quarta-feira, 1 de março de 2017

OS NOSSOS UTENTES

VITÓRIA DE JESUS
           
 Ainda nem nos tínhamos sentado para conversar, já a D. Vitória nos alertava para o facto de ter uma memória muito fraca e que certamente poucas recordações iríamos aproveitar. Afinal, e como não é a primeira vez que acontece, quando começou a desfiar o seu rosário, muitos factos da sua vida lhe foram surgindo naturalmente, se bem que alguns bastante desagradáveis. 

Viúva de José Gonçalves há 30 anos, ainda tem os dois filhos que nasceram do matrimónio: Felícia Vitória e Manuel José Pinto Rebocho.

“Nasci no Monte do Peso, perto das Brotas, no dia 4 de Agosto de 1921, pelo que tenho 95 anos já feitos. Sou a mais velha de cinco irmãos, dos quais já faleceram dois. O meu pai era ganadeiro e quando eu tinha sete ou oito anos fomos morar para a zona do Ciborro, onde ainda frequentei a escola primária, mas sem aprender qualquer coisa que se visse, porque andei lá muito pouco tempo.”
            
E andou na escola pouco tempo porquê?
            
“Como tínhamos muitas dificuldades, o meu pai cedo me requisitou para o ir ajudar no pastoreio. Comecei assim a ganhar a vida como ajuda de cabras, sempre ali nas zonas do Rabaçal, Ciborro e S. Geraldo.”
            
E continuou trabalhando com o gado ?
            
“Não. Passados poucos anos, já então morávamos mesmo no Rabaçal, iniciei o que seria sempre a minha vida. Aprendi e sabia fazer de tudo: mondar, ceifar, apanhar azeitona, escaldeirar as cepas na vinha e, enfim, todos os trabalhos do campo que me iam aparecendo.”
            
E como é normal, surgiu o momento do namoro…
            
“Nunca fui namoradeira. Apenas conheci o que haveria de ser o meu marido e chegou-me bem. Casámos teria eu uns vinte anos. O José também labutava no campo e foi no trabalho que o conheci. Ele era carreiro por conta do sr. Gabriel Nunes. Namorávamos nos intervalos do trabalho e nos bailes que eram frequentes na Freixeira. Quando achámos que estava na altura certa, juntámo-nos e casámos passada uma semana.”
            
Foi portanto o momento de dar novo rumo à vossa vida…
            
“Já casados, ficámos a residir na Fonte Santa. O meu marido continuava no mesmo serviço, e para o mesmo patrão, e eu fazia também aquilo que, afinal, foi e seria sempre a minha vida. Aqui nasceu a minha filha, que anos depois também casou e foi viver para os Foros de Vale Figueira, onde ainda hoje mora. Depois de lhe nascerem dois filhos, teve a infelicidade do seu marido falecer.”
           
Mas a D. Vitória foi-se mantendo pela Fonte Santa ?
           
"Não. Mudámo-nos para uma casa em Montemor, junto à ponte do caminho-de-ferro. Aqui nasceu o meu Manuel José, que frequentou a escola e concluiu a 4ª classe. Vivia-se, então, um longo e difícil período. Enquanto ele estava na escola, e porque comia na cantina, eu ia fazendo o que me aparecia. Recordo-me de uma altura em que andava a cavar favas na encosta do castelo. À hora do almoço ia a casa para almoçar, se é que a isso se poderá chamar almoço. Então, limitava-me a beber um copo de água com um pedaço de pão seco, regressando logo de seguida para continuar, até ao anoitecer, a cavar favas. Isto porque se eu comesse ao almoço o pouco que havia em casa, já não tinha para colocar na mesa ao jantar e então ninguém comia.”
           
Isso era na verdade angustiante…
            
“Nem queira saber. Tivemos sempre uma vida muito difícil, que se agravou por haver muitas crises de trabalho. Veja que o meu marido, e muitos colegas trabalhadores agrícolas, andaram quase de porta em porta a solicitar trabalho ou a pedir alguma coisa com que pudessem alimentar minimamente a família. Eram situações degradantes que só quem passou por elas pode avaliar e compreender.”
           
E esta situação manteve-se durante muito tempo ?
            
“É verdade. Eu ainda hoje nem quero pensar no que penámos. Passado algum tempo mudámo-nos para o monte da Sra. da Conceição. Foi quando o meu marido arranjou trabalho na pedreira de S. Luís e eu fui com ele para partir pedra, tal como o meu filho que, entretanto, já terminara a escola. Em S. Luís, e enquanto durou o trabalho na pedreira, vivíamos numa barraca que nós mesmos tivemos de construir. Isto, claro, acontecia também com os muitos trabalhadores que lá estavam. Então, íamos juntando a pedra em montinhos e depois éramos pagos de harmonia com os metros cúbicos que cada trabalhador tinha conseguido reunir quando uma camioneta vinha carregar.”
            
Calculo que seria um trabalho muito duro.
            
“Não tenha dúvida. Mas a necessidade a isso obrigava. Passados alguns anos na pedreira, consegui arranjar trabalho para o meu filho num talho em Setúbal, onde ainda hoje ele mora e exerce a mesma profissão. Ficámos então a morar nesta cidade porque o meu marido e eu também arranjámos trabalho no campo. E quando as coisas pareciam estar a tomar um melhor rumo, sucede o falecimento do meu marido. Depois de viver sozinha durante algum tempo, o meu filho quis que eu fosse para casa dele, mas passado algum tempo tive de recorrer ao Abrigo, onde me encontro há cinco anos.”
            
Agora, sem saber ler nem escrever, como ocupa os seus dias aqui no Abrigo?
            
