segunda-feira, 21 de maio de 2018

OS NOSSOS UTENTES


CALINO FRANCISCO



A nossa conversa começou, quase obrigatoriamente, com o pedido de satisfação de uma curiosidade, visto que, já conhecendo o nosso entrevistado há alguns anos, sempre suspeitámos de que por trás do seu estranho nome haveria uma história para contar. E não nos enganámos. Colocado perante a questão, o nosso entrevistado prestou-se a esclarecer-nos:

“O meu nome nasceu de um erro. Eu nasci no monte dos Cufenos de Cima, pertencente à então freguesia de Safira. Naquele tempo, se se nascesse em freguesias rurais, quem procedia aos registos provisórios era o cabo-chefe da zona. Esta figura, que fazia o papel de presidente de Junta, era muitas vezes pouco mais do que analfabeto. Nessa altura, em Safira, era o sr  Sertório Lagartixa quem desempenhava essas funções. Então, no seu próprio estabelecimento, que servia de sede da Junta, tomava conta das ocorrências e fazia um relatório provisório que depois ia levar à Conservatória do Registo Civil, em Montemor, a fim de oficializar o registo e o tornar definitivo."

E foi isso que aconteceu consigo?

Logo após o meu nascimento, a minha mãe e outros familiares (uma vez que o meu pai faleceu ainda eu me encontrava no ventre materno) dirigiram-se ao representante da Junta, comunicaram o nascimento e informaram que queriam que o meu nome fosse AQUILINO. Mas o cabo-chefe percebeu mal ou errou por desconhecimento e incorrectamente escreveu Calino. Mais: a Conservadora nem sequer estranhou ter sido dado um nome insólito a uma criança e não colocou qualquer objecção ou tentou esclarecer eventual dúvida. Quando anos mais tarde tive de tirar o bilhete de identidade é que esta mesma Senhora  me disse que havia sido cometido um erro porque aquele nome não me podia ter sido atribuído. E eu respondi-lhe que tinha sido ela própria a principal culpada, porque quando o sr. Sertório lhe apresentou o registo provisório deveria ter dito de imediato que aquele nome não podia ser dado, esclarecido o assunto e procedido à necessária correcção. E mesmo nessa altura, quando a Senhora reconheceu o erro, certamente que haveria modo de emendar o nome. Mas nada fez”

E ao longo da vida deve ter sentido alguns constrangimentos e embaraços por causa de um nome tão estranho…

“Claro que sim. Tive vários episódios desagradáveis e alguns aborrecimentos por causa do nome. Quando fui para a tropa, o então major Pimenta, aqui de Montemor, quis alterar-me o nome porque o considerava um absurdo. Mas disse-me que o custo dessa alteração custava doze escudos e cinquenta centavos e só produzia efeitos ao nível da tropa, porque para andar com o processo a nível civil ia custar-me muito mais. E eu desisti do intento e respondi-lhe que ganhando eu apenas vinte e cinco tostões por mês, o valor da primeira alteração dava-me para ir algumas vezes a casa ver a minha mãe e pedir-lhe que me tratasse da roupa."

Esclarecido este “mistério”, vamos saber mais pormenores de uma vida que completou 84 anos em Março passado:

“Como já disse, nasci no monte dos Cufenos de Cima. Fui o mais novo de quatro irmãos (3 rapazes e 1 rapariga) dos quais só eu ainda estou vivo. Como também já disse, nunca cheguei a conhecer o meu pai, que faleceu antes do meu nascimento. Sem a ajuda paterna tivemos dificuldades, como é de calcular. E ainda bem novinho comecei a guardar gado. Por volta dos 13/14 anos deixei o gado e comecei a labutar no campo, o que fiz sempre até ir para a tropa. Estive a fazer a recruta aqui no 16, em Évora e depois passei para a Manutenção Militar, na mesma cidade vizinha. Foram os únicos meses de férias que tive na vida, comendo bem e trabalhando pouco.”
            Mas nunca chegou a andar à escola?

“Foi exactamente na tropa que aprendi a ler e a escrever, porque em contas eu já era um ás, porque um pastor com quem eu trabalhei ensinou-me e bem. Depois dei a matéria da 3ª classe e fiz no fim uma pequena prova, mas nunca me deram qualquer diploma.”

Acabada a tropa, novo rumo…

“Voltei, naturalmente, aos trabalhos agrícolas. Eu fui criado na zona das serras de Cabrela. Ali aprendi todas as tarefas. Só nunca tinha tosquiado ovelhas nem tirado cortiça, mas depois da tropa tornei-me um verdadeiro profissional na arte de extracção deste valioso produto.”

E então? …

“Mas com vinte e um anos mudei-me para o Freixo do Meio, junto aos Foros de Vale Figueira e por ali me mantive. Ficou para trás toda a minha vida nas serras de Cabrela, deixando lá inclusivamente um namoro, e comecei aqui um novo ciclo. Agora ouça esta: quando me mudei lançaram-me como que uma maldição (aquelas coisas que se diziam por dizer) que significava que no novo lugar só iria casar com uma viúva. Mas eu não quis saber dessa parvoíce e sempre disse que haveria de namorar e casar com uma rapariga que fosse de primeira apanha. Ainda tive vários romances mas acabei por namorar e casar, há sessenta e tal anos, com a minha actual e única mulher - Princepelinda Rosa Ferreira, cujo nome próprio também será uma raridade.”

E foi lá mesmo pelos Foros que se foi mantendo.

