segunda-feira, 30 de outubro de 2017

OS NOSSOS UTENTES


MARIA JOAQUINA POMBO DE MOURA


“Garanto-lhe que se a memória ainda o permitisse, a minha história daria um romance, tais foram as atribulações que sofri ao longo da vida.”

Com esta advertência iniciámos a conversa com a D. Maria Joaquina que, curiosamente, reconheci logo que nos sentámos, porquanto fomos vizinhos durante os tempos da minha meninice, quando ambas as famílias moravam na Rua dos Almocreves. Foi um reencontro depois de um interregno de muitos anos.

Mas vamos então conhecer um pouco da sua história:

“Nasci na rua de S. Domingos e já estaria na casa dos trinta anos quando nos mudámos para a rua dos Almocreves. Éramos quatro irmãos (4 raparigas e 1 rapaz) dos quais sou a única sobrevivente.”

Há um pormenor muito importante que tem sido praticamente comum em todos os entrevistados. Se nasceram, e viveram no campo os primeiros anos de vida, é certo e sabido que são poucos os que andaram à escola e quase todos desde cedo se iniciaram nos trabalhos agro-pecuários. Se o nascimento ocorreu no espaço urbano, é vulgar vir a saber-se que foi fugaz a sua passagem pelas salas de aulas devido, sobretudo, ao início bem cedo de uma actividade que não fugia muito da costura ou de serviçal doméstica.

“Andei na Escola “Conde de Ferreira” onde conclui a 2ª classe da instrução primária com a classificação de 14 valores. Contudo, nunca cheguei a frequentar a 3ª classe, porque a família era numerosa, o meu pai passava longos períodos hospitalizado, a minha mãe e irmãs eram costureiras e eu tive de assumir a responsabilidade de governar a casa. Quando a minha irmã Amélia casou, comecei também a trabalhar como costureira. Primeiro em obras “faiancas”, isto é, como então se dizia, para “a prateleira”. Eram aquelas peças de vestuário que não se destinavam a um determinado cliente mas seria o início daquilo que hoje é conhecido como “pronto-a-vestir.”

E exercia a sua actividade em casa?

“De uma maneira geral sim, mas também andei a costurar em casa da sua tia Custódia (conhecida familiarmente por Carriça) que, mesmo não tendo uma vida que se pudesse dizer fácil, andava sempre bem disposta. Mas trabalhei igualmente nas alfaiatarias J. Marques, Tello de Morais e Barradas, este ali na rua das Escadinhas.”

Mas em determinada altura houve alteração na sua vida…

“Tinha 36 anos quando conheci e me casei com José Batista de Moura, já divorciado, que vivia em Almada. E foi nesta cidade que a partir daí sempre morei. Porém, tive a infelicidade de enviuvar poucos anos depois, já lá vão quase quarenta. Mas continuei a viver na mesma casa, tendo como rendimento as pequenas reformas. Sempre ia encontrando outros afazeres que me ocupavam e ajudavam na economia doméstica.

         
E enquanto teve forças e saúde foi sempre labutando…
         
“É verdade. Como já lhe disse, a minha vida dava um romance. Trabalhei muito e tive grandes desgostos mas, com mais ou menos dificuldade, lá ia vencendo as contrariedades. Vi falecerem todos os meus familiares, o último dos quais foi o meu sobrinho António Justino Pombo Malta, que era professor de história. Dedicou a última parte da sua vida a reivindicar a justa homenagem a Aristides Sousa Mendes, cuja obra considerava não ser suficientemente conhecida em Portugal. Escreveu até um livro sobre este diplomata humanista. (*) Ainda não consegui refazer-me desta última perda.”
         
E como é que, passado tanto tempo, conseguiu ingressar no Abrigo?
         
“Eu nunca perdi o contacto com esta Instituição, quer pessoalmente quer por interpostas pessoas. Já tinha pedido mais de uma vez, mas não é fácil conseguir vaga. Mas a minha situação estava a degradar-se e depois de uma equipa do Abrigo se ter deslocado a Almada para confirmar a precaridade da minha situação, logo que surgiu a vaga fui contactada e aqui estou, desde o princípio deste mês de Outubro, depois de ter completado 93 anos no dia 28 de Junho.”
         
Passado tanto tempo voltámos a encontrar-nos, D. Maria Joaquina. E tive muito prazer neste reencontro. Que goze este descanso com a saúde possível.


Nota: (*) – Aristides Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordéus no ano da invasão da França pela Alemanha nazi, durante a 2ª Grande Guerra, desafiou e contrariou as ordens de Salazar e concedeu milhares de vistos de entrada em Portugal a refugiados, particularmente de origem judia. Foi por isso castigado e viu até o seu salário reduzido. Tudo por salvar a vida a milhares de pessoas.


                        

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

OS NOSSOS UTENTES

ANTÓNIO VENTURA RIBEIRO

“Guardador de várias espécies de animais, ceifeiro, arrozeiro e tirador de cortiça, eu fiz praticamente de tudo” começou por dizer, à laia de apresentação o nosso entrevistado deste mês.