“Vou conversando e preenchendo os meus dias com os ensaios e actuações do coral “Cant’Abrigo” e participo também nas actividades teatrais que aqui se fazem regularmente. Agora mesmo estamos a trabalhar para esta quadra do Carnaval. Preparamos os fatos para o desfile carnavalesco e para a “Queima dos Compadres”, cujos protagonistas neste momento ainda nem sei quem são.”

            


Mal sabia a D. Vitória, no dia em que conversámos, o “quente” destino que lhe foi reservado !...

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

QUEIMA DOS COMPADRES 2017




QUEIMA DOS COMPADRES


A tradição cumpriu-se mais uma vez e a “Queima dos Compadres” teve lugar aqui nas instalações do Abrigo, na manhã de terça-feira, dia 21 de Fevereiro.

Antes, porém, há que fazer um pequeno esclarecimento. Ao contrário do que há já uns quantos anos acontecia frequentemente em Montemor, sobretudo por iniciativa das sociedades recreativas, esta cerimónia pouco tem a ver com a então “Serração da Velha” em que, como muitos ainda se recordam, havia um processo em tribunal contra uma “senhora” a quem eram apontados muitos defeitos e deslizes. E era em pleno julgamento, que tanto a defesa da arguida como os seus contrários expunham argumentos. Claro que havia sempre a inevitável condenação, proferida, com pompa e circunstância, pelo juiz. Era então chegada a altura de velha condenada ler o seu testamento, escrito em quadras, em que eram contemplados, nem sempre de uma forma meiga, os muitos herdeiros conhecidos de toda a gente.


Aqui, na “Queima dos Compadres” a condenação está previamente decidida e as vítimas só no momento são identificadas. Nem elas próprias sabem o destino que, desde há muito, lhes está reservado: a fogueira.

Durante algum tempo, reúne-se um grupo de homens que, entre si e em segredo, escolhem a “comadre” a ser queimada. Ao mesmo tempo, um grupo de senhoras procede da mesma forma em relação a um “compadre”. Então, em sessão pública, o porta-voz dos homens dá a conhecer, através de quadras, não só elementos que permitem a todos, inclusivamente à própria “vítima”, identificar de quem se trata como, ainda, revelar o que as “herdeiras” vão receber em testamento. Claro que depois é a vez das senhoras, por intermédio da sua representante, proceder de igual modo para com o “compadre” que também vai conhecer o seu acalorado fim.



E ficou a saber-se que a “comadre” sacrificada era a D. VITÓRIA DE JESUS e o “compadre” o sr. ANTÓNIO PEDRO DOS SANTOS, ambos utentes deste Abrigo.

E, traçado o seu destino, lá foram ambos retirados para serem queimados na fogueira, previamente preparada para o efeito, na presença de numerosos e divertidos assistentes.

Tudo, afinal, para acabar em beleza e com a certeza do dever cumprido. Os intervenientes reconheceram depois que viveram todo um processo que lhes rendeu momento de divertimento. Eis os protagonistas:

Grupo das Comadres:
Joaquina da Quinta, Basilissa Perna, Angelina Merendeira, Maria Narcisa Ferreira, Vitória Lopes Serra, Rute Borla, Rosalina Maria, Vitória de Jesus, Visitação Alves, Maria Luísa Pinheiro, Micaela Barreiros, Isalina Marcelino e Marta Dias.


Os versos foram escritos por Custódia Cardador e Maria do Céu Mestrinho, que também se encarregou do guarda-roupa.

Grupo dos Compadres:
Rogério Arraiolos, Leopoldo Gomes, Isidoro Grulha, Joaquyim Rafael Martins, Francisco Tira-Picos, Salvador Boleto, António Lopes, Filipe Palma, António Pedro dos Santos e Joaquim Pinto.
            

Os versos foram concebidos pelo André Banha com a colaboração de outros membros do grupo.
            
No final, nos bastidores e enquanto tiravam as cabeleiras, as senhoras já anteviam com entusiasmo o desfile carnavalesco do próximo dia 25. Mas não revelaram pormenores das suas máscaras, para nos manterem na expectativa.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

OS NOSSOS UTENTES

ANTÓNIO PEDRO DANIEL DOS SANTOS


Após as Festas de Natal, a conclusão de mais um ano e a realização das Janeiras e do Concerto de Ano Novo, a cargo do Coral “Cant’Abrigo”, sob a direcção do maestro André Banha, chegou o momento de realizarmos mais uma entrevista.

E as primeiras palavras do nosso entrevistado, que se repetiriam ao longo da conversa, foram “não sei nada” e “não percebo nada disto” quando, afinal, até acabou por se mostrar colaborante.

Vamos então ouvi-lo:

Nasci num monte chamado Casa Nova do Passa Figo, ali para os lados do Paião. Sou o mais velho de 6 irmãos (3 rapazes e 3 raparigas) dos quais já faleceu uma das minhas irmãs. E depois de uma infância normal, para o que eram as condições da época, até fui aprender a ler. Não numa escola oficial, mas com uma senhora já de idade, que suponho que não professora, que sob a alpendorada do Monte do Foro, perto da Fidalga, reunia um grupo de rapazes e raparigas para ensinar as primeiras letras. Ficámos a saber ler e escrever mas sem fazermos exame.”

Isso significa que ainda hoje não tem qualquer diploma escolar…

“Mais tarde, já em adulto, fiz o exame da 3ª classe aqui em Montemor. Foi examinador o sr. Prof. Feliciano Oleiro, uma excelente pessoa de quem guardo boas recordações. Recordo-me ainda de uma pergunta que ele me fez e me deixou atrapalhado, e que só depois compreendi o seu alcance. Disse-me então que, à porta de um templo, os fiéis contribuíam com donativos, alguns de elevado valor provenientes dos homens mais ricos. Ao mesmo tempo, um pobre homem apenas deixou uma esmola muito modesta. E perguntou-me então o sr. Professor qual era, na minha opinião, a contribuição mais valiosa. Perante a minha hesitação explicou-me que a deste pobre homem era a mais importante, porque, apesar de humilde, dera tudo o que possuía, ao contrário dos outros que apenas tinham contribuído com uma pequena parcela da sua imensa riqueza. Concordei e nunca mais me esqueci desta lição.”