“Sim, claro. Estivemos ainda durante algum tempo na Suiça e, regressados, lá comprámos uma parcela de terreno onde construímos a nossa casa. Entretanto, os anos foram passando e, sem filhos, sem possibilidade de continuar a trabalhar, com menos saúde e já em idade avançada, resolvemos vender a casa nos Foros e arrendar uma outra aqui em Montemor. As contingências da vida levaram-nos a solicitar o “Apoio Domiciliário” do Abrigo dos Velhos Trabalhadores e, já este mês, começámos a usufruir, também nesta Instituição, do “Centro de Dia”. E por cá vamos estando, até que Deus queira.”

Obrigado, amigo, pela sua disponibilidade.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Os nossos utentes

CUSTÓDIA MARIA (Flamina)

        

         Sendo uma das mais novas “aquisições” do Abrigo, onde entrou em 29 de Março último, a nossa entrevistada nasceu no dia 29 de Janeiro de 1933, contando portanto a bonita idade de 85 anos.    

“Nasci em Montemor e aqui, ou nos seus arredores, sempre vivi. Sou viúva há cerca de onze anos de Jerónimo José Albino e tenho dois filhos – Filipe Albino e Francisco Albino.”

Mas vamos começar pelo princípio.

“Éramos doze irmãos e eu era uma das do meio. Com tanta gente, a vida não era fácil e, a exemplo dos meus irmãos mais velhos, cedo comecei a contribuir com o que estava ao meu alcance para o sustento da família. Com 4 anos já ia para a “bicha” do pão, cuja venda era regulada por senhas. Como éramos muitos, outros dos meus irmãos também para lá iam porque só um pão não chegava para toda a família. E assim tentávamos nós, todas as semanas, arranjar o que era o nosso principal alimento.”

Mas não podiam viver só com o pão …

“O meu pai, nos seus tempos livres, que eram poucos, fazia umas hortazitas de onde tirava umas hortaliças que ajudavam a alimentar o pessoal. E à medida que íamos crescendo, já o trabalho esperava por nós. Com pouca idade começávamos logo a labutar. Apanhar azeitona foi a minha estreia e nunca mais parei. Fiz praticamente tudo o que era trabalho no campo.”

Os anos foram correndo e …

“Apesar de ser muito cortejada, logo aos 14 anos comecei a namorar aquele que haveria de ser o meu marido. Tive muitos pretendentes, mas havia alguns “fadistões” que quando se apercebiam, ou que eu já entregara o meu coração, ou quando vinham a saber que nós éramos muito pobres, depressa desistiam. E quando tinha 24 anos casámos.”

Casamento, vida nova…

“Fomos morar para casa dos meus sogros e por lá estivemos mesmo depois de ter nascido o nosso primeiro filho. Entretanto, passado algum tempo o meu sogro mandou arranjar uma casa desabitada que havia perto deles e, então, mudámo-nos. Foi já aqui que nasceu o nosso segundo filho, tendo, inclusivamente, sido a minha sogra que me acudiu e serviu de parteira.”

Mas não ficaram por ali.

“Em determinada altura fomos morar para o Monte do “Esbarrondadouro”, ali perto de Évora, propriedade do lavrador Manuel Dias Descalço, onde o meu marido era moiral das parelhas. E dessa vez não estivemos lá muito tempo porque em dado momento houve uma greve e o patrão despediu todos os grevistas, onde se incluía o meu marido.”


E ficaram desamparados…

“Não, porque aconteceu uma coisa curiosa. O castigo aplicou-se apenas naquela herdade, tendo o patrão passado todos os trabalhadores nessa situação para uma outra propriedade no Monte dos Álamos, que distava bastante do anterior local de trabalho. Mas eu fiquei a morar na mesma residência, sendo que o meu marido só ia a casa semanalmente.”

E assim continuou?

“Passado algum tempo o patrão mandou-o chamar e disse-lhe que o castigo tinha terminado, pelo que iria voltar para o “Esbarrondadouro”. E foi aqui que teve o acidente com a parelha que lhe fracturou uma perna, inutilizando-o para o serviço. E, como resultado, foi despedido sem receber qualquer indemnização porque o patrão não tinha ninguém no seguro.”

Foi um golpe muito duro…

“Se foi. Especialmente para ele. Dali fomos para o Monte da Alcava de Cima, perto de Santa Sofia. Impedido de fazer o seu habitual trabalho, começou a vender peixe pelos montes. Um dia, teria ele cerca de setenta anos, teve inesperadamente um AVC. Estava sentado num pequeno muro, deu-lhe o ataque e caiu para o lado, já morto. Este, sim, foi o golpe mais duro na minha vida.”

E depois?

“Já viúva, tive de continuar a trabalhar no campo, já para lá dos setenta anos, para garantir o meu sustento. Morando já aqui em Montemor, ao fundo da Rua das Piçarras, tive a ajuda da minha neta, Márcia Cristina, que me conseguiu arranjar esta solução de vir para o Centro de Dia do Abrigo, onde me encontro desde o passado mês de Março.”

Obrigado pela sua atenção, D. Custódia. Gostámos de falar consigo.

segunda-feira, 26 de março de 2018


JOAQUIM RAFAEL MARTINS


Vai completar 92 anos no próximo mês de Abril, mas ainda lhe surge um brilhozinho nos olhos quando evoca os seus tempos de juventude e os bailaricos que, nos mais diversos locais da sua zona de residência, eram frequentes quase todos os fins de semana. Está casado há 67 anos com Margarida Augusta Ladeiras. Não tiveram filhos. Estão como residentes do Abrigo há cerca de 5 anos.