Que continuou: “Nasci há 81 anos no Monte dos Ruivos, da freguesia do Couço. Éramos seis irmãos e o meu pai era maioral de bois de trabalho. Conheço bem este monte mas não tenho recordações desse tempo, porque quando saímos de lá era eu muito novinho. Dali fomos para o Monte do Peso, que se situa mais ou menos à mesma distância de Brotas e Ciborro.”








Houve alguma alteração na vossa vida com essa mudança?

“Não. Com sete anos “enreguei” a trabalhar, guardando uns bácoros, nome que dávamos aos leitões, ou seja, porcos com poucos meses, de raça alentejana. Andando à vontade pelo montado, alimentando-se exclusivamente de boletas e landes e só muito raramente de milho, produziam, isso sim, a verdadeira e saborosa carne de porco. As farinhas não entravam ali.”

E a escola?

“Já deve ter percebido que, por diversas razões, nunca lá pus os pés. Muito mais tarde ainda fiz uma tentativa de aprender a ler e a escrever, mas apenas tive três lições de uma hora cada. Já vê que em tão pouco tempo não aprendi fosse o que fosse. E hoje a situação ainda se mantém igual.”

Assim, encerrado esse assunto, continuou a sua vida de trabalho…

“E nunca mais parei. A seguir aos bácoros foram os rebanhos de ovelhas. Depois, com 12 anos, fui para ajuda do maioral dos bois. Era então, como se chamava, um contratado. Ganhava jorna e, mensalmente, uma porção de azeite e farinha. O contrato estipulava ainda que tínhamos direito a uns tantos quilos de carne de porco em cada ano. Chegada esta altura, o feitor escolhia o porco para cada um dos trabalhadores e se depois o peso da carne excedesse o combinado, tínhamos de pagar a diferença. Curiosamente, eu nunca cheguei a saber quanto ganhava, porque o contrato era feito em conjunto com o meu pai e nunca me foi dado conhecimento de quanto era a minha parte.”

Até quando se manteve esta situação?

"Com 15 anos saí para a “jorna” nos diversos trabalhos agrícolas, o que significava andar já num rancho de homens a aprender e a executar as mais variadas tarefas. Ganhava então, se bem me lembro, dois escudos e cinquenta centavos por dia. E quando chegava ao Sábado, lá ia receber aquela “batulada”. Mas nem sempre, porque quando a minha mãe se via aflita para conseguir dar de comer a tanta gente, pedia ao feitor que lhe adiantasse toda ou parte da minha jorna. Aí, então, pouco ou nada recebia. Mas mesmo que recebesse o salário por inteiro, chegava a casa e entregava-o todo à minha mãe, mesmo quando calhava ter um trabalho extra ao Domingo”.

Os anos foram passando e chegou a altura de gostar de se divertir, como é natural quando se é jovem…

“Tinha entretanto amealhado aos poucos um dinheirito e consegui comprar uma pedaleira, o que já me permitia não só ir para o trabalho como para me deslocar para as Brotas ou para o Ciborro. É que, antes disso, para um lado ou para o outro gastava uma hora a pé.”

E qual o tipo de divertimento de que dispunham?

“Nas Brotas, de vez em quando havia cinema. Um empresário ambulante percorria estas localidades mais pequenas e, desde que disponibilizassem um espaço adequado, ali realizava as suas sessões, normalmente de fitas portuguesas. Mas mesmo acontecendo poucas vezes, eu só muito raramente lá ia porque as entradas eram pagas e o dinheiro no meu bolso sempre pouco. Quanto a outros divertimentos, só os bailaricos. Mesmo no Monte do Peso, uma filha do patrão organizava bailes num celeiro da casa agrícola e era a própria que pagava ao acordeonista Possidónio Raposo, que habitualmente lá ia tocar. Outras vezes, o patrão cedia as mesmas instalações e, então, era a rapaziada que tomava essa iniciativa. Por norma recorria-se a tocadores mais baratos porque as receitas eram incertas. As raparigas não pagavam a entrada e aos rapazes era cobrado um valor quase simbólico. Depois, lá dentro e no decurso do baile, faziam-se os chamados “cravanços” e organizavam-se umas rifas cujos prémios eram uma garrafa de vinho, um frango assado ou outra coisa do género. Havia ainda a popular “valsa a prémio” que contemplava o par vencedor com uma garrafa de bebida para o rapaz e um bolo para a rapariga.”

Eram os cenários e ambientes naturais para começarem os namoros…

“Sim, mas nada de grandes promessas. Uns bailes com uma, outros bailes com outra e o tempo ia passando. Nós queríamos apenas divertir-nos, não desejando, nem podendo sequer, arranjar compromissos.”

Mas chegou a altura em que teve de dar o passo decisivo...

