segunda-feira, 24 de abril de 2017

OS NOSSOS UTENTES

LUISA MARIA FACA


Já com o estatuto de “rainha”, título que lhe foi conferido, por aclamação, no “Baile da Pinha” realizado no Abrigo do dia 12 deste mês de Abril, Sua Majestade D. Luísa Maria Faca prestou-se, com alguma relutância, a falar da sua vida privada. Que nem sempre foi fácil, como adiante se verá.

 “Nasci, no dia 15 de Janeiro de 1935, na Courela do Santíssimo, perto da ermida da Sra. da Visitação, e ali vivi enquanto fui solteira. Sou a mais nova de quatro irmãos.”

Aqui tão perto da então vila, certamente que andou à escola…

 “Engana-se. Por motivos que ainda hoje não compreendo muito bem, o meu pai não deixou que eu fosse. E o mesmo aconteceu com os meus irmãos. A eles ainda posso perceber o motivo, que seria certamente para não privar o orçamento doméstico dos seus eventuais salários. Mas comigo, a razão seria outra. Os meus irmãos, especialmente o mais velho, que na altura já era um homem, defendiam que eu deveria ir à Escola, mas o meu pai nunca permitiu.”

E assim, que destino lhe reservou o futuro?

 “A labuta no campo, está bem de ver. Com 11 anos já trabalhava no duro e assim foi sempre até me reformar.”

Os anos foram passando e o inevitável namorico aconteceu…

 “Cerca dos meus quinze anos namorisquei com um rapazito da mesma idade. Era um garoto, tal como eu. Nesses anos havia muitos bailaricos. O meu irmão mais velho tinha uma concertina e cedo começou a levar-me com ele para os bailes que frequentemente se organizavam, a propósito de tudo e de nada, nos montes das redondezas. Era o tempo em que qualquer casita se transformava em local de bailarico. E com 18 anos, já então tinha falecido o meu pai, comecei finalmente a namorar mais a sério com o Joaquim, que haveria de ser o meu marido dois anos mais tarde.”

E o conhecimento com o seu futuro marido aconteceu nalgum desses bailes?

 “Não. Éramos os dois trabalhadores agrícolas e foi na Adua que nos conhecemos, porque ele morava longe de mim, nas Fazendas, para os lados do Lanita. E, como disse, dois anos bastaram para o namoro. Com 20 anos casei-me com o Joaquim António Magrinho e desse enlace nasceram-me dois filhos – a Idália e o José Francisco – ambos já casados e residentes em Montemor.”

E depois de casada para onde foi morar o casal?

 “Fomos para a Quinta das Laranjas, perto dos Cavaleiros. Mesmo ao meu lado morava uma senhora que eu considerava como a minha segunda mãe. Chamava-se Vitorina Cartas e ainda hoje a recordo como uma excelente criatura. Por aqui estive cerca de seis anos e era a nossa residência quando nasceram os meus filhos. Dali passámos para o Monte das Feiticeiras, pertinho da residência anterior.”

E quando casaram continuaram a labutar no campo?

 “Sim. E sofria-se muito nos trabalhos agrícolas. Recordo-me que em determinada altura andava no arroz, na Quinta de Sousa, ao tempo em que a minha filha fez os três anos. E tinha de a deixar ao cuidado da cozinheira, porque não tinha outra qualquer alternativa. Mais tarde, andava na cortiça, numa herdade perto do Escoural, e o meu filho, apenas com quatro meses, enquanto eu estava a trabalhar, dormia numa prancha de cortiça, acabada de tirar do sobreiro, que lhe servia de berço. E à noite dormíamos, juntamente com outros trabalhadores, numa casa velha e tendo, como camas, juncos e as poucas roupas que tínhamos conseguido levar de casa.”

Era, portanto, uma vida bastante difícil.

 “Tenha a certeza disso. Numa altura andámos em Benavente, no arroz, e as condições eram igualmente deploráveis. Dormíamos num barracão onde normalmente estavam as vacas e ali tínhamos de nos abrigar todos. E as camas, de palha de arroz, eram separadas umas das outras com um tijolo. E de um lado dormiam os homens e do outro lado as mulheres. Eram normalmente três meses de grande penação. Tudo isto para ganharmos meia dúzia de tostões, trabalhando de sol a sol.”

E a D. Luísa continuou a recordar:

 “Quando os meus filhos ainda eram pequenos mudámos para as Fazendas do Cortiço. Passado tempo o meu marido faleceu, depois de trinta anos de vida em comum. Neste momento sou viúva há 32 anos. Entretanto os meus filhos cresceram, casaram e foram à sua vida, como é natural. E eu, já com mais de sessenta anos, e com pensão de invalidez, fui morar para a Fonte de Torres com o meu irmão Manuel e a minha sobrinha Beatriz, num anexo que eles me cederam. Mas com o passar do tempo a minha saúde foi-se degradando ainda mais. Tinha dificuldade em fazer as coisas mais elementares e tive de tomar esta decisão de entrar para o “Centro de Dia” do Abrigo, onde me encontro desde o dia 15 de Março último. Vou dormir, naturalmente, à casa da Fonte de Torres.”