Nascido no Monte Novo, ali perto dos Cavaleiros, o sr. Joaquim Rafael Martins recorda algumas fases da sua vida.

“Sempre vivemos no campo. O meu pai explorava uma pequena parcela de terra que era nossa e trabalhava noutras que arrendava. Na idade apropriada andei à escola, não numa oficial mas numa casa grande onde uma senhora, salvo erro de nome Maria Emília, vivia com os pais e dava aulas a uma dúzia de crianças dos arredores, certamente que a troco de qualquer “milhadura”. Ainda frequentei a terceira classe, mas estou em crer que não fiz qualquer exame. Ainda hoje vou lendo, mas na escrita tenho mais dificuldades.”

E acabada a escola, houve que começar nova fase na sua vida:

"Teria uns doze anos comecei a trabalhar no campo, juntamente com o meu pai. Fiz praticamente de tudo, tanto na nossa terra como na da D. Antónia Padeira, que o meu pai trazia de renda. Ainda me recordo de ir ali a uma casa, com a frontaria de azulejos, em frente da Igreja da Sra da Luz pagar os 8 contos que era o valor anual da renda. Isto para além da pitança, que no caso em concreto se tratava de 3 galinhas e 1 peru, que eu, de carroça, ia levar ao monte de Vale de Nobre.”

E era chegada a altura que toda a juventude conhece…

“A minha juventude foi bem aproveitada. Ali pelas Fazendas, raro era o Sábado em que não havia funçanada. Nem queira saber o que eram aquelas festanças. Bastava haver um rapaz que desse uns toques de concertina e estava o baile armado. Pelo Carnaval, então, aquilo era uma festa pegada. Agora até mete pena. Está tudo praticamente desabitado. Há muitos montes vazios. É um dó de alma.

E era nesses bailaricos que se arranjavam os namoros...

“Claro. Com 18/19 anos comecei a namorar a que haveria de ser a minha mulher. Pelo meio ainda namorisquei outra rapariga, mas acabei por voltar à mesma. Então, tinha eu 24 anos e a Margarida 22, um belo dia juntámos os trapinhos. Mas a D. Antónia não consentia ninguém na propriedade que não estivesse legalmente casado, pelo que tivemos de oficializar o casamento pelo Registo e pela Igreja.”
        
E já com o novo estatuto mantiveram-se por lá muito tempo?
         
“Nem por isso. Já casados, fomos morar para o Monte do Passa Figo, onde permanecemos 34 anos. Passado este tempo a Senhora vendeu a propriedade ao sr. Luís Torres e, então, tivemos de nos mudar. Regressámos ao meu lugar de origem – o Monte Novo – e por aqui ficámos cerca de 30 anos.”
        
E sempre a trabalhar no campo?
      
“Sim, senhor. Fiz praticamente todos os trabalhos na agricultura e também trabalhei em carvoarias, desde cortar e preparar a lenha, “terrear” os fornos e, depois do carvão estar pronto, retirá-lo e ensacá-lo. Levei uma vida de trabalho, mas calmo, sem grandes alterações.”
         
E agora?
         
“Sou muito nervoso, mas de resto pessoalmente não tenho sido muito massacrado. A minha mulher, essa sim, tem sido uma vítima das doenças. Praticamente incapacitada devido a reumatismo nas mãos e nos pés, ultimamente ainda lhe apareceu mais uma qualquer doença que a obriga a alimentar-se através de uma sonda."

Então, como vai passando os dias?

“Ultimamente não tanto, devido ao estado de saúde da minha mulher, mas participava nas actividades que aqui se vão fazendo. Só este ano é que não desfilei pelo Carnaval. Fui algumas vezes nas visitas que o Abrigo organiza mas, pelo mesmo motivo, agora não tenho ido. Já agora, vou contar-lhe um pormenor curioso: Entrei para o Abrigo numa segunda-feira de Entrudo e, mal cheguei, fui logo metido ao barulho pelo Zé Manel e pela D. Céu, que me convidaram a entrar com o pé em dança. E eu não me fiz rogado.

Felicidades, Amigo Joaquim e os votos de melhoras para a sua Esposa.



segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

OS NOSSOS UTENTES

SOFIA ROSA BREJO

Não sendo, felizmente, caso inédito, bem pelo contrário, é sempre com justificado júbilo e respeito que se assinala o centenário de um(a) utente desta Instituição.


Não é todos os dias, não obstante a esperança de vida ter aumentado substancialmente, que se atinge ainda em boa forma os 100 anos de existência.

Aliás, aqui no Abrigo têm sido vários os casos de longevidade que nos orgulhamos de registar. Pois bem: no passado mês de Janeiro, a nossa utente D. Sofia Rosa Brejo atingiu essa bonita idade. E estivemos agora à conversa com ela.

Possuidora ainda de uma excelente memória, aqui e ali com justificados lapsos de pormenor, foi-nos contando:

“Nasci no Monte da Bola, nos arredores da Maia. Numa família com doze filhos, dos quais estiveram nove vivos ao mesmo tempo. Faleceram os três que eram mais velhos do que eu. Hoje, apesar de ser a mais idosa, sou a única que consegui resistir.”

A infância, bem, a infância foi aquela a que estava destinada a maior parte das crianças que viviam no campo…”

“Não, nunca andei à escola. Ainda hoje não sei ler nem escrever. Naquele tempo, os mais velhos, sobretudo as raparigas, ajudavam na lida da casa e a tomar conta dos irmãos mais novos, para que os meus pais pudessem governar a vida. E assim foi acontecendo até perto dos dezasseis anos, idade com que “enrreguei” a trabalhar no campo, “sargaçando”, isto é, arrancando o sargaço e juntando-o em montinhos. Mas depois ainda fiz muitas mais tarefas.”