“A certa altura foi chegado o momento de me aparecer aquela que viria a ser a minha mulher. Namorámos, conhecemo-nos melhor e chegámos à conclusão que o namoro teria de acabar em casamento. E assim, com 24 anos, casei com a Maria Custódia, que Deus tem. Tivemos uma filha – Maria Rosalina -, hoje com 55 anos, casada e com uma menina de 10 anos. Vivem em Montemor.”

E para onde foi morar o jovem casal?

“Fomos residir para o Monte da Fanica, igualmente da família Malta, de Coruche. Quando o sr. Malta faleceu, a casa agrícola do Monte do Peso passou para as mãos de uma das filhas, casada com o lavrador António José Teixeira, também de Coruche. Trabalhei na mesma casa durante muitos anos. Em dado momento construí uma moradia nas Fazendas do Cortiço, onde vivi durante cerca de quarenta anos. Entretanto, a minha esposa faleceu. E, com o avançar da idade, a saúde foi sendo abalada. Comecei com um problema grave na anca, que me dificultava imenso a vida. O ano passado fui operado, mas fiquei sempre com impedimentos em deslocar-me. Ainda vivi em casa da minha filha, mas como mora num primeiro andar era bastante difícil e dolorosa a subida e descida da escada. Um dia, lá em casa, foram dar comigo caído no chão, sem dar acordo de mim. Chamaram de imediato a ambulância que me transportou para o hospital de Évora. Até hoje não cheguei a saber o que me tinha acontecido. Só sei é que fiquei com mais dores do que no tempo que se seguiu à operação. Também não sei se os dois acontecimentos estão relacionados.”

E então …

“Um dia, há uns meses, a Segurança Social perguntou-me se, dado o meu estado, eu estaria disposto a ir para um Lar, uma vez que estava demasiado dependente. Eu disse logo que sim e que sugeria o Abrigo dos Velhos Trabalhadores aqui em Montemor, onde eu nunca tinha entrado nem tinha conhecimentos mas do qual tinha boas referências. Assim foi e aqui estou, como residente, desde 20 de Dezembro passado. Terá sido uma das melhores decisões que tomei na minha vida. Sou muito bem tratado, porque também eu me esforço por tratar bem toda a gente. O ambiente é bom e desde que frequento o ginásio tenho sentido umas sensíveis melhoras. Confesso-lhe, e acredite no que lhe digo, que nem tenho saudades da minha casa.”



Desejamos ao Sr. Ribeiro que se mantenha durante muitos anos com essa excelente disposição.


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

OS NOSSOS UTENTES

Maria Lourença Cabecinha


Para quem sempre teve uma existência mais ou menos calma, sem sobressaltos, e apenas se viu confrontado com os problemas comuns a qualquer um de nós, terá alguma dificuldade em compreender que alguém, por defender uma ideia em que firmemente acredita, sacrifique o seu bem-estar e o dos seus na defesa desses princípios.

Falámos este mês com a D. Maria Lourença Cabecinha, cuja história de vida, não sendo única porque conhecemos outros casos semelhantes, dava um romance, tivéssemos nós o talento para o escrever.
            
Mas vamos dar-lhe a palavra:
            
Tenho 84 anos e vivo em união de facto, desde os 18, com António Joaquim Gervásio. A nossa vida atribulada nem sequer nos permitiu formalizar a relação, mas também nunca foi problema. Temos um filho, com 66 anos, que foi para França, ainda não tinha feito os dezanove, para fugir à guerra colonial.”
            
E como foi a sua infância?
            
“Nasci no Monte da Aldeia, perto da Torre da Gadanha, que pertencia a uma freguesia já extinta e que agora faz parte de S. Cristóvão. Fui filha única de um casal de trabalhadores rurais. O meu pai, ainda miúdo, trabalhava para um patrão que tinha filhos em idade escolar, e era ele quem os acompanhava à escola. Acabou por assistir também às aulas e facilmente concluiu a instrução primária. Depois, como na nossa área de residência não havia escola, foi ele que me ensinou as primeiras letras. E eu, entusiasmada, sempre fui escrevendo e lendo tudo o que me aparecia. Só muito mais tarde fiz o exame da 4ª classe.”
            
E como foi a sua juventude?
            
Dos 12 até aos 19 anos trabalhei no campo, exceptuando os períodos, que eram frequentes, em que não havia trabalho. Tinha 18 anos quando me juntei com o meu marido e um ano depois entrei para funcionária do Partido Comunista Português, onde o António também já trabalhava. Evidentemente que como o partido estava na clandestinidade, também eu adquiri o mesmo estatuto. Passei por inúmeras localidades, com identidades falsas e vivendo em casas clandestinas. Sobre nós pairava sempre a ameaça de a qualquer momento sermos descobertos.
            
E isso aconteceu?
            
“Num dia de Abril de 1964, estava eu numa dessas casas, juntamente com um outro casal, porque o meu marido estava fora, o senhor foi preso, certamente por denúncia. Na prisão não conseguiu resistir às torturas e, certamente com um aperto na alma, acabou por revelar onde morávamos. Então, uma noite, a Pide assaltou a casa e levou-me a mim, à mulher dele e um filhote, com 3 anitos, para Caxias. A criança, ao fim de dois ou três dias foi entregue a familiares, mas a mãe continuou por lá 2 ou 3 anos. Eu estive nesta prisão durante 5 anos e meio, saindo apenas em Setembro de 1969”.
          