O nosso Amigo António fará 86 anos no próximo dia 31 de Março. É viúvo de Porfíria Maria Roque, já falecida há perto de dezassete anos. Não tiveram filhos. Mas recuemos um pouco:

“Comecei cedo a trabalhar. O meu avô era pastor e eu ajudava-o nessa lida. E teria pouco mais de 12 anos quando comecei a ceifar e aos 14, na herdade de Vale de Nobre, perto da Torre da Gadanha, comecei a fazer todos os trabalhos agrícolas, que fui continuando até me reformar. Entretanto chegou também a idade dos namoricos. Gostava bastante de ir aos bailes que se realizavam ali nas Fazendas e ainda namorei uma meia dúzia de moças.”

Até que…

“Tinha que se dar. Com 25 anos juntei-me com a minha Porfíria e só mais tarde casámos oficialmente. E fomos sempre os dois trabalhadores agrícolas. Quando casámos fomos morar para o monte do Valverde, junto a S. Mateus. E éramos felizes. Mas o pior estava para acontecer. Um dia, a minha mulher foi operada em Évora a uma hérnia estrangulada. As coisas não correram bem e ainda foi transferida para Lisboa para o hospital S. Francisco Xavier, mas não a conseguiram salvar.”

Foi um duro golpe…

Nem me quero lembrar. Quando enviuvei estive um tempo no Pinhal Novo em casa da minha irmã Maria. Mais tarde foi morar num anexo da casa do meu irmão Florentino que morava, e mora, aqui na Rua Fernando Namora. Já então recebia o apoio domiciliário do Abrigo e só em Junho último passei à condição de “residente”.

Como sabe ler, certamente que ocupa parte do seu tempo na leitura de jornais, revistas ou livros.

“Não, hoje já não tenho paciência nem disposição para ler e, muitas vezes, nem sequer para ver televisão. Já me falaram no coral e no grupo de teatro, mas a gente chega a uma certa idade em que deixa de ter interesse seja pelo que for. Não é por isto nem por aquilo, mas apenas porque já nada me apetece. O ano passado ainda fui passar uma semana à praia e confesso que até gostei. E pode ser que este ano volte a acontecer. Vamos ver como me sinto quando chegar a altura.”

Amigo António. Vamos lutar contra essa falta de interesse. Temos de aproveitar todos os momentos em que podemos ser felizes.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

OS NOSSOS UTENTES

MÓNICA ETELVINA FIGUEIRAS BARBEIRO

Possuidora de uma excelente memória e de uma fluência assinalável, apesar de ter sido atingida por problemas graves de saúde, a nossa entrevistada deste mês nasceu em S. Pedro da Gafanhoeira (Arraiolos) em 26 de Junho de 1937. Viúva há 46 anos de João Inácio de Mira Salgado, teve três filhos, um dos quais faleceu há 11 anos e cuja perda ainda hoje lamenta e chora.

E vai contando:

“Éramos cinco irmãos (3 rapazes e duas raparigas). Todos nós frequentámos o ensino primário e concluímos a 3ª classe ainda que eu, mais tarde e já viúva, tenha estudado e feito o exame da 4ª classe.”

Aproveita este tema da conversa para contar o que, hoje, não deixa de ser insólito mas que na altura, e dadas as circunstâncias, se tratava de uma situação dita normal:


“O meu avô paterno era uma pessoa sem grandes estudos mas de enorme sabedoria. Desempenhava as funções de regente escolar, nome que se dava às pessoas que não tendo frequentado sequer o Magistério, substituíam nas zonas rurais os professores oficiais. Então, montado no seu cavalo, lá ia de monte em monte ensinar as primeiras letras aos filhos dos lavradores mais abastados. Curiosamente, este mesmo avô tinha 9 filhos (foram pelo menos estes os que conheci) e todos eles eram analfabetos, só vindo a aprender alguma coisa já em adultos.”

Mas como é que isso se explica ?

“Explica-se pelo facto de, sendo tanta gente a sentar-se à mesa todos os dias, havia que pôr toda a família a trabalhar, desde cedo, para garantir o sustento da casa.”

Mas voltando à D. Mónica …

“Quando acabei a escola, comecei quase de imediato, teria uns dez ou onze anos, a apanhar azeitona. E daí, até me casar, trabalhei sempre no campo, ao mesmo tempo que aprendia a fazer todas as tarefas domésticas. E com 15 anos comecei a namorar aquele que viria a ser o meu marido. E tinha eu 22 anos e o João 25, juntámo-nos em Setembro e casámos em Novembro.”

E então houve alteração na sua vida …

Fomos morar para o Sargaço, um monte perto de Arraiolos que pertencia ao meu sogro. Foi aqui que nasceu o meu filho mais velho. Entretanto, como a propriedade era pequena e o retalho não dava para nos governarmos, o meu marido ingressou na Polícia e fomos morar para Beja. Ele tinha já tirado o 2º ano dos liceus, estava especializado em “morse” e era sua intenção entrar nos quadros da Marconi, mas devido a doença não conseguiu esse objectivo. E foi assim que se manteve por Beja, onde atingiu o posto de 2º subchefe, com vários louvores.”