Nessa idade é tempo de namorar…

“Nunca fui muito namoradeira. Antes do meu marido só namorisquei um rapaz, mas isso foi breve e sem consequências. Depois comecei então a namorar o que seria o meu marido, mas nessa altura era tudo às escondidas, porque os nossos pais, nesses tempos, não viam com bons olhos os namoros das filhas. Com cerca de 25 anos juntei-me então com o pai dos meus filhos, de nome Francisco Manuel Bravo, situação que durou até à sua morte, há cerca de 20 anos.”

E então para onde foi viver o jovem casal?

Fomos morar para o Gandum e depois para o Monte Novo, ali nas Fazendas, que fazia estrema com a propriedade chamada João Pais. No primeiro daqueles locais tive dois filhos e o rapaz mais novo já na segunda das habitações. Enquanto os meus filhos foram pequenos não podia trabalhar fora de casa. Devido a doença, praticamente já não ia trabalhar para o campo, a não ser a apanhar umas boletas ou outros serviços do género, até porque também tinha problemas na vista que me impediam de fazer outros trabalhos”

Já antes desta altura da nossa conversa, a D. Sofia insistia em contar um pormenor da sua vinda para o Lar do Abrigo, que eu interrompia prometendo-lhe que mais adiante teria a oportunidade de referir esse facto. Assim, continuou:

“Mais tarde tive de ficar em casa para tratar do meu marido, que esteve acamado durante algum tempo. Também ele, nos últimos meses, já não podia trabalhar e, tendo piorado, ainda foi internado no Hospital em Évora mas estava já em situação desesperante. E em 1999, tinha o meu marido falecido há uns meses, fui admitida no “Centro de Dia” do Abrigo. Como se compreende, só durante o dia estava aqui nas instalações. Tive a sorte de, mesmo por baixo do portão do Abrigo, morar uma amiga minha, que era conhecida entre nós por Mariana da Gouveia, mãe da também minha grande amiga Gracinda. Moravam ambas no mesmo prédio: a filha (e a família) no 1º andar e a mãe do rés-do-chão. Foram ambas excepcionais e facultaram-me um quarto no rés-do-chão onde eu pernoitava até em cada manhã seguinte regressar ao Abrigo.”

E parece-me que agora, sim. É chegada a altura de contar o tal episódio que está desejosa de revelar:

“Esta situação manteve-se durante anos. Uma manhã, em Junho de 2010, estava eu ao portão, vinda da casa da Mariana, onde dormira como habitualmente, encontrei um senhor, que julgo ainda hoje ser um então dirigente, que, vendo-me a chorar, perguntou o que tinha acontecido. E eu respondi-lhe que ainda não tinha acontecido mas estava prestes a acontecer. É que, contei-lhe, a minha amiga Mariana ia ser internada em Lisboa para ser operada e disse-me que mesmo na sua ausência eu poderia continuar a dormir lá em casa. Grande coração. Mas eu não queria abusar e sobretudo tinha um certo receio de ficar sozinha É que a filha, que também concordava com a mãe, morava no primeiro andar e eu tinha medo que de noite me acontecesse alguma coisa e, se calhar, só tarde de mais dariam por isso. Então, esse tal senhor, de quem ainda hoje não sei o nome, prometeu-me que iria tentar resolver a situação.”

Então como ficou o caso?

“Cumpriu. E no dia seguinte já eu estava de malas aviadas para vir aqui para o “Lar”, como residente, onde me encontro até hoje. E digo, e afirmo a toda a gente, que gosto de aqui estar e sou bem tratada por todos e todas. Apesar de ter tido dois grandes desgostos, a morte por acidente de trabalho com tractor do meu filho mais velho e a do meu marido, quis o destino que eu fosse caminhando até ao centenário e, não havendo nada que substitua a nossa casa, sinto-me feliz aqui. Ainda no mês passado me fizeram uma festa comemorativa dos meus 100 anos e foi bonita de se ver. Estavam também presentes a minha filha Felicidade Maria, o meu filho mais novo, Manuel Filipe, assim como os meus netos e bisnetos. Obrigada a todos.”

Felicidades, Dona Sofia.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

OS NOSSOS UTENTES

MANUEL ELISIÁRIO PIRRALHO

Menino sem escola e sem brinquedos. Rapazinho que cedo foi obrigado ao trabalho duro de cada dia, Manuel Elisiário Pirralho nasceu no Monte do Casão, perto da estrada que liga Montemor a Évora.


“Irei completar 90 anos no próximo mês de Fevereiro e fui o mais novo de cinco irmãos, dos quais só eu ainda vivo. O meu pai era porqueiro no Pinheiro e no Picote, propriedades do sr. João Manuel Malta.”

E recorda:

“Escola, nem pensar nisso. Com seis anos, perto dos sete, comecei a guardar porcos e, para me estrear bem, comecei logo por levar pela medida grande.. E porquê? É simples: eu não conhecia o terreno por onde caminhava e, sem me aperceber, andava com o gado longe dos gamelões onde estavam o bagaço e a farinha que lhes havia de servir de alimento. O meu pai parece que me assobiava mas eu, que estava longe e com o vento contra, não o consegui ouvir. Quando ele, zangado, veio ter comigo, deu-me duas ou três varadas nas costas. Dizia ele que era para aprender. Não terá sido por causa disso, mas a verdade é que aprendi e tive essa ocupação até perto dos treze.