E como tem sido a sua adaptação?

 “É claro que nada chega à nossa casa e especialmente os primeiros dias não foram fáceis. E para não levar o tempo a chorar tive de encontrar distracções. Assim, vou vendo televisão, conversando, dando uns passeios e aproveito todas as oportunidades para ultrapassar esta fase que é sempre difícil. Ajuda-me também o facto de ser bem tratada por toda a gente, o que é muito importante. Para além de tudo o mais, tenho também a felicidade de ter 4 netos (3 rapazes e 1 rapariga) e um bisneto, agora com 6 anos, que são a luz dos meus olhos.


E pronto. Resta-nos agradecer a disponibilidade e desejar um reinado feliz.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

BAILE DA PINHA 2017

Baile da Pinha elegeu

Francisco Tira-Picos  e  Luísa Faca
os novos reis do Abrigo



A pinha que haveria de decidir a futura “monarquia”
Cumprindo uma tradição que aos poucos se vai perdendo, no Abrigo dos Velhos Trabalhadores continua a haver o “Baile da Pinha”, que tem como consequência, e momento alto, a eleição dos novos reis que serão as entidades máximas até daqui a um ano.

Os últimos instantes dos monarcas que em breve terminariam o seu mandato

Com uma sala bem decorada pelos utentes, com um vasto público ansioso pelo desfecho e com o acompanhamento musical ajustado às circunstâncias, dançou-se e deram-se palpites sobre quem seriam os felizes contemplados.


A poucos minutos da grande decisão

O momento em que a pinha se abriu

Os anteriores reis dão posse aos seus sucessores


        
Com os pares dispostos à volta da pinha, que no seu interior continha os números que iriam definir o par destinado a governar, foi cada qual empunhando uma das fitas devidamente numerada. E quando todos (candidatos e público) se interrogavam sobre quem seriam os felizes contemplados, foi dada a ordem de abertura. E de imediato se veio a saber quem governará o Abrigo nos próximos doze meses: Francisco Tira-Picos e Luísa Faca. E todos os presentes os saudaram, felicitaram e desejaram um feliz reinado.


Suas Majestades, os eleitos, recebem as ovações dos súbditos

Depois… bem, depois foi o habitual lanche, também sempre bem servido e igualmente apreciado.

sexta-feira, 24 de março de 2017

OS NOSSOS UTENTES

ANTÓNIO  HENRIQUE  FIALHO


Com a experiência que os seus 92 anos lhe conferem, o nosso entrevistado deste mês não se fez rogado e contou algumas das inúmeras recordações que lhe povoam a excelente memória.

“Chamo-me António Henrique Fialho e nasci nos Foros de Corte Pereiro, mesmo junto à mina de carvão de pedra. Sou o mais velho de quatro irmãos, dos quais só restamos eu e uma rapariga. Com sete anos, fomos morar para o Monte da Lezíria e já teria uma dúzia deles quando nos mudámos para perto dos Foros de Vale Figueira, num monte que se chamava exactamente Monte Vale de Figueira de Baixo e depois fomos para o Freixo de Baixo.”

E no meio de tudo isso, onde entrou a Escola?
            
“A vida naquela altura era muito difícil e a ida à escola nem era assunto de que se falasse. O meu pai era ganadeiro e eu comecei aos sete anos como ajuda de guardador de porcos. E até aos catorze reparti a minha actividade entre porcos e ovelhas.”

E mantiveram-se naquela zona durante muito tempo?

“Na mesma área sim, mas noutros locais. Estivemos a seguir no Monte do Sapateiro e depois no Monte da Amendoeira. Estas transferências frequentes deviam-se ao facto da profissão do meu pai, por motivos diversos, provocar mudanças de patrão e, portanto, de locais de trabalho e residências. Com uns quinze anos passei de ajuda de gado a exercer actividades mais ligadas à agricultura: lavrava com uma junta de bois, ceifava, fui carvoeiro e pratiquei os mais diversos trabalhos no campo. E foram estas as funções que exerci praticamente até me reformar.”
           
Como é normal, estava chegado o momento de começarem os namoricos…
            
“Comecei cedo a namorar. Havia poucas distracções e então aconteciam os namoricos, combinados sobretudo nos bailes, ou funções, que se realizavam um pouco por todo o lado. Mas também, com o primeiro namoro, surgiu-me o meu primeiro grande problema.”
            
Quer contar?
            
“Comecei a namorar uma rapariga que era, sobretudo, muito do agrado dos meus pais. Porém, e como acontece muitas vezes naquelas idades, embeicei-me por outra moça. E o resultado não podia ser pior. O meu pai, sabendo disso, chamou-me “à pedra” e perguntou-me se, afinal, eu pensava casar com a primeira namorada ou se preferia esta segunda. Eu sempre respeitei muito o meu pai, mas respondi-lhe que, sinceramente, ainda não me tinha decidido a escolher a minha futura companheira.”
            
E como reagiu então o seu pai?
            