Mas um acontecimento trágico veio perturbar a sua vida:

“O meu marido veio a falecer em 1971, tinham os meus filhos 9, 7 e 5 anos. Vi-me, portanto, com dificuldades. Como eu então só tinha a 3ª classe e os empregos eram poucos, o Chefe da Polícia ainda tentou que eu entrasse como contínua numa escola primária. Porém, como eu não tinha ninguém de família em Beja que pudesse olhar durante o dia pelos meus filhos, eles teriam de entrar para a Casa Pia. E eu não quis.”

E como resolveu a sua vida ?

“Regressei à minha aldeia natal, a fim de não me separar dos meus filhos. E a minha mãe tomava conta deles durante o dia enquanto eu voltava aos meus trabalhos no campo. Foi por esta altura que fui tirar o diploma da 4ª classe, na expectativa de arranjar um emprego melhor. Mas não consegui.”

E tinha como único rendimento o produto do seu trabalho ?

“Exactamente. Nem sequer recebia qualquer pensão de sobrevivência. Porque o meu marido tinha falecido de morte natural, e não em missão ao serviço da polícia, não tinha direito a receber fosse o que fosse. Apenas, salvo erro, a partir de 1975 comecei a receber uma quantia, ainda que modesta.”

E por aí se foi mantendo ?

“Sim, senhor. Também trabalhei nas cooperativas agrícolas, tal como os meus filhos, e depois em Arraiolos a fazer tapetes na fábrica “Califa”. Continuei a viver em S. Pedro, trabalhando e fazendo toda a lida da casa. E foi o que fiz até me reformar. Entretanto, há uns meses, depois de um episódio de doença mais grave, fui viver para casa da minha filha Isaura, que reside nas Fazendas do Cortiço.”

Até que …

“Em Novembro, e porque o meu estado de saúde se agravou com uma trombose venosa, fui aceite no “Centro de Dia” aqui do Abrigo, onde actualmente me encontro. É que já não tinha condições para estar sozinha. Há cerca de dois anos, ainda em S. Pedro, fui vítima de um AVC e fiquei toda a noite caída no chão sem ter quem me acudisse. Tinha consciência do estado em que me encontrava mas nem sequer conseguia chegar ao telefone para pedir auxílio. Só de manhã é que chamei por socorro e fui ouvida”.

E como são os seus dias ?

“São passados como posso. Gosto de ler e até de ver televisão, mas os meus olhos já não são o que eram. Estou há mais de um ano à espera que me chamem para ser operada às cataratas e nem esse dia eu sequer vejo chegar.”

Pode ser que já não demore. Mas a D. Mónica já ficou a saber que, dentro do possível, vai ter acesso a jornais, revistas e livros para se ir entretendo.”


Aproveitamos para endereçar à D. Mónica, a todos os Utentes do Abrigo, aos membros dos Órgãos Sociais, Funcionários(as), Colaboradores(as), Sócios(as), Leitores(as) e respectivas Famílias, um BOM NATAL e um NOVO ANO sobretudo com muita saúde!

terça-feira, 22 de novembro de 2016

OS NOSSOS UTENTES

CUSTÓDIO FRANCISCO CAMISOLA

Foram mais de sessenta, os anos de trabalhos esforçados por que passou o nosso entrevistado deste mês ao longo da sua vida.

Ouçamos a sua história:

“Nasci na freguesia de Nossa Senhora da Tourega, concelho de Évora, no dia 31 de Outubro de 1935. Éramos três irmãos, dois rapazes e uma rapariga, já falecida. O meu pai era carreiro e, ainda eu tinha pouca idade, mudámo-nos para Évora. Por aí estivemos até aos meus seis anos. Por esta altura o meu pai faleceu e, sendo eu o mais velho dos irmãos, fui pouco depois “convocado” para me apresentar ao trabalho. Comecei com sete anos a guardar porcos na Herdade das Cabanas, ganhando vinte cinco tostões por dia (um cêntimo vírgula vinte cinco nos dias de hoje), secos, isto é, sem direito a alimentação. Fui mantendo este estatuto até aos dez anos, altura em que, no mesmo local, já guardava, para além de porcos, também ovelhas, cabras e o que calhava. Passsei a ganhar 1 escudo (dez tostões) por dia, acrescido de 1 litro de azeite e 30 kg. de farinha por mês. E trabalhava do nascer ao pôr do sol.”

E a escola ?

“Nem vê-la. Por conta de outro patrão continuei, isso sim, na escola da vida, então na Herdade das Pereiras, na mesma actividade, ganhando agora os mesmos dez tostões por dia e mais o almoço (antes do nascer do sol), o jantar (a meio da tarde) e a ceia (às sete ou oito horas da tarde). Entretanto, a Herdade das Pereiras mudou de donos, para a família Freixo. Mas eu continuei lá, embora com outros encargos. Deixei de trabalhar com o gado e passei a executar outras tarefas. Aqui, e tinha agora 15/16 anos, já ganhava sessenta escudos por mês (trinta cêntimos actuais) mais 2 litros de azeite e 35 quilos de farinha.”

E foi ficando por estas paragens ?

“Não. De seguida fui para o Freixial, que pegava com o Cromeleque dos Almendres. Tratava dos cavalos, amansava-os e preparava-os para as provas de hipismo. Ganhava 10 escudos por dia (cinco cêntimos de euro) e de comer.

E por aí ficou ?

Não. Com cerca de dezoito anos mudei novamente de emprego. Trabalhava para vários patrões nos mais diversos serviços: limpava árvores, podava, tirava cortiça e, enfim, ia fazendo todo o género de tarefas agrícolas. Nesta altura a jorna situava-se entre os dezassete e os dezoito escudos por dia (oito cêntimos e meio/nove cêntimos) Sem mais nada.

Mas, entretanto, outras coisas se foram passando na sua vida.