E foi mantendo sempre a mesma residência?

“Não. A família ia mudando porque o patrão explorava outras propriedades, que ia arrendando, e nós tínhamos de mudar também. Mas aos dezasseis anos já comecei a guardar gado bovino, o que fiz em vários locais. Por volta dos dezanove já exercia outros trabalhos agrícolas, também em diversas propriedades, mas sempre por conta do mesmo patrão.”

Entretanto os anos iam passando e era chegada a altura de dar outros rumos à sua vida…

“Poucos anos mais tarde, e ainda que me mantivesse na casa paterna, comecei a ter a minha independência e a possibilidade de procurar outros trabalhos sazonais que me permitiam ganhar mais qualquer coisa.”

E a sua juventude, para além do trabalho?

“Como qualquer rapaz da minha idade, ia a muitos bailes e funçanadas, onde conheci e dancei com muitas raparigas. Conversava e mangava com elas, mas não passava disso. Namorei pouco e só me apaixonei uma vez e foi logo por aquela que ainda hoje é a minha mulher – Maria Bárbara Caravela. Tenho duas filhas, já casadas, que residem junto a Montemor.”

E com que idade casou?

Primeiro juntámo-nos, tinha eu 31 anos e a noiva andava pelos 27/28, e só um ano depois legalizámos a união. Fomos então morar para o Monte da Parreira,  junto ao Ciborro. A propósito de moradias, devo afirmar que vivemos em dez locais diferentes. Vá contando: da Parreira fomos para o Monte do Cavaleiro (S.Geraldo) e, seguidamente, para a aldeia do Ciborro, Herdade do Meio, Casal Ventoso (Lavre), Mata Velha (na mesma zona), Lobeira de Cima, Monte da Amoreira (Lavre), onde estive 23 anos, Monte do Cota e Monte do Vale da Rã (Maia). Daqui entrámos para o Abrigo, em Setembro passado.”


Foi, portanto no Monte da Amoreira, perto de Lavre, onde se manteve durante mais tempo…

“É verdade. E sempre como vaqueiro ao serviço da Cooperativa “Boa Esperança”. E foi ali que ao fim desses anos me reformei. Já nesta situação de reformado estive, como já disse, nos montes do Cota e do Vale de Rã onde, por minha conta, ia fazendo umas hortitas e outros biscates que me iam aparecendo. Em Setembro fomos forçados a vir para o Abrigo, sobretudo porque a minha mulher está incapacitada e apenas se desloca com uma cadeira de rodas.”

Guarda, naturalmente, muitas recordações desses tempos de trabalho…

“Claro que sim. E até recordo, com alguma vaidade, o facto de ser admirado pelos colegas de trabalho pelo facto de, enquanto vaqueiro, e apesar de não saber ler nem escrever, conseguir identificar cada animal pelo nome. E chegavam a ser manadas com uma centena de cabeças. Isto sucedia porque eu vivia constantemente com os animais e, em muitas noites em que eu sabia que havia vacas prestes a parir, eu pernoitava junto delas até que o vitelo nascesse. Cria-se, assim, uma amizade aos animais que só quem viveu nas mesmas circunstâncias pode avaliar. Quando um moiral é consciente e gosta do que faz, conhece os animais como se fossem da família. Sabemos quais são as suas manhas e até sabemos fazer o diagnóstico das doenças só pela maneira como se comportam.”


De toda a nossa conversa fica a certeza de que, ainda hoje, fala dos animais com um entusiasmo e um carinho só possíveis para quem gostou muito do que fez na vida.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

OS NOSSOS UTENTES


MARIA INÊS SAMPAIO BARREIROS


A vida dá grandes voltas e, no seu movimento, acontece que muitas vezes até nos troca as voltas. É o caso da nossa entrevistada deste mês, que conheceu muitas dificuldades mas que sempre lutou para vencer as contrariedades que ia enfrentando.

“Nasci aqui na nossa então vila, no dia 25 de Setembro de 1931,numa família com quatro filhos (dois rapazes e duas raparigas), dos quais só eu e a minha irmã estamos vivas. Toda a nossa infância foi passada na Ruinha, onde a família morava.”

Vivendo perto de uma escola, certamente que foi mais fácil frequentá-la. Certo?

“Não. Nessa altura as aulas não eram mistas pelo que, vivendo perto de uma das escolas, fui para a Conde de Ferreira, frequentada apenas por raparigas. No entanto, da escola só me lembro de ir para lá com uma mala de pano, mas apenas por poucos dias, o que não deu para aprender a ler ou a escrever. Fiz apenas uns gatafunhos.”

Mas por que razão não andou mais tempo?

“Os tempos eram bastante difíceis. O meu pai, José Maria Afonso Barreiros, era na altura empregado do sr. Manuel do Alberto, que tinha umas carroças com que fazia o transporte de vários tipos de carga e, portanto, ganhando pouco, havia mais a preocupação de se arranjar sustento para a família do que dar instrução aos filhos. O meu pai, que em jovem tinha aprendido música, era também filarmónico na Carlista. Mais tarde foi para contínuo do tribunal, ainda este estava instalado no que é hoje a biblioteca municipal.”

Então, ainda novinha e sem escolaridade, como se ia desenvolvendo a sua vida?