“Da pior forma possível. O meu pai, vendo que eu não estava disposto a fazer-lhe a vontade, disse-me: então, vai a casa buscar os teus pertences e procura outro lugar para viver. Conclusão: pôs-me fora de casa paterna apenas por eu não lhe garantir que casava com a rapariga que eles escolhiam.”
           
Ficou com um enorme problema para resolver…
            
“Por acaso não foi tão grande como poderia esperar. É que, por essa altura, eu já namorava uma terceira, a quem contei o sucedido. Por acaso, ou não, o pai dela ouviu e, provavelmente na esperança de eu vir a casar com a filha, ofereceu-me a sua própria casa para eu lá viver. Claro que não dormia com ela, mas encarregaram-se de me dar guarida e de me tratarem da roupa. Tudo isto aconteceu no Monte da Amendoeira, numa casa muito próxima da de meus pais. Tempo depois, esta família deslocou-se para o Barrocal dos Ricos e para o Monte do Casão e eu sempre com eles.”
            
E qual foi o desfecho desta aventura?
            
“Nestas condições estivemos uns anos. Mas em determinada altura as coisas entre nós começaram a não andar bem e eu cheguei à conclusão que ainda não era aquela que me levaria ao altar.”
            
E como eram as relações com o seu pai?
           
Ainda no Barrocal, um dia o meu pai foi ter comigo e disse-me para eu voltar para casa. Que já tinham passado três ou quatro anos desde que me tinha convidado a sair e era altura de regressar. Eu respondi-lhe que não voltava, porque se me tinha posto fora era porque não me queria lá. Sempre que se proporcionava, eu falava naturalmente com o meu pai, como se nada se tivesse passado. Continuei a respeitá-lo, a pedir-lhe a bênção como era usual nesse tempo, mas nunca mais voltei à casa paterna.”
            
Não deve ter sido fácil lidar com todas estas situações…
            
“Quando tinha trinta anos cheguei à conclusão de que era chegada a altura de normalizar a minha vida. Fui procurar a mulher que ainda hoje é a minha esposa e companheira. Com a decisão tomada, saí de casa e juntei-me com a Ermelinda.”
            
Mas é claro que teve de procurar outro abrigo.
           
“Já juntos, fomos morar para um monte que era do Manuel Marmeleira. Era uma casita muito modesta, que nem tinha mobílias, nem nós dinheiro para as comprar. Aquilo era só para não estarmos na rua. Naquele tempo, e como se dizia, era “chapa batida, chapa lambida”, o que significava que dinheiro era ganhá-lo e gastá-lo. Vi-me então na necessidade de ir ter com o meu pai e pedir-lhe que me emprestasse o dinheiro necessário para comprar as coisas mais essenciais. Ele disse-me que sim, mas sempre realçando que se tratava de um empréstimo e não de uma oferta, pelo que teria de pagar quando pudesse. Foi buscar setecentos escudos (hoje três euros e cinquenta cêntimos) com os quais comprei uma cama, uma mesa e quatro cadeiras. E logo que me foi possível saldei a dívida como, aliás, era a minha obrigação. Já, então, vivia noutra casa.”
            
E a relação com o seu pai continuou na mesma?
            
“Anos mais tarde, já a minha mãe tinha falecido, o meu pai ia visitar-me a minha casa, porque vivíamos perto. E eu nunca deixei de me dar com ele e continuava a respeitá-lo e acolhia-o como se nada tivesse acontecido.”
            
E o tempo foi passando…
            
Com quarenta anos, casado e já com os meus dois filhos – o Joaquim António, hoje com 57 anos, e a Ana de Jesus com 54 – emigrei para a Suiça, onde me mantive durante 9 anos. A minha mulher só lá esteve comigo cerca de um ano. Passada essa fase voltámos os dois ao trabalho agrícola mas, com o dinheiro que amealhei como emigrante, construi uma casa nos Foros de Vale de Figueira, que tive de acabar por vender devido à grave doença da minha mulher que, na altura, ainda esteve cerca de um ano no Lar da Quinta da Ponte.”

            
Até que aconteceu a vinda para o Abrigo.
            
“Com a doença da minha mulher e a minha idade já avançada, que não me permite deslocar sem o auxílio de canadianas, pedimos para sermos recebidos como residentes aqui no Abrigo. Todavia, foi-nos dito que, apesar de toda a boa vontade, não era possível atender este pedido porque não havia vagas. E nós compreendemos a situação. No entanto, foi-nos oferecida a hipótese de frequentarmos o “Centro de Dia”, que aceitámos porque a nossa filha, que reside em Montemor, se disponibilizou para irmos dormir a sua casa. Mas, claro, estamos sempre na esperança de, um dia, conseguirmos a vaga que até hoje tem faltado.”
            

Agradecemos ao Sr. Fialho a disponibilidade para mantermos esta conversa e desejamos que os seus desejos se realizem logo que possível.
           