Mas não foi julgada?
         
“Estive dez meses à espera de julgamento, que acabou por acontecer num anexo do Tribunal da Boa Hora. E qual era o crime de que me acusavam? Não por ter feito mal a alguém ou roubado qualquer coisa, mas apenas porque pertencia ao quadro de funcionários do Partido e de divulgar os seus ideais. Fui defendida por um advogado já com muita experiência em inúmeros casos deste género, que argumentou como podia, mas tratava-se de uma missão impossível porque já se sabia de antemão que a minha condenação estava traçada. Fui condenada a cumprir, em Caxias, dois anos e dez meses, com medidas de segurança e de vigilância apertada. Como se eu fosse uma criminosa…”
            
Mas por que razão cumpriu uma pena superior?
            
“Porque se tratava de uma pena de prisão maior, o que significava que, no final da pena aplicada, esta ia sendo prorrogada automaticamente por períodos de mais 6 meses. E mesmo assim, quando saí ainda tinha de me apresentar, primeiro quinzenalmente e mais tarde mensalmente, no quartel da GNR aqui em Montemor. Não podia sair do concelho sem revelar onde pretendia ir e a duração da ausência. E, como se isto não bastasse, o controlo continuava e era frequente, isto é, batiam-me à porta para verem se eu estava presente. Estávamos em finais de 1969. Vivia então em casa de minha mãe e foi nessa altura que aproveitei para fazer o exame da 4ª classe com o Professor Jaime Martins.”
            
E enquanto tudo isto se passava, como era o seu casamento?
            
“Estivemos 7 anos sem nos vermos. Quando eu estava presa, o António Joaquim não podia ir ver-me porque corria o risco de ser apanhado. E o mesmo acontecia quando as circunstâncias eram ao contrário.”
            
O seu marido também esteve preso por várias vezes…
           
“O meu António, pelos mesmos motivos que eu, esteve preso pela Pide por três períodos. O primeiro, em 1947, durante seis meses, acusado de agitador e de reclamar melhores condições de trabalho. Depois, em 1960, por ser funcionário do PCP, foi condenado a 5 anos e meio, com medidas de segurança. Terminado o tempo da pena, a Pide apreciava o comportamento do preso e se considerasse que este não tinha alterado a sua convicção política, prolongava o prazo por mais três anos. Isto é: nunca se sabia quando é que iria sair. Mas, aqui, não cumpriu a pena até ao fim. Estava em Caxias e um dia conseguiu fugir, com mais sete companheiros, durante um recreio e, curiosamente, num carro que lá estava guardado, marca Chrysler, à prova de bala, que havia sido oferecido por Hitler a Oliveira Salazar. Mas passados dez anos voltou a ser preso, agora em Peniche, mas um ano e meio depois o 25 de Abril devolveu-o à liberdade.”


           
E que voltas foi dando o seu filho?
           
“Já com 3 anos, o meu filho ficou com os avós. Foi crescendo enquanto nós cumpríamos a nossa missão. Tinha 18 anos tratou dos documentos para se submeter à inspecção militar, mas não chegou a ir à tropa porque, para evitar ir para as colónias, fugiu para França, onde fez vida e ainda se encontra. Visita-nos quando pode”
            
Mas enquanto o seu filho era um jovem, via-o com frequência?
           
“Depois de ter os 3 anos, só vi o meu filho já com 7 anos e depois com 13, quando me foi ver à cadeia. Foi muito difícil.”
          
Está, juntamente com o seu marido, a viver no “Lar” do Abrigo há muito pouco tempo. O que os levou a dar esse passo?
            
“Eu tenho 84 anos, o meu marido tem 90, e a saúde já vai faltando. Não tenho família da minha parte e a família que ainda existe do meu marido também não está em condições de nos prestar qualquer auxílio. Vivíamos sozinhos e, como o meu filho veio de França para nos ajudar a resolver estes assuntos, decidimos optar por esta solução que nos pareceu ser a única possível.”
            

Desejamos ao casal um futuro com a saúde possível e com a paz que bem merecem.


quarta-feira, 19 de julho de 2017

OS NOSSOS UTENTES

FILIPE LUÍS PALMA

“A minha vida não tem nada de interessante que valha a pena contar e, quanto a confissões, já fiz as que tinha a fazer”. Foi assim que se iniciou a nossa conversa deste mês com o sr. Filipe Luís Palma. Mas, palavra puxa palavra, ainda nos foi contando alguns pormenores da sua história:


“Sou natural de Ferreira do Alentejo, onde nasci vai fazer 80 anos dentro de poucos meses. Eu era um dos mais novos de 11 irmãos. Alguns de nós andaram à escola e eu ainda fiz o exame da 4ª classe da instrução primária que, para o tempo, já era muito bom. Mas logo que terminei os estudos comecei a dar serventia na construção civil. E foi a carreira que segui até ir para a tropa”.