“Por volta dos 9/10 anos, com umas sapatilhas de trapo, que usava quer fosse verão, quer fosse inverno, trabalhava fazendo recados a quem calhava e até lavava o chão da casa de uma vizinha. Ganhava muito pouco, mesmo atendendo a esses tempos. E assim ia sendo a minha vida, fazendo os trabalhos que me apareciam. Até que, já perto dos 20 anos, comecei a ter outros serviços mais permanentes. Estive em casa do sr. Gaspar Ferreira e do dr. Vacas de Carvalho com uma certa regularidade, ainda que fosse aceitando outros trabalhos ocasionais que me iam aparecendo.”

Propomos agora um salto no tempo para trazer novas recordações

“Teria perto de trinta anos, e depois de um namoro atribulado porque os meus pais não eram favoráveis, juntei-me com o meu namorado, de nome Manços Calhau, que era ardina e contínuo do União, quando a sua sede era ali na rua Capitão Pires da Cruz. Foi ele o pai das minhas duas filhas, uma das quais faleceu ainda não há muito tempo. O Manços morreu ainda as minhas filhas eram pequenitas e, dada a minha situação ser bastante difícil, fui forçada a interná-las no Asilo de Infância, gerido por freiras e situado no Convento da Saudação, no Castelo. Por lá estiveram alguns anos. Entretanto, há perto de 50 anos, juntei-me com João Francisco Salgueiro, com quem mais tarde me casei oficialmente. Foi ele que tomou a iniciativa de retirar as minhas filhas do Asilo. Do João não tive filhos, mas tratou sempre as minhas filhas como se dele fossem.”


Então, a partir daí, a sua vida melhorou…

“Passei por grandes desgostos e sofri muito com uma vida de sacrifícios, de contrariedades e de trabalho penoso, porque o pai das minhas filhas ganhava muito pouco. Só anos depois, quando primeiro me juntei e depois casei com o meu actual marido é que a minha vida melhorou. O João foi operário da construção civil e empregado da Gelmar. Quando esta empresa encerrou, ele emigrou para a Alemanha e, passados alguns meses, também eu fui ter com ele. Passámos lá poucos anos, sempre com o medo atrás da porta, porque então ainda não estávamos casados e eu não tinha contrato de trabalho nem autorização de residência.”

Mas ainda deu para amealhar algum dinheirito?

Sim, apesar de não ser muito. De qualquer forma, ainda nos permitiu adquirir    a nossa casita na rua Teófilo Braga, ou seja, na rua Direita. Foi comprada à Família Cunhal e depois o meu marido, que já havia sido pedreiro, fez lá dentro uns melhoramentos que a tornaram na nossa habitação. Neste momento, o meu marido ainda lá vive, sozinho, desde que no dia 10 de Maio deste ano entrei para o Abrigo.”

E o que a levou a optar por vir para o Abrigo?

“Como vê, desde há muito tempo que sofro imenso de artroses, que me atormentam cada vez mais as mãos e as pernas. Esta situação incapacita-me para realizar as tarefas mais essenciais. Andei de médico para médico mas nada resultava. Sem conseguir efectuar as tarefas mais indispensáveis, fui forçada a pedir ajuda ao Abrigo. Quando entrei ainda me movia com duas canadianas mas, passado pouco tempo, talvez cedo demais, puseram-me numa cadeira de rodas e até assim tenho de ser ajudada para me deslocar. Vou frequentemente ao ginásio, mas continuo a ser dependente porque nem sequer tenho força nas mãos para mover a cadeira.”

E o seu marido?

“Está lá na nossa casa, até que haja vaga para se juntar a mim, porque também não está bem. No entanto, enquanto a tal vaga não surge, o Abrigo proporciona-lhe o “Apoio Domiciliário”.

Resta-nos endereçar a todos os(as) Utentes das três áreas sociais, aos Funcionários (as), aos Membros dos Corpos Sociais, ao Corpo Médico e de Enfermagem, aos Colaboradores (as) e aos nossos Leitores(as) os mais sentidos votos de um FELIZ NATAL e de um ANO de 2018 sobretudo com Saúde!

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

OS NOSSOS UTENTES


ANTÓNIO JOAQUIM GERVÁSIO



         Dono de uma forte convicção nos seus ideais de justiça social, e sempre com a liberdade como meta a atingir, António Joaquim Gervásio cedo compreendeu que, sem luta, tais desígnios nunca seriam alcançados. E sofreu na carne manter-se coerente com os seus princípios.

         Mas vamos ouvir o que tem para nos dizer:

         “Nasci no Monte da Regadia, então pertencente à freguesia de S. Mateus, e depois Na. Sra. da Vila, no dia 25 de Fevereiro do já distante ano de 1927. Fui o mais velho de oito irmãos (5 rapazes e 3 raparigas). Não era nada fácil a vida nesse tempo mas o meu pai, que era um excelente operário agrícola, ia ganhando a vida e, com muito sacrifício, sempre conseguiu que à mesa nunca faltasse o alimento para a família. Para além das horas em que trabalhava como assalariado ia, simultaneamente, arrendando pedaços de terra para cultivar produtos hortícolas, cuja produção servia os interesses familiares e o que sobrava, sobretudo a fruta, era vendido.”

         Mas, sendo o mais velho dos irmãos, foi também o que começou a trabalhar mais cedo…

         “Com sete anos iniciei-me a guardar uma vara de sete ou oito porcos e ia para o trabalho descalço. Poucos anos depois passei a ser ajuda, na guarda de outros animais: ovelhas, cabras e ainda porcos. Aos 13 anos o proprietário para quem eu trabalhava, que vigiava a cavalo os empregados, gostava de bater nos seus assalariados por dá cá aquela palha. Possuía meia dúzia de cavalos e um dia, um deles, ao espojar-se no chão pedregoso, ter-se-á ferido. O patrão veio ter comigo acusando-me de lhe ter feito aquilo com uma pedrada. Claro que eu nunca faria uma coisa dessas, até porque gostava dos animais. Ameaçou-me que me daria uma tareia, mas eu, que estava inocente, agarrei numas pedras e disse-lhe que se ousasse bater-me é que, então sim, lhe mandaria uma pedrada.”