            

quarta-feira, 1 de março de 2017

OS NOSSOS UTENTES

VITÓRIA DE JESUS
           
 Ainda nem nos tínhamos sentado para conversar, já a D. Vitória nos alertava para o facto de ter uma memória muito fraca e que certamente poucas recordações iríamos aproveitar. Afinal, e como não é a primeira vez que acontece, quando começou a desfiar o seu rosário, muitos factos da sua vida lhe foram surgindo naturalmente, se bem que alguns bastante desagradáveis. 

Viúva de José Gonçalves há 30 anos, ainda tem os dois filhos que nasceram do matrimónio: Felícia Vitória e Manuel José Pinto Rebocho.

“Nasci no Monte do Peso, perto das Brotas, no dia 4 de Agosto de 1921, pelo que tenho 95 anos já feitos. Sou a mais velha de cinco irmãos, dos quais já faleceram dois. O meu pai era ganadeiro e quando eu tinha sete ou oito anos fomos morar para a zona do Ciborro, onde ainda frequentei a escola primária, mas sem aprender qualquer coisa que se visse, porque andei lá muito pouco tempo.”
            
E andou na escola pouco tempo porquê?
            
“Como tínhamos muitas dificuldades, o meu pai cedo me requisitou para o ir ajudar no pastoreio. Comecei assim a ganhar a vida como ajuda de cabras, sempre ali nas zonas do Rabaçal, Ciborro e S. Geraldo.”
            
E continuou trabalhando com o gado ?
            
“Não. Passados poucos anos, já então morávamos mesmo no Rabaçal, iniciei o que seria sempre a minha vida. Aprendi e sabia fazer de tudo: mondar, ceifar, apanhar azeitona, escaldeirar as cepas na vinha e, enfim, todos os trabalhos do campo que me iam aparecendo.”
            
E como é normal, surgiu o momento do namoro…
            
“Nunca fui namoradeira. Apenas conheci o que haveria de ser o meu marido e chegou-me bem. Casámos teria eu uns vinte anos. O José também labutava no campo e foi no trabalho que o conheci. Ele era carreiro por conta do sr. Gabriel Nunes. Namorávamos nos intervalos do trabalho e nos bailes que eram frequentes na Freixeira. Quando achámos que estava na altura certa, juntámo-nos e casámos passada uma semana.”
            
Foi portanto o momento de dar novo rumo à vossa vida…
            
“Já casados, ficámos a residir na Fonte Santa. O meu marido continuava no mesmo serviço, e para o mesmo patrão, e eu fazia também aquilo que, afinal, foi e seria sempre a minha vida. Aqui nasceu a minha filha, que anos depois também casou e foi viver para os Foros de Vale Figueira, onde ainda hoje mora. Depois de lhe nascerem dois filhos, teve a infelicidade do seu marido falecer.”
           
Mas a D. Vitória foi-se mantendo pela Fonte Santa ?
           
"Não. Mudámo-nos para uma casa em Montemor, junto à ponte do caminho-de-ferro. Aqui nasceu o meu Manuel José, que frequentou a escola e concluiu a 4ª classe. Vivia-se, então, um longo e difícil período. Enquanto ele estava na escola, e porque comia na cantina, eu ia fazendo o que me aparecia. Recordo-me de uma altura em que andava a cavar favas na encosta do castelo. À hora do almoço ia a casa para almoçar, se é que a isso se poderá chamar almoço. Então, limitava-me a beber um copo de água com um pedaço de pão seco, regressando logo de seguida para continuar, até ao anoitecer, a cavar favas. Isto porque se eu comesse ao almoço o pouco que havia em casa, já não tinha para colocar na mesa ao jantar e então ninguém comia.”
           
Isso era na verdade angustiante…
            
“Nem queira saber. Tivemos sempre uma vida muito difícil, que se agravou por haver muitas crises de trabalho. Veja que o meu marido, e muitos colegas trabalhadores agrícolas, andaram quase de porta em porta a solicitar trabalho ou a pedir alguma coisa com que pudessem alimentar minimamente a família. Eram situações degradantes que só quem passou por elas pode avaliar e compreender.”
           
E esta situação manteve-se durante muito tempo ?
            
“É verdade. Eu ainda hoje nem quero pensar no que penámos. Passado algum tempo mudámo-nos para o monte da Sra. da Conceição. Foi quando o meu marido arranjou trabalho na pedreira de S. Luís e eu fui com ele para partir pedra, tal como o meu filho que, entretanto, já terminara a escola. Em S. Luís, e enquanto durou o trabalho na pedreira, vivíamos numa barraca que nós mesmos tivemos de construir. Isto, claro, acontecia também com os muitos trabalhadores que lá estavam. Então, íamos juntando a pedra em montinhos e depois éramos pagos de harmonia com os metros cúbicos que cada trabalhador tinha conseguido reunir quando uma camioneta vinha carregar.”
            
Calculo que seria um trabalho muito duro.
            
“Não tenha dúvida. Mas a necessidade a isso obrigava. Passados alguns anos na pedreira, consegui arranjar trabalho para o meu filho num talho em Setúbal, onde ainda hoje ele mora e exerce a mesma profissão. Ficámos então a morar nesta cidade porque o meu marido e eu também arranjámos trabalho no campo. E quando as coisas pareciam estar a tomar um melhor rumo, sucede o falecimento do meu marido. Depois de viver sozinha durante algum tempo, o meu filho quis que eu fosse para casa dele, mas passado algum tempo tive de recorrer ao Abrigo, onde me encontro há cinco anos.”
            