Onde lhe calhou ir assentar praça?

“Em Beja, onde me mantive durante dezasseis meses. Ao fim deste tempo fui desmobilizado e resolvi ir para Lisboa trabalhar nas obras. Passado relativamente pouco tempo, e quando eu já estava convencido que me livrara definitivamente da tropa, fui surpreendido com nova chamada para me apresentar no quartel em Beja. E pouco tempo depois, mais precisamente no dia 28 de Junho de 1961, embarquei para Angola, a bordo do Navio "Vera Cruz", quando o conflito estava em brasa. E eu, que era incapaz de matar ou fazer mal a quem quer que fosse, vi-me metido naquela balbúrdia. Porém, e devido a uma doença que me surgiu na vista direita, ao fim de seis meses fui recambiado para Portugal para ser internado no Hospital da Estrela. Dali mandaram-me para o quartel na Calçada da Ajuda de onde, passado pouco mais de um mês, me mandaram embora definitivamente.”

E, então, teve de dar novo rumo à sua vida …

“Regressei à minha casa em Ferreira do Alentejo e um amigo nosso, sabendo que eu tinha estado em Angola e actualmente estava desempregado, perguntou-me se eu queria concorrer para guarda-rios. Aproveitei a oportunidade, fiz um curso em Setúbal e passei no exame final, tendo ficado classificado em 5º lugar entre mais de uma centena de candidatos.”

E começou assim uma carreira que só terminaria na reforma…

“Estava destinado a ir para Grândola, mas acabei por ser colocado em S. Cristóvão. Foi-me destinado um curso de água que começava perto da Gamela e ia até à ribeira de Vale Roque. A minha missão era evitar a pesca ilegal mas, sobretudo, não permitir a extracção de areias, a construção de obras e a execução de furos sem a necessária autorização. Por aqui me mantive perto de vinte anos. Dali passei para a zona de Arraiolos, onde estive uns quatro anos após os quais regressei a S. Cristóvão.”

Mas ainda não se referiu à sua vida amorosa…

“Então vamos lá a essa parte. Ainda em Ferreira do Alentejo tive vários namoricos que não deram em nada. Porém, quando fui para S. Cristóvão, portanto ainda solteiro, fui para uma pensão, ou mais propriamente para uma casa particular, onde comecei a namorar a irmã da proprietária. E foi exactamente com ela que acabei por casar. Chamava-se Joaquina Carraça Marquito, infelizmente já falecida há mais ou menos treze anos. Do casamento não nasceram filhos.”

Pronto. Esclarecida essa parte o que aconteceu depois do regresso a S. Cristóvão?

“Já casado, tinha comprado nesta freguesia uma casa onde vivíamos. Mas, algum tempo depois fui colocado em Montemor, onde trabalhei com outro guarda-rios chamado José Abrantes. Então, vendi a minha casa de S. Cristóvão e, com muito sacrifício, comprei outra aqui na Rua de Lisboa, onde ainda moro, infelizmente já sozinho porque a minha mulher, como já disse, faleceu há uns anos.”

O que o decidiu vir para o Abrigo para beneficiar do “Centro de Dia”?

A solidão e a doença fizeram-me, há uns meses, dar este passo de que, aliás, não estou nada arrependido. Sem filhos que me pudessem valer, era a minha única hipótese. Estou agradecido a todos, mas quero aproveitar para deixar vincada a minha gratidão pela forma como fui sempre tratado em S. Cristóvão, cuja terra e o seu povo ainda hoje guardo no meu coração.”

Muitos anos, sr. Filipe, com essa vontade de viver.


            

terça-feira, 27 de junho de 2017

OS NOSSOS UTENTES

MARCOLINA ROSA



O Abrigo dos Velhos Trabalhadores que, com esta denominação, assinalou a passagem do seu 50º aniversário a 13 de Junho, dia de Santo António, nasceu e herdou a sua vocação assistencial a partir do Asilo de Mendicidade, criado em 1 de Janeiro de 1914.

Exactamente uma semana depois da celebração da efeméride, estivemos à conversa com uma utente do “Centro de Dia”, que se dispôs a falar sobre alguns aspectos da sua já longa e experiente vida.

“Chamo-me Marcolina Rosa que, em boa verdade e apenas por lapso ou omissão, não tenho oficialmente o apelido do meu pai – Pontes. Nasci no dia 26 de Maio de 1929 pelo que já contei a passagem de 88 anos.”

Era filha única?

“Qual quê. Para não me sentir muito só, tinha mais 8 irmãos. Nasci no Casal dos Tamancos, perto da Malveira. O meu pai era agricultor e todos nós com ele trabalhámos até encontrarmos outras ocupações. Como o lugar onde vivíamos era longe de tudo, só a minha irmã mais nova fez a instrução primária quando ali mais perto abriu uma escola. Os restantes irmãos aprenderam a ler e a escrever mas já em adultos."