“Em 1954 fui pela primeira vez às “sortes”, isto é, à inspecção militar. E digo da primeira vez porque, tendo então ficado “adiado”, tive de lá voltar no ano seguinte. E fiquei “apurado”. Assentei praça em Tomar, mas um mês depois fiquei livre “ao número”. Isto acontecia quando a quantidade de recrutas era superior ao pretendido. Então, faziam um sorteio para mandarem para casa os que tinham a sorte de sair na “rifa”.

Mas certamente que a sua vida não foi só de trabalho. Com certeza que também teve as suas horas livres. Como é que as aproveitava?

“Claro que na minha mocidade tive vários namoricos. E fiz bem a minha obrigação. Se não me falha a memória, foram catorze as moças que eu namorisquei. Até conhecer a décima quinta, com quem acabei por casar. A Maria Luísa tinha catorze anos quando começámos a namorar e dezoito meses depois já estávamos casados. Eu tinha 25 anos. Fomos então morar para a Boa Fé, em cuja Igreja foi oficializada, há 56 anos, a união com a ainda minha esposa Maria Luísa Cunha Pinheiro. Deste enlace nasceu há 54 anos o nosso único filho – Ricardo José Pinheiro Camisola.

Com a vida de casado, muita coisa mudou …

“Nalgumas coisas, sim. Ainda a morar na Boa Fé, continuámos os dois a trabalhar no campo. Porém, a dada altura, consegui emprego na firma Silva Borges, Limitada, aqui em Montemor. Era uma grande empresa, onde praticamente fiz de tudo. Cortei muitos milhares de pinheiros por todo o país. Só no Algarve estive cinco anos. Era muito amigo de toda a família. Ali trabalhei até aos setenta anos, idade com que me reformei.”

Mas continuava a residir na Boa Fé ?

“Não. Em 1977 mudei a minha residência para Montemor. Tinha comprado, nos Foros da Rosenta, um terreno, com pouco mais de um hectare, e ali construí a minha casa.”

Problemas de saúde obrigaram o casal Camisola a recorrer aos serviços do Abrigo, onde estão ambos, no “Centro de Dia”, desde 1 de Setembro passado. Como se deduz do que nos disse anteriormente, nunca frequentou a escola e não sabe ler nem escrever. Todavia, como nos confessou, no trabalho costumavam dizer que ele era um autêntico computador…

No seu dia-a-dia frequentam o ginásio, vão vendo televisão quando o assunto lhes interessa, conversam e o sr. Custódio prometeu ir inscrever-se para começar a frequentar, aqui mesmo no Abrigo, as aulas de alfabetização.       Em frente, Amigo!

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

OS NOSSOS UTENTES

EULÁLIA RITA

Logo no começo da nossa conversa, a D. Eulália fez-nos perceber que a sua vida sempre tinha decorrido com a normalidade possível e que não tinha episódios interessantes para nos contar.

No entanto, prontificou-se a fornecer-nos os elementos principais que caracterizaram a sua história, umas vezes mais felizes, outras nem tanto como, aliás, acontece com toda a gente.

“Nasci há 81 anos no Monte Verdugos de Cima, no concelho de Coruche. Éramos cinco irmãs, resultado da procura de um rapaz que nunca chegou a aparecer. Teria uns cinco anos mudámo-nos para um outro monte perto do local do nascimento, de nome Verdugos de Baixo. Dali fomos para o monte de Pensalinhos, no mesmo concelho.”



Era, então, a altura de ir para a Escola…

“Não foi assim. Nunca frequentei a escola. Das cinco irmãs, apenas as duas mais novas souberam o que isso era. Comecei foi cedo a trabalhar. A minha primeira tarefa foi arrancar sargaços, limpando os terrenos para se poderem cultivar. Depois fui cavar para uma vinha e daí entrei na rotina habitual, ceifando e fazendo os mais diversos trabalhos agrícolas. Por esta altura morava então no monte da Areia, ainda naquele concelho.”

E ainda ficou por aí durante muito tempo ?

“Já com 18 anos, fomos para o monte de Pensais, onde comecei a namorar o que ainda hoje é o meu marido. Como também era usual nesse tempo, conhecemo-nos no trabalho e, como era meu vizinho, o namoro surgiu naturalmente.”

E algum tempo depois aconteceu o casamento …

“Eu já com 22 anos e o Florindo com 30, juntámos os trapinhos e só quando o meu filho foi baptizado é que oficializámos o casamento. Continuámos a residir em “Pensais”, lugarejo onde morava muita família. O meu marido chama-se Florindo Pereira Nunes e tivemos dois filhos: o Fernando que nasceu há 57 anos e a Rosa dois anos depois.”

E continuaram a ter as mesmas ocupações ?

“Claro. O casamento não alterou a vida de trabalho que sempre levámos. Aliás, como já disse, a minha vida decorreu sempre calma e sem grandes motivos que mereçam ser contados”.

Finalmente …

“Morávamos em Benalfange quando nos reformámos. O meu marido já tinha problemas na vista para os quais, segundo os médicos que então consultámos, não havia solução nem sequer através de cirurgia. Com o tempo a doença foi-se agravando até que perdeu a visão. Foi este o motivo por que teve de vir para o Abrigo como residente. Nessa altura fui morar com a minha filha, que reside aqui em Montemor, e para estar perto do meu marido, que necessita de cuidados constantes, também aqui ingressei mas como utente do “Centro de Dia”.

E como vai passando os seus dias ?

“Triste, sobretudo por ver o meu marido naquela situação. De qualquer modo, frequentamos os dois o ginásio e passamos os dias a conversar, quando para isso temos vontade. Eu vejo televisão mas também com pouca frequência. Por outro lado, e porque não sei ler, não posso entreter-me com jornais, revistas ou livros. A funcionária Maria do Céu, com toda a sua boa vontade, vai tentando ensinar-nos as letras mas, por isto ou por aquilo, falto muitas vezes e não tenho aproveitado."