Agora, sem saber ler nem escrever, como ocupa os seus dias aqui no Abrigo?
            
“Vou conversando e preenchendo os meus dias com os ensaios e actuações do coral “Cant’Abrigo” e participo também nas actividades teatrais que aqui se fazem regularmente. Agora mesmo estamos a trabalhar para esta quadra do Carnaval. Preparamos os fatos para o desfile carnavalesco e para a “Queima dos Compadres”, cujos protagonistas neste momento ainda nem sei quem são.”

            


Mal sabia a D. Vitória, no dia em que conversámos, o “quente” destino que lhe foi reservado !...

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

QUEIMA DOS COMPADRES 2017




QUEIMA DOS COMPADRES


A tradição cumpriu-se mais uma vez e a “Queima dos Compadres” teve lugar aqui nas instalações do Abrigo, na manhã de terça-feira, dia 21 de Fevereiro.

Antes, porém, há que fazer um pequeno esclarecimento. Ao contrário do que há já uns quantos anos acontecia frequentemente em Montemor, sobretudo por iniciativa das sociedades recreativas, esta cerimónia pouco tem a ver com a então “Serração da Velha” em que, como muitos ainda se recordam, havia um processo em tribunal contra uma “senhora” a quem eram apontados muitos defeitos e deslizes. E era em pleno julgamento, que tanto a defesa da arguida como os seus contrários expunham argumentos. Claro que havia sempre a inevitável condenação, proferida, com pompa e circunstância, pelo juiz. Era então chegada a altura de velha condenada ler o seu testamento, escrito em quadras, em que eram contemplados, nem sempre de uma forma meiga, os muitos herdeiros conhecidos de toda a gente.


Aqui, na “Queima dos Compadres” a condenação está previamente decidida e as vítimas só no momento são identificadas. Nem elas próprias sabem o destino que, desde há muito, lhes está reservado: a fogueira.

Durante algum tempo, reúne-se um grupo de homens que, entre si e em segredo, escolhem a “comadre” a ser queimada. Ao mesmo tempo, um grupo de senhoras procede da mesma forma em relação a um “compadre”. Então, em sessão pública, o porta-voz dos homens dá a conhecer, através de quadras, não só elementos que permitem a todos, inclusivamente à própria “vítima”, identificar de quem se trata como, ainda, revelar o que as “herdeiras” vão receber em testamento. Claro que depois é a vez das senhoras, por intermédio da sua representante, proceder de igual modo para com o “compadre” que também vai conhecer o seu acalorado fim.



E ficou a saber-se que a “comadre” sacrificada era a D. VITÓRIA DE JESUS e o “compadre” o sr. ANTÓNIO PEDRO DOS SANTOS, ambos utentes deste Abrigo.

E, traçado o seu destino, lá foram ambos retirados para serem queimados na fogueira, previamente preparada para o efeito, na presença de numerosos e divertidos assistentes.

Tudo, afinal, para acabar em beleza e com a certeza do dever cumprido. Os intervenientes reconheceram depois que viveram todo um processo que lhes rendeu momento de divertimento. Eis os protagonistas:

Grupo das Comadres:
Joaquina da Quinta, Basilissa Perna, Angelina Merendeira, Maria Narcisa Ferreira, Vitória Lopes Serra, Rute Borla, Rosalina Maria, Vitória de Jesus, Visitação Alves, Maria Luísa Pinheiro, Micaela Barreiros, Isalina Marcelino e Marta Dias.


Os versos foram escritos por Custódia Cardador e Maria do Céu Mestrinho, que também se encarregou do guarda-roupa.

Grupo dos Compadres:
Rogério Arraiolos, Leopoldo Gomes, Isidoro Grulha, Joaquyim Rafael Martins, Francisco Tira-Picos, Salvador Boleto, António Lopes, Filipe Palma, António Pedro dos Santos e Joaquim Pinto.
            

Os versos foram concebidos pelo André Banha com a colaboração de outros membros do grupo.
            
No final, nos bastidores e enquanto tiravam as cabeleiras, as senhoras já anteviam com entusiasmo o desfile carnavalesco do próximo dia 25. Mas não revelaram pormenores das suas máscaras, para nos manterem na expectativa.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

OS NOSSOS UTENTES

ANTÓNIO PEDRO DANIEL DOS SANTOS


Após as Festas de Natal, a conclusão de mais um ano e a realização das Janeiras e do Concerto de Ano Novo, a cargo do Coral “Cant’Abrigo”, sob a direcção do maestro André Banha, chegou o momento de realizarmos mais uma entrevista.

E as primeiras palavras do nosso entrevistado, que se repetiriam ao longo da conversa, foram “não sei nada” e “não percebo nada disto” quando, afinal, até acabou por se mostrar colaborante.