         E o assunto ficou por aí, sem mais conversa?

         “Não. O lavrador, que como eu já disse, gostava de “molhar a sopa”, hesitou e respondeu-me ameaçadoramente: deixa estar, meu filho da p…, que hás-de pagá-las. Fiquei com medo e fui para casa dos meus pais, a quem contei o sucedido, dizendo-lhes que para ali já não regressava.”

         E, então, como é que o assunto se resolveu?

         “O meu pai, ainda que analfabeto, era muito sensato e possuidor de uma grande sabedoria. Então, disse-me ele, visto que não queres regressar para aquele patrão, a solução passa por ires comigo trabalhar na carvoaria. E assim foi. Fiquei como “coqueiro” (*), que consistia em fazer o lume e ir vigiando as panelas de barro que cada trabalhador levava de casa, juntando-lhe água se via que era necessária e chegando-as mais ao lume ou afastando-as, conforme os casos. Durante esta fase ganhava apenas metade da jorna dos homens.”

         E esse sistema continuou ainda por muito mais tempo?

         “Poucos anos mais tarde passei à categoria de adulto, no que ao trabalho dizia respeito, ganhando estão a jorna normal. Fazia todos os trabalhos agrícolas e sentia-me um homem completo, ainda que jovem. Foi uma fase muito importante da minha vida.”

         Mas, apesar de tudo, não se sentia completamente realizado…

         “Desde muito novo que comecei a interessar-me pelos problemas sociais e a tomar conhecimento, directa ou indirectamente, das injustiças que se cometiam e cujas vítimas eram essencialmente os trabalhadores. Tendo aprendido a ler com os meus companheiros de trabalho, através da Cartilha João de Deus, e tendo aprofundado mais tarde os meus conhecimentos, fiquei ainda mais desperto para as realidades da vida. As notícias que, por vias não oficiais, se iam sabendo sobre o que se passava na Guerra Civil de Espanha e na 2ª Guerra Mundial, reforçaram a minha consciência política. Por cá, o desumano horário de sol a sol imposto no trabalho rural pelos agrários, as jornas de miséria e os longos períodos de desemprego ainda mais fizeram crescer em mim a vontade de lutar contra as injustiças que então eram comuns. E foi assim que, em 1945, aderi ao Partido Comunista Português. Tinha 18 anos.”

         E a partir daí muita coisa aconteceu…

         “Em 1952 entrei na clandestinidade. Nesta condição me mantive durante 22 anos, isto é, até à libertadora manhã do 25 de Abril de 1974. Entretanto, durante aqueles anos estive por três ou quatro vezes fora do país e, numa delas, visitei os fornos crematórios mandados construir por Hitler. Deu para fazer uma pálida imagem dos horrores ali infligidos.”

         Entretanto, por cá as coisas também nem sempre lhe correrem bem …

         “É verdade. Passei por muitos períodos difíceis, mas gratificantes, porque me davam a certeza de que a razão haveria de triunfar. Estive preso por três vezes. Em 1947, na sequência de uma greve de ceifeiros, durante seis meses; em 1960, por ser funcionário do PCP, fui condenado a 5 anos e meio, com medidas de segurança. Isto significava que terminado o tempo da pena, a Pide apreciava o comportamento do preso e se este não tivesse alterado a sua convicção política, prolongava o prazo por períodos sucessivos de mais 3 anos, o que equivalia a dizer que nunca se sabia quando iria acabar a prisão. Aconteceu, porém, que desta vez não cumpri a pena até ao fim, simplesmente porque eu e mais sete companheiros conseguimos fugir, durante um recreio, da prisão de Caxias. Curiosamente, a fuga foi concretizada em pleno dia, aproveitando a distracção dos guardas. De uma garagem retirámos um carro que lá estava guardado, da marca Chrysler, à prova de bala, que havia pertencido a Oliveira Salazar por oferta de Hitler; depois, em 1971, voltei a ser preso, agora em Peniche, mas em Abril de 1974 regressei de vez à liberdade por que tanto lutara e sofrera. Na prisão sofri muitas torturas, chegando até a perder os sentidos.

         Como é que os presos receberam a notícia da revolução?

         “A certa altura da noite de 24 para 25, o director chamou-nos para nos informar que estava em curso uma revolução. As primeiras reacções foram de surpresa, ainda que tivéssemos a convicção de que mais tarde ou mais cedo ela se iria realizar. No entanto, ficámos de alguma forma na expectativa, sem sabermos se o golpe era de direita, o que ainda iria agravar mais a situação, ou se seria de esquerda, o que nos devolveria todas as esperanças. Ficámos portanto a aguardar o curso dos acontecimentos, até que na manhã do dia 25 de Abril tivemos a certeza de que iriamos ser libertados. Foi indescritível o que se seguiu. Uns choravam de alegria, outros cantavam, outros davam vivas à liberdade, enfim, cada um reagindo à sua maneira.”

         E depois?

         “Bem, depois, cada um seguiu o seu caminho, sabendo que podíamos, finalmente, expor as nossas ideias e defender os nossos direitos.”