E trabalhou sempre no campo e na casa paterna?

“Não, apenas enquanto fui solteira. Já casada, para além de ir morar para a Reboleira, trabalhava na zona da Estrela, na casa de uma família do Alentejo, onde fazia de tudo e também exercia a função de cozinheira noutras casas.”

Sabemos que é viúva. Conte-nos alguma coisa acerca do seu casamento que ache ser relevante…

“Quase nem tive tempo para ser feliz no casamento. O meu marido – Domingos José Afonso – natural de Moledo do Minho já me traía em solteiro sem eu saber. E ao fim de cinco meses de casados abandonou-me, foi para França, e nunca mais deu notícias. Deixou-me grávida de 3 meses da minha filha – Ana Manuela Pontes Afonso, agora com cinquenta anos. Mais tarde vim a saber que ele tinha falecido em terras francesas.”

Sozinha e com uma filha, teve de lutar pela vida…

“Sempre batalhei. Durante 32 anos fui cozinhar, três dias por semana, a casa de uma senhora que morava na Estrela e mais dois dias a casa de outra senhora que residia no Campo de Sant’Ana. Aqui trabalhei 24 anos. Deixava o comerzinho todo feito, dividido em caixas, e depois a família era só aquecer. A primeira daquelas senhoras, já então viúva, gostava muito de mim e até me pagou para eu ir à Madeira e a Espanha. Com esta mesma senhora, nos dias em que lá trabalhava, íamos as duas, das 8 às 11 horas, ao Hospital da CUF, como voluntárias, dar uma ajuda aos doentes, e só à tarde fazia o meu serviço de cozinheira. Mas a minha actividade não se ficava por aqui. Aos Sábados e Domingos, juntamente com outra colega, fazíamos casamentos.”

E terminou assim a sua labuta?

"Não. Aos 62 anos reformei-me, mas a convite de uma médica que exercia naquele hospital, ainda estive, durante as suas férias, a tratar da sua mãe, pessoa já idosa e praticamente inválida, a quem eu tinha de prestar todos os cuidados. Passado esse período regressei à minha casa que tinha arrendada em Loures. Tinha então a intenção de comprar um andar e começar a tomar conta de crianças.”

Mas, pelos visto, esse desejo não se concretizou. E como é que, tendo sempre vivido em Lisboa ou por ali perto, veio parar a Montemor?

“Entretanto a minha filha, com 17 anos, casou com um filho do sr. Armando Lopes, que era dono da Pecuária da Rosenta e do Monte do Outeiro da Laje, para onde o jovem casal foi morar. Porém, o meu genro, quando os filhos tinham 3 e 6 anos, abalou para o Brasil. Até hoje. E embora já tenham falado algumas vezes, nunca mais regressou ao lar. Foi então, quando a minha filha ficou sozinha com os bebés, que eu vim para Montemor, mais propriamente para o referido Monte do Outeiro da Laje. E assim se passaram 24 anos. Tinha eu nessa altura 64.”

E a que se deve o facto de ter vindo para o Abrigo?

“Porque a minha filha, durante o dia, tem outras actividades, juntamente com o meu neto mais novo, fora da área da residência, e eu já tenho alguma dificuldade em locomover-me e sempre com receio de alguma queda, resolvi vir para aqui, onde estou desde Outubro passado. A minha filha vem trazer-me de manhã e à tarde vem recolher-me.”

Manifestou-nos ainda o desejo de vir a integrar o “Cant’Abrigo”, pelo que fica desde já o alerta para o maestro André.

Esperamos numa próxima actuação do coral ver já no palco a D. Marcolina.


terça-feira, 23 de maio de 2017

OS NOSSOS UTENTES

JOÃO JOSÉ MELGUEIRA




Este mês, quando cheguei ao Abrigo, para a habitual entrevista, estava longe de esperar que a conversa seria com uma pessoa que eu conheço há muitos anos e, ainda por cima, irmão do meu amigo António.

Nasceu há 85 anos no Monte do Telheiro do Costa, perto da Fidalga, numa família que, para além dos pais, era constituída por 6 irmãos. É casado há mais de quarenta anos com Madalena do Céu Pereira Messias Melgueira. Não tiveram filhos. Aqui fica um resumo da sua história de vida:

“O meu pai era moleiro e lembro-me de que trabalhou no Monte da Azenha,  no Moinho do Canal e no Moinho do Borrazeiro. A nossa infância foi igual ao de tantas outras crianças que, vivendo no campo, poucas oportunidades tinham de alterar uma vida desde cedo destinada ao trabalho rural.”

Mas nunca frequentou a escola?