Vamos então ouvi-lo:

Nasci num monte chamado Casa Nova do Passa Figo, ali para os lados do Paião. Sou o mais velho de 6 irmãos (3 rapazes e 3 raparigas) dos quais já faleceu uma das minhas irmãs. E depois de uma infância normal, para o que eram as condições da época, até fui aprender a ler. Não numa escola oficial, mas com uma senhora já de idade, que suponho que não professora, que sob a alpendorada do Monte do Foro, perto da Fidalga, reunia um grupo de rapazes e raparigas para ensinar as primeiras letras. Ficámos a saber ler e escrever mas sem fazermos exame.”

Isso significa que ainda hoje não tem qualquer diploma escolar…

“Mais tarde, já em adulto, fiz o exame da 3ª classe aqui em Montemor. Foi examinador o sr. Prof. Feliciano Oleiro, uma excelente pessoa de quem guardo boas recordações. Recordo-me ainda de uma pergunta que ele me fez e me deixou atrapalhado, e que só depois compreendi o seu alcance. Disse-me então que, à porta de um templo, os fiéis contribuíam com donativos, alguns de elevado valor provenientes dos homens mais ricos. Ao mesmo tempo, um pobre homem apenas deixou uma esmola muito modesta. E perguntou-me então o sr. Professor qual era, na minha opinião, a contribuição mais valiosa. Perante a minha hesitação explicou-me que a deste pobre homem era a mais importante, porque, apesar de humilde, dera tudo o que possuía, ao contrário dos outros que apenas tinham contribuído com uma pequena parcela da sua imensa riqueza. Concordei e nunca mais me esqueci desta lição.”


O nosso Amigo António fará 86 anos no próximo dia 31 de Março. É viúvo de Porfíria Maria Roque, já falecida há perto de dezassete anos. Não tiveram filhos. Mas recuemos um pouco:

“Comecei cedo a trabalhar. O meu avô era pastor e eu ajudava-o nessa lida. E teria pouco mais de 12 anos quando comecei a ceifar e aos 14, na herdade de Vale de Nobre, perto da Torre da Gadanha, comecei a fazer todos os trabalhos agrícolas, que fui continuando até me reformar. Entretanto chegou também a idade dos namoricos. Gostava bastante de ir aos bailes que se realizavam ali nas Fazendas e ainda namorei uma meia dúzia de moças.”

Até que…

“Tinha que se dar. Com 25 anos juntei-me com a minha Porfíria e só mais tarde casámos oficialmente. E fomos sempre os dois trabalhadores agrícolas. Quando casámos fomos morar para o monte do Valverde, junto a S. Mateus. E éramos felizes. Mas o pior estava para acontecer. Um dia, a minha mulher foi operada em Évora a uma hérnia estrangulada. As coisas não correram bem e ainda foi transferida para Lisboa para o hospital S. Francisco Xavier, mas não a conseguiram salvar.”

Foi um duro golpe…

Nem me quero lembrar. Quando enviuvei estive um tempo no Pinhal Novo em casa da minha irmã Maria. Mais tarde foi morar num anexo da casa do meu irmão Florentino que morava, e mora, aqui na Rua Fernando Namora. Já então recebia o apoio domiciliário do Abrigo e só em Junho último passei à condição de “residente”.

Como sabe ler, certamente que ocupa parte do seu tempo na leitura de jornais, revistas ou livros.

“Não, hoje já não tenho paciência nem disposição para ler e, muitas vezes, nem sequer para ver televisão. Já me falaram no coral e no grupo de teatro, mas a gente chega a uma certa idade em que deixa de ter interesse seja pelo que for. Não é por isto nem por aquilo, mas apenas porque já nada me apetece. O ano passado ainda fui passar uma semana à praia e confesso que até gostei. E pode ser que este ano volte a acontecer. Vamos ver como me sinto quando chegar a altura.”

Amigo António. Vamos lutar contra essa falta de interesse. Temos de aproveitar todos os momentos em que podemos ser felizes.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

OS NOSSOS UTENTES

MÓNICA ETELVINA FIGUEIRAS BARBEIRO

Possuidora de uma excelente memória e de uma fluência assinalável, apesar de ter sido atingida por problemas graves de saúde, a nossa entrevistada deste mês nasceu em S. Pedro da Gafanhoeira (Arraiolos) em 26 de Junho de 1937. Viúva há 46 anos de João Inácio de Mira Salgado, teve três filhos, um dos quais faleceu há 11 anos e cuja perda ainda hoje lamenta e chora.

E vai contando:

“Éramos cinco irmãos (3 rapazes e duas raparigas). Todos nós frequentámos o ensino primário e concluímos a 3ª classe ainda que eu, mais tarde e já viúva, tenha estudado e feito o exame da 4ª classe.”