         Nunca registou as suas memórias de tantos anos de luta antifascista?

         “Publiquei três livros: “Lutas de Massas em Abril e Maio de 1962, no Sul do País”, “Histórias da Clandestinidade” e “A Reforma Agrária é necessária”.

         Para além destes três livros, António Gervásio, que durante a clandestinidade adoptou o pseudónimo de “Lemos”, escreveu também um extenso artigo sob o título de “A Luta do Proletariado Agrícola – De Sol a Sol até à Reforma Agrária”  incluído no livro de António Murteira “Uma Revolução na Revolução – Reforma Agrária no Sul de Portugal”, editado em 2004.

         Resta-nos agradecer ao Sr. António Gervásio o tempo que nos dispensou e desejar-lhe um futuro com saúde na companhia da sua Esposa.



(*) –Palavra livremente adaptada de coque, que significa cozinheiro.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

OS NOSSOS UTENTES


MARIA JOAQUINA POMBO DE MOURA


“Garanto-lhe que se a memória ainda o permitisse, a minha história daria um romance, tais foram as atribulações que sofri ao longo da vida.”

Com esta advertência iniciámos a conversa com a D. Maria Joaquina que, curiosamente, reconheci logo que nos sentámos, porquanto fomos vizinhos durante os tempos da minha meninice, quando ambas as famílias moravam na Rua dos Almocreves. Foi um reencontro depois de um interregno de muitos anos.

Mas vamos então conhecer um pouco da sua história:

“Nasci na rua de S. Domingos e já estaria na casa dos trinta anos quando nos mudámos para a rua dos Almocreves. Éramos quatro irmãos (4 raparigas e 1 rapaz) dos quais sou a única sobrevivente.”

Há um pormenor muito importante que tem sido praticamente comum em todos os entrevistados. Se nasceram, e viveram no campo os primeiros anos de vida, é certo e sabido que são poucos os que andaram à escola e quase todos desde cedo se iniciaram nos trabalhos agro-pecuários. Se o nascimento ocorreu no espaço urbano, é vulgar vir a saber-se que foi fugaz a sua passagem pelas salas de aulas devido, sobretudo, ao início bem cedo de uma actividade que não fugia muito da costura ou de serviçal doméstica.

“Andei na Escola “Conde de Ferreira” onde conclui a 2ª classe da instrução primária com a classificação de 14 valores. Contudo, nunca cheguei a frequentar a 3ª classe, porque a família era numerosa, o meu pai passava longos períodos hospitalizado, a minha mãe e irmãs eram costureiras e eu tive de assumir a responsabilidade de governar a casa. Quando a minha irmã Amélia casou, comecei também a trabalhar como costureira. Primeiro em obras “faiancas”, isto é, como então se dizia, para “a prateleira”. Eram aquelas peças de vestuário que não se destinavam a um determinado cliente mas seria o início daquilo que hoje é conhecido como “pronto-a-vestir.”

E exercia a sua actividade em casa?

“De uma maneira geral sim, mas também andei a costurar em casa da sua tia Custódia (conhecida familiarmente por Carriça) que, mesmo não tendo uma vida que se pudesse dizer fácil, andava sempre bem disposta. Mas trabalhei igualmente nas alfaiatarias J. Marques, Tello de Morais e Barradas, este ali na rua das Escadinhas.”

Mas em determinada altura houve alteração na sua vida…

“Tinha 36 anos quando conheci e me casei com José Batista de Moura, já divorciado, que vivia em Almada. E foi nesta cidade que a partir daí sempre morei. Porém, tive a infelicidade de enviuvar poucos anos depois, já lá vão quase quarenta. Mas continuei a viver na mesma casa, tendo como rendimento as pequenas reformas. Sempre ia encontrando outros afazeres que me ocupavam e ajudavam na economia doméstica.

         
E enquanto teve forças e saúde foi sempre labutando…
         
“É verdade. Como já lhe disse, a minha vida dava um romance. Trabalhei muito e tive grandes desgostos mas, com mais ou menos dificuldade, lá ia vencendo as contrariedades. Vi falecerem todos os meus familiares, o último dos quais foi o meu sobrinho António Justino Pombo Malta, que era professor de história. Dedicou a última parte da sua vida a reivindicar a justa homenagem a Aristides Sousa Mendes, cuja obra considerava não ser suficientemente conhecida em Portugal. Escreveu até um livro sobre este diplomata humanista. (*) Ainda não consegui refazer-me desta última perda.”
         
E como é que, passado tanto tempo, conseguiu ingressar no Abrigo?
         
“Eu nunca perdi o contacto com esta Instituição, quer pessoalmente quer por interpostas pessoas. Já tinha pedido mais de uma vez, mas não é fácil conseguir vaga. Mas a minha situação estava a degradar-se e depois de uma equipa do Abrigo se ter deslocado a Almada para confirmar a precaridade da minha situação, logo que surgiu a vaga fui contactada e aqui estou, desde o princípio deste mês de Outubro, depois de ter completado 93 anos no dia 28 de Junho.”
         
Passado tanto tempo voltámos a encontrar-nos, D. Maria Joaquina. E tive muito prazer neste reencontro. Que goze este descanso com a saúde possível.


Nota: (*) – Aristides Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordéus no ano da invasão da França pela Alemanha nazi, durante a 2ª Grande Guerra, desafiou e contrariou as ordens de Salazar e concedeu milhares de vistos de entrada em Portugal a refugiados, particularmente de origem judia. Foi por isso castigado e viu até o seu salário reduzido. Tudo por salvar a vida a milhares de pessoas.