Mas o Abrigo promove outras iniciativas de que os utentes podem usufruir. Não as aproveita ?

“Eu estou cá há pouco tempo e, portanto, este ano deixei passar algumas oportunidades. De qualquer modo, como o meu marido não vê praticamente nada, eu também não tenho vontade de ir, até porque ele necessita de constante assistência.”


Obrigado, D. Eulália, por nos ter dispensado algum do seu tempo.

         

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

OS NOSSOS UTENTES

FILIPE SILVESTRE NETO

Com 91 anos feitos em Maio, o nosso entrevistado goza de boa disposição, que facilmente transmite, e possui uma excelente memória.
               
“Nasci no Monte da Figueira, perto de S. Mateus, numa família de 11 filhos, 3 raparigas e 8 rapazes. Veja, portanto, a balbúrdia que, com tanta gente miúda, havia naquela casa.”

 E residiram sempre no mesmo sítio ?

“Não. Como o meu pai era ganadeiro, nas casas agrícolas de João Manuel Malta, António Lopes de Andrade e de Florêncio Alfacinha, percorremos e estacionámos em vários montes, dentro e fora do concelho de Montemor.”

E a escola ?

“O que é isso? Na altura não havia tempo nem condições para nos darmos a esse luxo. Portanto, logo aos sete anos comecei como ajuda de gado, na companhia do meu pai, na herdade do Picote. E ainda hoje apenas leio e conheço as letras de forma e até sei juntá-las, mas escrever … nem sequer o meu nome.”

E esclarece:

“Com 15 anos comecei a fazer outras tarefas, mas sempre ligado à actividade do campo, onde fiz praticamente todos os trabalhos. Alguns anos mais tarde foi chegada a altura de começar a namorar. Não fui muito namoradeiro porque cedo conheci a rapariga – de seu nome Gertrudes Maria Saúde - que haveria de ser minha mulher durante mais de sessenta anos. Para quê andar a fazer outras perder tempo se eu já sabia que era aquela que eu queria ?”.

Tendo chegado a essa conclusão, o casamento era inevitável …

“Casei com 26 anos. Fomos então morar para os Castelos, que pertence à freguesia de S. Sebastião da Giesteira. Trabalhava ali pelas redondezas, fazendo de tudo o que me ia aparecendo e a minha mulher, igualmente filha de ganadeiro, também trabalhava no campo.”

 E vieram os filhos, como era de esperar:

“Exactamente. O primeiro, o José Filipe, apareceu quatro meses depois do casamento, o que o levava mais tarde, por graça, a dizer aos colegas de trabalho que o poupassem porque ele tinha nascido antes do tempo. Anos depois apareceu o segundo filho, o Francisco, que entretanto já me deram dois netos cada um.”
            
E mantiveram-se sempre ali pelos Castelos ?

“Não, ainda passámos por outros locais. Dali fomos para a Cravosa até chegarmos à Quinta de Dom Francisco, que era onde vivíamos antes de ingressarmos no Abrigo. Mas quero ainda dizer que o meu filho mais velho, que já está reformado, era Sargento da Marinha e vive em Cruz de Pau, mais propriamente nas Paivas. Quanto ao filho mais novo é, desde há alguns anos, vendedor da Nigel e era com ele que eu saía quase todas as semanas. Lembro-me, até, que na última vez que o acompanhei comemos um belo arroz de tamboril em Ponte de Sor. Isto pouco tempo antes de termos vindo para o Abrigo, em Maio de 2012.

Ainda que conhecesse as várias tarefas do mundo rural, diz-nos que tinha particular interesse pela carvoaria, tendo chegado a tirar um curso relacionado com a limpeza de árvores, a fim de poder desenvolver com mais conhecimentos aquela actividade.

“É verdade, sim senhor. Comecei até a encarar de outra forma a vida das plantas. Fiquei a saber, por exemplo, que a cor verde das folhas é devida à função clorofilina e que as plantas libertam oxigénio e absorvem o anidrido carbónico, pelo que são muito úteis para todos nós. A partir de então fiquei a olhar com mais respeito para as árvores.”

Mas o sr. Neto ainda quis falar, se bem que de um modo muito resumido, sobre a forma como se preparava uma carvoaria:

“No local escolhido para o efeito colocam-se primeiro as “repas”, que são as raízes das árvores. Sobre estas vai-se colocando a lenha mais miúda, com o cuidado de deixar as “goteiras”, que são praticamente túneis para o lume poder respirar. A envolver tudo aquilo ainda se coloca palha, que tem sobretudo a função de isolar a lenha da terra com que se cobre o monte. E por uma porta que se deixou aberta atiça-se então o fogo. De qualquer modo, há sempre que manter vigilância para se poder verificar se tudo está normal. Até se retirar o carvão, a combustão dura um mês ou mais, dependendo do tipo de lenha que se utilizou.”

Era, com certeza, um trabalho muito difícil e penoso.

“Nesses tempos era tudo feito à força de braços, desde o “terrar” os fornos até, mais tarde, se irem “desenlevar”, que significava tirar a terra e abrir os fornos, ainda o carvão estava em brasa. Este trabalho era muito custoso de suportar. Hoje, felizmente, já há máquinas para se fazer praticamente tudo isto.”

Tendo perdido a mulher há cerca de dois anos, o sr. Neto ficou mais sozinho. Como passa o tempo?

“Para além das horas em que sentimos mais a solidão, passo os dias na conversa com os meus colegas, assisto às actividades que aqui se vão fazendo, jogo às cartas e vou por vezes aos passeios organizados pela Instituição. E assim vou passando os dias. Até um dia.”

