terminar, a nossa entrevistada ainda quis acrescentar o seguinte:

“Olhando para o que foi a minha vida, reconheço que, a par das contrariedades e desgostos que sempre acontecem, sobretudo quando desaparecem os entes queridos, tive uma vida feliz. Fui bafejada pela sorte com o marido que escolhi e com os filhos e filhas que tenho e que ainda hoje são os meus melhores amigos.”


Resta-nos desejar à D. Capitolina, a todos os Utentes, Funcionários, Colaboradores, membros dos Órgãos Sociais, e respectivas Famílias, um BOM NATAL e um NOVO ANO sobretudo com muita saúde!


quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

HOUVE FESTA DE NATAL NO ABRIGO




“Fechemos os olhos. Assim será mais fácil para todos viajarmos 30 anos para trás e chegarmos ao ano de 1985. Exactamente. Mil novecentos e oitenta e cinco. Imaginem-se todos então com menos 30 anos….”

Foram estas as primeiras palavras que deram o mote ao que se seguiria: a evocação do Montemor daquele tempo, com os seus conhecidos estabelecimentos comerciais e de restauração, com as figuras carismáticas da época e as actividades lúdicas e desportivas que animavam a então ainda vila de Montemor.

E recordando a azáfama que, tal como hoje, se fazia sentir por alturas do Natal, foram desfilando perante a assistência, que enchia completamente o salão, os componentes do grupo cénico do Abrigo, que desempenharam com talento e desenvoltura os papéis que lhes foram distribuídos.

A par de diversas cenas com que os vários actores e actrizes iam evocando o quotidiano da vila, esteve o Leopoldo Gomes a interpretar um locutor que, sozinho, na noite de Natal, estaria de serviço aos microfones da velhinha Rádio Almansor.

E eram então muitos os ouvintes, com a telefonia junto a si, que escutavam o programa dessa noite especial, ligando a pedir temas que dedicavam a familiares ou amigos. E foi assim que escutámos “Gotinha de Água”, “Apita o comboio”, “Pera Verde”, “Romã”, “Danúbio Azul” (que uns quantos pares logo aproveitaram para valsar), “Ceifeira” e várias canções alusivas ao Natal, que o Grupo Coral Cant’Abrigo, composto, como se sabe, por utentes desta Instituição, tão bem interpretou justificando por isso a recolha de fartos aplausos.


José Manuel Brejo e Maria do Céu Mestrinho conduziram o espectáculo como bem sabem, enquanto o maestro André Banha dirigiu os seus coralistas.

Para além dos nomes já citados, interpretaram os textos os(as) seguintes utentes: Albina, Angelina, Salvador, Basilissa, Joaquim da Cabrela, António Lopes, Narcisa, Mariana, Deonilde e as suas “crianças” Maria Elisa e Vina.

No final foram distribuídas as habituais prendas e servido um farto lanche.

Até para o ano e um BOM NATAL para todos!