“De todos os meus irmãos, só os dois mais novos foram à escola. Eu, na verdade também andei, mas apenas um mês. E quer saber porquê? A escola em que eu estava, se é que àquilo se poderia chamar escola, era um local que só tinha uma parede de um lado e, do outro, para segurar o telhado, estavam apenas dois pilares. Ficava no monte do Foro, perto da herdade da Laje. A senhora que dava as aulas não era professora oficial e apenas ensinava a ler e a escrever. Ninguém podia ir assim fazer exame. Mas, de qualquer forma era melhor do que nada. Pagava-se então cinco escudos por mês, sendo que o meu pai ganhava, diariamente, sete escudos e cinquenta centavos, com que tinha de sustentar a família. Ia a meio do segundo mês quando a “propina” aumentou para seis escudos, pelo que a minha mãe tirou-me das aulas.”

Então não chegou verdadeiramente a aprender coisa de jeito…

“Só mais tarde, já em adulto, é que aprendi a ler e a escrever, primeiro com o sr. Francisco Santos e depois com o sr. Mendonça. Também não eram professores, mas adquiri os conhecimentos suficientes para fazer o exame da 4ª classe. Foi meu examinador o sr. Professor Jaime Martins.”

Mas voltemos à sua infância:

“Com pouco mais de oito anos comecei a guardar gado na Quinta de Paiva. Pagavam-me dez tostões por dia e de comer. Fiz isto até aos onze anos. Tendo deixado estas funções, iniciei-me nas fainas agrícolas, trabalhando no que calhava, incluindo charruar com uma parelha, constituída por uma mula e uma burra. Passados uns três anos fui aprender a padeiro, com um tio meu chamado Luís da Venda, ali na Fidalga. Mas não gostei do ofício e regressei aos trabalhos do campo. Já então, com dezasseis ou dezassete anos, ganhava a mesma jorna que os homens. Mais ou menos por esta altura ia para o trabalho montado num burro que tinha mau feitio e não gostava de dar cavalagem. Então, de vez em quando, atirava-me ao chão. Só numa das viagens despejou-me quatro vezes.”

E foi sendo esta a sua actividade pela vida fora?

“Não. Perto dos meus trinta anos tive um grave problema na coluna, de que nunca mais recuperei. Por esse motivo fui forçado a deixar o trabalho no campo e comecei a vender produtos hortícolas, galináceos e caça no mercado municipal. Mantive-me por ali até 1974 ou 1975. Tinha então 42 ou 43 anos. Nessa altura tive de me reformar por incapacidade física.

E ficou por cá?

“Não. Fui para o Vale de Santarém tomar conta de um matadouro, controlando a entrada e a saída dos animais. Passado cerca de um ano a empresa faliu. Com autorização de um dos sócios fiquei a viver nuns anexos e tive de pensar em governar a vida, uma vez que a reforma era muito pequena. Então, resolvi criar animais: porcos, bezerros e animais de penas, que ia vender ao mercado do Cartaxo. E foi à volta dos meus setenta anos que regressei à base, indo morar para uma casa arrendada no Terreiro das Pinas.”





Mas no meio de toda esta azáfama, ainda teve tempo para o casamento.

“Na minha juventude tive vários namoricos mas sem consequências de maior. Só quando estava na ternura dos quarenta é que aconteceu o namoro a sério. Vendia nessa altura no mercado em Montemor e a Madalena era minha freguesa. Tinha menos dez anos do que eu mas deu-se a faísca. Primeiro juntámo-nos e mais tarde casámos oficialmente.”

Hoje estão os dois no Abrigo há poucos meses. Como passam os dias?

“Não há nada como a nossa casa, mas com o meu estado de saúde a agravar-se, tivemos de tomar esta decisão. Mas devo confessar que somos bem tratados e que não temos nada a apontar em desabono. É claro que é muita gente e cada qual com o seu feitio, mas tudo isso vai sendo ultrapassado.”

E como preenchem os dias?

“Quando o tempo permite damos os nossos passeios matinais na zona exterior do Abrigo e, depois, vamos ao ginásio, passeamos com as excursões aqui organizadas, jogamos ao bingo a feijões, vimos televisão, conversamos e já temos assistido, na Biblioteca Municipal, às “Festas dos Contos”, onde até me convenceram a contar histórias, anedotas ou outras curiosidades.”

Quem sabe se um dia destes não vão também integrar-se no Coral ou numa das outras manifestações culturais e recreativas que por aqui se vão realizando. E as marchas populares já estão à porta …

segunda-feira, 24 de abril de 2017

OS NOSSOS UTENTES

LUISA MARIA FACA


Já com o estatuto de “rainha”, título que lhe foi conferido, por aclamação, no “Baile da Pinha” realizado no Abrigo do dia 12 deste mês de Abril, Sua Majestade D. Luísa Maria Faca prestou-se, com alguma relutância, a falar da sua vida privada. Que nem sempre foi fácil, como adiante se verá.

 “Nasci, no dia 15 de Janeiro de 1935, na Courela do Santíssimo, perto da ermida da Sra. da Visitação, e ali vivi enquanto fui solteira. Sou a mais nova de quatro irmãos.”