Aproveita este tema da conversa para contar o que, hoje, não deixa de ser insólito mas que na altura, e dadas as circunstâncias, se tratava de uma situação dita normal:


“O meu avô paterno era uma pessoa sem grandes estudos mas de enorme sabedoria. Desempenhava as funções de regente escolar, nome que se dava às pessoas que não tendo frequentado sequer o Magistério, substituíam nas zonas rurais os professores oficiais. Então, montado no seu cavalo, lá ia de monte em monte ensinar as primeiras letras aos filhos dos lavradores mais abastados. Curiosamente, este mesmo avô tinha 9 filhos (foram pelo menos estes os que conheci) e todos eles eram analfabetos, só vindo a aprender alguma coisa já em adultos.”

Mas como é que isso se explica ?

“Explica-se pelo facto de, sendo tanta gente a sentar-se à mesa todos os dias, havia que pôr toda a família a trabalhar, desde cedo, para garantir o sustento da casa.”

Mas voltando à D. Mónica …

“Quando acabei a escola, comecei quase de imediato, teria uns dez ou onze anos, a apanhar azeitona. E daí, até me casar, trabalhei sempre no campo, ao mesmo tempo que aprendia a fazer todas as tarefas domésticas. E com 15 anos comecei a namorar aquele que viria a ser o meu marido. E tinha eu 22 anos e o João 25, juntámo-nos em Setembro e casámos em Novembro.”

E então houve alteração na sua vida …

Fomos morar para o Sargaço, um monte perto de Arraiolos que pertencia ao meu sogro. Foi aqui que nasceu o meu filho mais velho. Entretanto, como a propriedade era pequena e o retalho não dava para nos governarmos, o meu marido ingressou na Polícia e fomos morar para Beja. Ele tinha já tirado o 2º ano dos liceus, estava especializado em “morse” e era sua intenção entrar nos quadros da Marconi, mas devido a doença não conseguiu esse objectivo. E foi assim que se manteve por Beja, onde atingiu o posto de 2º subchefe, com vários louvores.”

Mas um acontecimento trágico veio perturbar a sua vida:

“O meu marido veio a falecer em 1971, tinham os meus filhos 9, 7 e 5 anos. Vi-me, portanto, com dificuldades. Como eu então só tinha a 3ª classe e os empregos eram poucos, o Chefe da Polícia ainda tentou que eu entrasse como contínua numa escola primária. Porém, como eu não tinha ninguém de família em Beja que pudesse olhar durante o dia pelos meus filhos, eles teriam de entrar para a Casa Pia. E eu não quis.”

E como resolveu a sua vida ?

“Regressei à minha aldeia natal, a fim de não me separar dos meus filhos. E a minha mãe tomava conta deles durante o dia enquanto eu voltava aos meus trabalhos no campo. Foi por esta altura que fui tirar o diploma da 4ª classe, na expectativa de arranjar um emprego melhor. Mas não consegui.”

E tinha como único rendimento o produto do seu trabalho ?

“Exactamente. Nem sequer recebia qualquer pensão de sobrevivência. Porque o meu marido tinha falecido de morte natural, e não em missão ao serviço da polícia, não tinha direito a receber fosse o que fosse. Apenas, salvo erro, a partir de 1975 comecei a receber uma quantia, ainda que modesta.”

E por aí se foi mantendo ?

“Sim, senhor. Também trabalhei nas cooperativas agrícolas, tal como os meus filhos, e depois em Arraiolos a fazer tapetes na fábrica “Califa”. Continuei a viver em S. Pedro, trabalhando e fazendo toda a lida da casa. E foi o que fiz até me reformar. Entretanto, há uns meses, depois de um episódio de doença mais grave, fui viver para casa da minha filha Isaura, que reside nas Fazendas do Cortiço.”

Até que …

“Em Novembro, e porque o meu estado de saúde se agravou com uma trombose venosa, fui aceite no “Centro de Dia” aqui do Abrigo, onde actualmente me encontro. É que já não tinha condições para estar sozinha. Há cerca de dois anos, ainda em S. Pedro, fui vítima de um AVC e fiquei toda a noite caída no chão sem ter quem me acudisse. Tinha consciência do estado em que me encontrava mas nem sequer conseguia chegar ao telefone para pedir auxílio. Só de manhã é que chamei por socorro e fui ouvida”.

E como são os seus dias ?

“São passados como posso. Gosto de ler e até de ver televisão, mas os meus olhos já não são o que eram. Estou há mais de um ano à espera que me chamem para ser operada às cataratas e nem esse dia eu sequer vejo chegar.”

Pode ser que já não demore. Mas a D. Mónica já ficou a saber que, dentro do possível, vai ter acesso a jornais, revistas e livros para se ir entretendo.”


Aproveitamos para endereçar à D. Mónica, a todos os Utentes do Abrigo, aos membros dos Órgãos Sociais, Funcionários(as), Colaboradores(as), Sócios(as), Leitores(as) e respectivas Famílias, um BOM NATAL e um NOVO ANO sobretudo com muita saúde!

terça-feira, 22 de novembro de 2016

OS NOSSOS UTENTES

CUSTÓDIO FRANCISCO CAMISOLA

Foram mais de sessenta, os anos de trabalhos esforçados por que passou o nosso entrevistado deste mês ao longo da sua vida.