Foi um prazer falar consigo, sr. Neto.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

OS NOSSOS UTENTES

VITÓRIA MARIA LOPES SERRA


É uma das últimas “aquisições” do Centro de Dia.
Diz-se feliz pela opção que tomou e confessa que veio encontrar um ambiente acolhedor e, pelo menos por enquanto, só pode dizer bem de toda a equipa.
Apresentemo-la então:

“Chamo-me Vitória Maria Lopes Serra, completei 83 anos em Fevereiro passado e sou viúva há 9 anos de João Morraceira. Tenho uma filha – Mila – e dois netos – Mário e Daniela.”

Mas comecemos pelo princípio de tudo:

“Nasci em Lavre, onde vivi até aos 14 anos. Andei à escola mas não concluí a 4ª classe do ensino primário. Mas sei ler e quanto a escrever, lá me vou remediando. Aos 14 anos fui para Coruche como criada doméstica de uma filha do cavaleiro Simão da Veiga. Quando tinha 18 anos, um irmão da minha patroa, recém-casado e que viria a ser o pai do também cavaleiro tauromáquico Luís Miguel da Veiga, pediu à irmã que me dispensasse, a fim de ficar ao serviço da sua casa, aqui em Montemor. Porque me sentia bem, vim um pouco contrariada mas, passado pouco tempo, habituei-me e acabei por gostar também na nova família que, aliás, me tratou igualmente de uma maneira impecável. Aqui estive, de forma permanente, durante cinco anos, tendo visto nascer o Luís Miguel e os restantes irmãos.”

Por esta altura, já com 23 anos, certamente era chegado o momento de pensar em casamento.

“Isso mesmo. Eu já conhecia o João, que estava empregado na casa Mouzinho. E foi exactamente com essa idade de 23 anos que nos casámos, pelo que a partir da

í continuei a ir trabalhar a casa do sr. Luís Fernando da Veiga mas apenas dois dias por semana.”

O casamento originou, como é natural, alteração de morada…

“Quando nos casámos fomos residir para uma casa perto do que é hoje o Hospital de S. João de Deus. Ficámos aqui algum tempo e pouco depois fomos morar para a Rua da Estação, onde ainda hoje tenho casa.”

A nova situação alterou também os seus horários de trabalho…

“Sim. Já não podia estar permanentemente ao serviço de qualquer família. Assim, depois de casada, e mesmo após enviuvar, continuei sempre a trabalhar “a dias” em várias casas e tenho a honra de poder dizer que fiquei amiga de todas essas pessoas, porque em todo o lado fui bem tratada.”

Mas para além disso, e dada a sua reconhecida competência para a cozinha e dedo especial para os doces, ainda era frequentemente chamada para outras situações…

“É verdade. Eu nem sei quantos casamentos, baptizados e outras festas eu fiz ao longo da minha vida. Só tenho gratas recordações.”

Sempre muito ligada a Lavre, por laços familiares e sentimentais, a D. Vitória recorda:

“Tenho realmente por Lavre um carinho muito especial, porque passei lá a minha infância, porque deixei muitas amizades e porque tinha ali a minha família. Recordo o meu tio João Domingos Serra, trabalhador agrícola, cuja figura inspirou uma das personagens que José Saramago criou em “Levantado do Chão”. Também a minha madrinha e grande mulher chamada Maria Saraiva, que nos tempos difíceis matou a fome a tanta gente, ficou imortalizada naquele mesmo livro como “Maria Graniza”.

E desfiando o rosário de recordações, evoca então uma das passagens mais dramáticas por que passou:

“Quando tinha pouco mais de dois anos, morávamos então num monte nos arredores de Lavre, a minha mãe abandonou o lar, levando consigo apenas o meu irmão que teria um ano. Quando vi que a minha mãe ia a sair, sem ter, evidentemente, a noção de que se tratava de um abandono, tentei ir atrás dela pela estrada que liga Lavre a Vendas Novas. Fui andando num grande pranto até que, em determinada altura fui vencida pelo cansaço e por ali fiquei à beira da estrada, nas proximidades do Polígono, até ser encontrada por militares que andavam em exercícios e me transportaram para o quartel em Vendas Novas. Como não poderia ficar ali, o comandante levou-me para sua casa, até ser encontrada uma solução. O meu pai, já tendo dado pela minha falta e muito aflito, teve conhecimento de que uma criança tinha sido achada e levada para o quartel. Foi lá imediatamente e dali foi encaminhado para a casa do comandante. Confirmada a paternidade, lá me levou de regresso a casa.
Curiosamente, o meu pai nunca me contou nada disto. Só muitos anos mais tarde é que, por mero acaso, vim a saber de todos estes pormenores por intermédio de uma senhora que à época era nossa vizinha e me revelou o que acabo de relatar.”

Parece, na verdade, um episódio de novela. Mas, se bem que com uma vida bem preenchida, a D. Vitória também passou por maus bocados no que à saúde diz respeito:

“O pior de tudo foi um grave acidente de automóvel que sofri perto de Coruche e me atirou, primeiro para o hospital de Santarém, e depois para o hospital de Évora, num total de oito meses de internamento e vinte intervenções cirúrgicas.”

Mas como mulher de coragem que é, ultrapassou esses problemas e continuou a fazer pela vida. Hoje está no Centro de Dia do Abrigo. Por quê ?

“Vivia praticamente em casa da minha filha, onde estou completamente à vontade e era tratada como sempre fui, até porque tenho um genro que é tão bom como se fosse meu filho. Porém, como a minha filha trabalha como cozinheira e está praticamente todo o dia ausente, e eu não tenho temperamento para andar da casa desta para a casa daquela, passava os dias sozinha. Então, e porque desde há muitos anos que tinha esta intenção, resolvi inscrever-me no “Centro de Dia”. E aqui estou desde Julho. Sinto-me imensamente satisfeita. Para ocupar o meu tempo vou ao ginásio com frequência e ajudo a descascar batatas, a arranjar feijão-verde e noutras tarefas semelhantes. Agora, por exemplo, estou a fazer pegas para tachos e panelas a fim de serem vendidas, para a Feira da Luz, no pavilhão do Abrigo.”