Aqui tão perto da então vila, certamente que andou à escola…

 “Engana-se. Por motivos que ainda hoje não compreendo muito bem, o meu pai não deixou que eu fosse. E o mesmo aconteceu com os meus irmãos. A eles ainda posso perceber o motivo, que seria certamente para não privar o orçamento doméstico dos seus eventuais salários. Mas comigo, a razão seria outra. Os meus irmãos, especialmente o mais velho, que na altura já era um homem, defendiam que eu deveria ir à Escola, mas o meu pai nunca permitiu.”

E assim, que destino lhe reservou o futuro?

 “A labuta no campo, está bem de ver. Com 11 anos já trabalhava no duro e assim foi sempre até me reformar.”

Os anos foram passando e o inevitável namorico aconteceu…

 “Cerca dos meus quinze anos namorisquei com um rapazito da mesma idade. Era um garoto, tal como eu. Nesses anos havia muitos bailaricos. O meu irmão mais velho tinha uma concertina e cedo começou a levar-me com ele para os bailes que frequentemente se organizavam, a propósito de tudo e de nada, nos montes das redondezas. Era o tempo em que qualquer casita se transformava em local de bailarico. E com 18 anos, já então tinha falecido o meu pai, comecei finalmente a namorar mais a sério com o Joaquim, que haveria de ser o meu marido dois anos mais tarde.”

E o conhecimento com o seu futuro marido aconteceu nalgum desses bailes?

 “Não. Éramos os dois trabalhadores agrícolas e foi na Adua que nos conhecemos, porque ele morava longe de mim, nas Fazendas, para os lados do Lanita. E, como disse, dois anos bastaram para o namoro. Com 20 anos casei-me com o Joaquim António Magrinho e desse enlace nasceram-me dois filhos – a Idália e o José Francisco – ambos já casados e residentes em Montemor.”

E depois de casada para onde foi morar o casal?

 “Fomos para a Quinta das Laranjas, perto dos Cavaleiros. Mesmo ao meu lado morava uma senhora que eu considerava como a minha segunda mãe. Chamava-se Vitorina Cartas e ainda hoje a recordo como uma excelente criatura. Por aqui estive cerca de seis anos e era a nossa residência quando nasceram os meus filhos. Dali passámos para o Monte das Feiticeiras, pertinho da residência anterior.”

E quando casaram continuaram a labutar no campo?

 “Sim. E sofria-se muito nos trabalhos agrícolas. Recordo-me que em determinada altura andava no arroz, na Quinta de Sousa, ao tempo em que a minha filha fez os três anos. E tinha de a deixar ao cuidado da cozinheira, porque não tinha outra qualquer alternativa. Mais tarde, andava na cortiça, numa herdade perto do Escoural, e o meu filho, apenas com quatro meses, enquanto eu estava a trabalhar, dormia numa prancha de cortiça, acabada de tirar do sobreiro, que lhe servia de berço. E à noite dormíamos, juntamente com outros trabalhadores, numa casa velha e tendo, como camas, juncos e as poucas roupas que tínhamos conseguido levar de casa.”

Era, portanto, uma vida bastante difícil.

 “Tenha a certeza disso. Numa altura andámos em Benavente, no arroz, e as condições eram igualmente deploráveis. Dormíamos num barracão onde normalmente estavam as vacas e ali tínhamos de nos abrigar todos. E as camas, de palha de arroz, eram separadas umas das outras com um tijolo. E de um lado dormiam os homens e do outro lado as mulheres. Eram normalmente três meses de grande penação. Tudo isto para ganharmos meia dúzia de tostões, trabalhando de sol a sol.”

E a D. Luísa continuou a recordar:

 “Quando os meus filhos ainda eram pequenos mudámos para as Fazendas do Cortiço. Passado tempo o meu marido faleceu, depois de trinta anos de vida em comum. Neste momento sou viúva há 32 anos. Entretanto os meus filhos cresceram, casaram e foram à sua vida, como é natural. E eu, já com mais de sessenta anos, e com pensão de invalidez, fui morar para a Fonte de Torres com o meu irmão Manuel e a minha sobrinha Beatriz, num anexo que eles me cederam. Mas com o passar do tempo a minha saúde foi-se degradando ainda mais. Tinha dificuldade em fazer as coisas mais elementares e tive de tomar esta decisão de entrar para o “Centro de Dia” do Abrigo, onde me encontro desde o dia 15 de Março último. Vou dormir, naturalmente, à casa da Fonte de Torres.”

E como tem sido a sua adaptação?

 “É claro que nada chega à nossa casa e especialmente os primeiros dias não foram fáceis. E para não levar o tempo a chorar tive de encontrar distracções. Assim, vou vendo televisão, conversando, dando uns passeios e aproveito todas as oportunidades para ultrapassar esta fase que é sempre difícil. Ajuda-me também o facto de ser bem tratada por toda a gente, o que é muito importante. Para além de tudo o mais, tenho também a felicidade de ter 4 netos (3 rapazes e 1 rapariga) e um bisneto, agora com 6 anos, que são a luz dos meus olhos.


E pronto. Resta-nos agradecer a disponibilidade e desejar um reinado feliz.