Ouçamos a sua história:

“Nasci na freguesia de Nossa Senhora da Tourega, concelho de Évora, no dia 31 de Outubro de 1935. Éramos três irmãos, dois rapazes e uma rapariga, já falecida. O meu pai era carreiro e, ainda eu tinha pouca idade, mudámo-nos para Évora. Por aí estivemos até aos meus seis anos. Por esta altura o meu pai faleceu e, sendo eu o mais velho dos irmãos, fui pouco depois “convocado” para me apresentar ao trabalho. Comecei com sete anos a guardar porcos na Herdade das Cabanas, ganhando vinte cinco tostões por dia (um cêntimo vírgula vinte cinco nos dias de hoje), secos, isto é, sem direito a alimentação. Fui mantendo este estatuto até aos dez anos, altura em que, no mesmo local, já guardava, para além de porcos, também ovelhas, cabras e o que calhava. Passsei a ganhar 1 escudo (dez tostões) por dia, acrescido de 1 litro de azeite e 30 kg. de farinha por mês. E trabalhava do nascer ao pôr do sol.”

E a escola ?

“Nem vê-la. Por conta de outro patrão continuei, isso sim, na escola da vida, então na Herdade das Pereiras, na mesma actividade, ganhando agora os mesmos dez tostões por dia e mais o almoço (antes do nascer do sol), o jantar (a meio da tarde) e a ceia (às sete ou oito horas da tarde). Entretanto, a Herdade das Pereiras mudou de donos, para a família Freixo. Mas eu continuei lá, embora com outros encargos. Deixei de trabalhar com o gado e passei a executar outras tarefas. Aqui, e tinha agora 15/16 anos, já ganhava sessenta escudos por mês (trinta cêntimos actuais) mais 2 litros de azeite e 35 quilos de farinha.”

E foi ficando por estas paragens ?

“Não. De seguida fui para o Freixial, que pegava com o Cromeleque dos Almendres. Tratava dos cavalos, amansava-os e preparava-os para as provas de hipismo. Ganhava 10 escudos por dia (cinco cêntimos de euro) e de comer.

E por aí ficou ?

Não. Com cerca de dezoito anos mudei novamente de emprego. Trabalhava para vários patrões nos mais diversos serviços: limpava árvores, podava, tirava cortiça e, enfim, ia fazendo todo o género de tarefas agrícolas. Nesta altura a jorna situava-se entre os dezassete e os dezoito escudos por dia (oito cêntimos e meio/nove cêntimos) Sem mais nada.

Mas, entretanto, outras coisas se foram passando na sua vida.

“Em 1954 fui pela primeira vez às “sortes”, isto é, à inspecção militar. E digo da primeira vez porque, tendo então ficado “adiado”, tive de lá voltar no ano seguinte. E fiquei “apurado”. Assentei praça em Tomar, mas um mês depois fiquei livre “ao número”. Isto acontecia quando a quantidade de recrutas era superior ao pretendido. Então, faziam um sorteio para mandarem para casa os que tinham a sorte de sair na “rifa”.

Mas certamente que a sua vida não foi só de trabalho. Com certeza que também teve as suas horas livres. Como é que as aproveitava?

“Claro que na minha mocidade tive vários namoricos. E fiz bem a minha obrigação. Se não me falha a memória, foram catorze as moças que eu namorisquei. Até conhecer a décima quinta, com quem acabei por casar. A Maria Luísa tinha catorze anos quando começámos a namorar e dezoito meses depois já estávamos casados. Eu tinha 25 anos. Fomos então morar para a Boa Fé, em cuja Igreja foi oficializada, há 56 anos, a união com a ainda minha esposa Maria Luísa Cunha Pinheiro. Deste enlace nasceu há 54 anos o nosso único filho – Ricardo José Pinheiro Camisola.

Com a vida de casado, muita coisa mudou …

“Nalgumas coisas, sim. Ainda a morar na Boa Fé, continuámos os dois a trabalhar no campo. Porém, a dada altura, consegui emprego na firma Silva Borges, Limitada, aqui em Montemor. Era uma grande empresa, onde praticamente fiz de tudo. Cortei muitos milhares de pinheiros por todo o país. Só no Algarve estive cinco anos. Era muito amigo de toda a família. Ali trabalhei até aos setenta anos, idade com que me reformei.”

Mas continuava a residir na Boa Fé ?

“Não. Em 1977 mudei a minha residência para Montemor. Tinha comprado, nos Foros da Rosenta, um terreno, com pouco mais de um hectare, e ali construí a minha casa.”

Problemas de saúde obrigaram o casal Camisola a recorrer aos serviços do Abrigo, onde estão ambos, no “Centro de Dia”, desde 1 de Setembro passado. Como se deduz do que nos disse anteriormente, nunca frequentou a escola e não sabe ler nem escrever. Todavia, como nos confessou, no trabalho costumavam dizer que ele era um autêntico computador…

No seu dia-a-dia frequentam o ginásio, vão vendo televisão quando o assunto lhes interessa, conversam e o sr. Custódio prometeu ir inscrever-se para começar a frequentar, aqui mesmo no Abrigo, as aulas de alfabetização.       Em frente, Amigo!