Mais: por sugestão nossa, já foi ter com o maestro André para vir a fazer parte do coral “Cant’Abrigo”. Na próxima segunda-feira, às 10 horas, lá estará para o primeiro ensaio.

Um beijo, D. Vitória.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

OS NOSSOS UTENTES

LUÍS SEGISMUNDO SOVELAS

“Só fui verdadeiramente feliz enquanto vivi ao lado da minha mulher.” Foi com estas palavras que o nosso entrevistado deste mês iniciou a nossa conversa. Mas vamos conhecê-lo melhor:

“Nasci em Fevereiro de 1931 e tenho, portanto, 85 anos. Fui um dos seis filhos que os meus pais trouxeram ao mundo mas apenas quatro viveram ao mesmo tempo. Com 6 anos fomos morar para os Chões, no que é hoje o Largo Gulbenkian. Ali vivi até aos 28 anos, apenas com um pequeno interregno em que morámos na Ruinha”.

Considera que teve uma infância normal ?

“Normal terá sido se considerarmos o que eram esses tempos a vários níveis. Por exemplo: andei na escola primária e conclui a 3ª classe. Ainda frequentei a quarta mas o meu pai retirou-me porque eu tinha um irmão mais velho que era muito estudioso e, com 13 anos, faleceu com uma meningite. Os meus pais associaram a doença ao estudo e, então, retiraram-me da escola.”

Sem escola, cedo começou a trabalhar …

“Pois, com certeza. Logo aos 12 anos comecei como servente de pedreiro e, aos 17, já exercia a actividade como oficial, que continuei até me reformar. Mas enquanto fui solteiro, e especialmente quando era mais novinho, a nossa vida não foi fácil. Havia muita falta de trabalho, os rendimentos resultantes do nosso labor eram poucos e incertos e as dificuldades resultantes dessa situação eram constantes. Tínhamos de recorrer com frequência à boa vontade de alguns comerciantes, que nos iam fiando os produtos alimentares. Foi um tempo desesperante. A minha mãe, coitada, levava o tempo a contar os tostões para ver se chegavam para a comida do dia-a-dia, o que raramente acontecia. E como se não bastasse, a situação ainda se agravava mais porque um meu irmão adoeceu com gravidade e os remédios eram caros. Infelizmente acabou por falecer. Entretanto, éramos nós, os mais novos, que íamos às lojas pedir fiado, o que nos colocava numa situação tremendamente desagradável. Foi um período que me marcou para sempre. Normalmente era às mercearias dos Srs. Henrique Pinto de Sá e Albino Ferreira (Albino da Luz), ali na Rua de Avis, que nós recorríamos. Mas foi a minha tia Constança Sovelas Pereira (que ficou conhecida como a Viúva do Germano) quem mais nos ajudou. Cheguei a estar lá em casa, a comer e a dormir, durante uns meses.”

Mas esse período menos bom foi ultrapassado…

“Sim, mas deixou marcas. Quando tinha 28 anos resolvi mudar de vida e juntei-me com a minha mulher. Isto em Julho de há 57 anos, tendo sido celebrado o casamento em Outubro. Ainda estivemos uns meses numa casa perto da Rua de Avis mas em Janeiro seguinte fomos então residir no Rossio, onde ainda hoje moro. Esta casa pertencia à minha sogra – Cristina Serôdio – que era filha de Generosa Serôdio, que ali mantinha o negócio de taberna, iniciado pelo marido, e que possuía também, num anexo, uma estalagem, que alugava essencialmente a carreiros e a louceiros, para além de uma cocheira onde eram recolhidos os animais. O edifício era de chão de terra e de telha vã e, como eu era pedreiro e a minha sogra entretanto havia terminado o negócio, fui fazendo obras no prédio até chegar ao que é hoje.”

A sua vida, portanto, conheceu uma enorme transformação.

“Sim, e sem dúvida para melhor. Todo aquele drama que tinha vivido, e todas as dificuldades por que passei, deixaram uma marca tão profunda que, quando casei, prometi a mim mesmo que haveria de lutar com todas as minhas forças para nunca mais reviver tais dificuldades. Aliás, a minha vida começou logo a mudar. Primeiro porque, já com trinta anos, conclui o exame da 4ª classe, após o que fui convidado para ir para as Caldas da Rainha trabalhar na construção de uma nova escola. Mas não aceitei porque, entretanto, a minha situação já tinha melhorado, graças à preciosa ajuda da minha mulher – Cecília Maria Serôdio Trindade, minha adorada companheira de sempre e que me deu dois filhos: o António Joaquim, que tem 56 anos, e a Cecília que tem presentemente 49. Vivi 55 anos de um casamento feliz e tranquilo. Foi o melhor período da minha vida. Infelizmente a doença bateu à porta da minha mulher e essa felicidade foi completamente interrompida quando, há dois anos, fiquei sem a sua abençoada companhia. Foi um rude golpe do qual jamais irei recuperar.”

Mas tem de continuar a sua luta para ultrapassar mais esta dificuldade, certamente a mais dolorosa de todas.

“Pois, eu bem tento, mas tem sido muito difícil. Estou aqui no “Centro de Dia” há pouco mais de um mês, mas o regresso a casa, ao final de cada dia, é sempre penosa, sabendo o vazio que me espera.”

O Amigo Luís deu mostras, ao longo da vida, que é um homem de carácter e moralmente forte. Vença mais este desafio.