quinta-feira, 19 de julho de 2018

OS NOSSOS UTENTES


JOSÉ MANUEL MATEUS

Nascido na aldeia e freguesia de Ciborro, região onde também foi criado e sempre viveu, o nosso amigo e conhecido de há muitos anos, tem 91 primaveras e é viúvo de Antónia Maria Mateus, falecida há nove anos. Prestou-se este mês a contar-nos, por alto, momentos da sua vida.


“Sou o mais novo de seis irmãos (3 rapazes e 3 raparigas) dos quais só eu e o meu irmão Manuel, hoje com 94 anos, somos vivos. O meu pai era agricultor e só na herdade do Godial esteve mais de trinta anos como rendeiro.”
         
A sua infância foi a normal para a época, ainda que tivesse tido a possibilidade de ir à escola:
         
“Só os três filhos mais novos foram à escola: eu, o meu irmão Manuel e a minha irmã Custódia. Mas enquanto eles acabaram a 4ª classe, eu fiquei-me pela segunda. A minha professora chamava-se Margarida e era natural de Montoito e quando se foi embora, eu simplesmente desisti. Mas escrevo e leio o suficiente para me ter desenrascado ao longo da vida.”
         
Mas tendo dado por terminado o estudo, outra vida o esperava…
         
“Está mesmo a ver-se que sim. Ao terminar a minha carreira escolar, outro remédio não tive se não o de ir trabalhar para o campo juntamente com o meu pai. E assim continuei até perto dos quarenta anos.
        
Mas, entretanto, teve os anos da juventude, em que muitas coisas acontecem…
         
“É sempre uma fase da vida que nos marca de uma maneira ou de outra. E por essa altura os bailes eram o que eu mais gostava. Isso é que eu adorava dançar… Pelo Carnaval também me divertia muito. Recordo-me que por esta quadra se realizavam as cavalhadas, diversão/competição em que os concorrentes, montando em cavalo, égua ou burro, tentavam obter um prémio desde que conseguissem enfiar um pequeno pau numa argola que, ao meio da estrada, estava suspensa num fio. Tinha dezasseis ou dezassete anos e, com uma égua que eu conhecia bem do Godial, fui o campeão nesse ano.”

E em questão de namoros?
        
“Nunca fui muito namoradeiro e, com dezoito anos, comecei a namorar a minha Antónia e por ela me fiquei. Depois, pelos nossos 21 anos, juntámo-nos e fomos morar para o Godial, para a casa da mantearia. E a minha mulher assumiu as funções de manteeira, encarregada das refeições do pessoal.”
         
E por aí foi ficando …
         
“Sim, mas com o passar dos anos o meu pai foi ficando velhote e deixou de ser rendeiro. Fomos então morar para a aldeia do Ciborro, onde acabei por casar legalmente vinte anos depois de vivermos juntos. Já no Ciborro ainda trabalhei no campo, inclusivamente por minha conta como seareiro. Mas as coisas não correram bem e comecei a fazer outros serviços.”
         
E assim continuou?
        
“Não, porque entretanto o meu irmão Manuel fundou a Carpintaria Mecânica de Valenças e eu comecei a trabalhar lá, especialmente como tractorista mas fazendo também o que calhava. E foi aqui que trabalhei até aos sessenta e tal anos, altura em que tive um grave problema no coração, fui operado no Santa Maria e reformei-me, continuando a morar no Ciborro.”
         
Até que …
         
“Até que, com a morte da minha mulher e o avançar da idade, as condições começaram a degradar-se e, para não estar a incomodar as minhas filhas, candidatei-me a uma vaga como residente aqui no Abrigo e essa oportunidade surgiu já este mês.
         
E como vai preenchendo os seus dias ?
         
“Sempre gostei de ler, sobretudo jornais, nas minhas horas vagas, mas hoje a minha vista também já não o permite. Pelo mesmo motivo vejo pouca televisão. Limito-me a ir ao ginásio e a conversar com esta rapaziada da minha idade. Como estou cá há pouco tempo ainda não tive a oportunidade de assistir às actuações do grupo de teatro e do coral, assim como às festas que eu já sei que aqui se realizam de vez em quando.”
         
Amigo Mateus: desejamos que se sinta bem nesta Instituição e que se vá mantendo com saúde até ao centenário.
        
           

terça-feira, 19 de junho de 2018

OS NOSSOS UTENTES

PRINCEPELINDA ROSA FERREIRA


Por coincidência, o mês passado entrevistámos o sr. Calino Francisco, que então nos revelou as circunstâncias em que ficou com o nome que por engano do registo lhe foi atribuído quando, na realidade, deveria chamar-se Aquilino. Pois este mês falámos com a sua esposa – Princepelinda – que, também não conhece mais ninguém com esse nome e que, não sabendo por que motivo foi baptizada assim, também nunca chegará a saber, porque o padrinho faleceu ainda ela era uma criança.

Revelado este pormenor curioso, vamos saber mais pormenores da vida da D. Princepelinda:

“Nasci na Amoreira da Torre, aqui perto de Montemor, em 18 de Abril de 1937. Éramos oito irmãos, dos quais ainda, felizmente, estão vivos cinco. Só um deles era mais velho do que eu.”

Nesta altura da conversa surge normalmente a questão da escola…

“Felizmente que, quando eu tinha sete anos, fomos residir para a herdade da Maceira, do Dr. Cunhal, ali perto dos Foros de Vale Figueira. Acontece que existia lá um Posto Escolar pelo que, todos nós, aprendemos a ler e a escrever. Os mais velhos concluímos a terceira classe da instrução primária, que era o grau exigido. Só o mais novo de todos nós fez o exame da 4ª classe, mínimo na sua altura obrigatório.”

Claro que, com a saída da escola …
         
“Acabada a escola fui, como era normal, trabalhar no campo, que era também a actividade do meu pai e do meu irmão mais velho. Comecei por ir apanhar milho e, daí para diante, nunca mais parei, tendo feito os trabalhos mais diversos.”
       
E chegou a altura dos bailaricos e de todas essas festanças que são próprias da mocidade.
         
“Pois, mas comigo não foi bem assim. O meu pai nunca me deixou ir a bailes ou festas do género. Mas com 19 anos comecei a namorar. O Calino tinha vindo da zona das serras de Cabrela morar para o Freixo do Meio, também junto aos Foros de Vale Figueira. Foi então que nos conhecemos e o namoro aconteceu. Mas ainda que o meu pai não se opusesse ao namoro, continuava a não me deixar ir aos bailes. Só os meus irmãos podiam ir.”
        
E, pelos vistos, encontrou logo o amor da sua vida.
        
“Namorámos dois anos e, ao fim desse tempo, juntámos os trapinhos, como se costuma dizer. Fomos morar para os Foros de Vale Figueira e ainda não tinha feito um ano de estarmos juntos resolvemos então casar oficialmente. Aqui nasceu-nos um filho que, infelizmente, faleceu quando tinha apenas sete meses. Nos anos seguintes continuei a trabalhar no campo. Entretanto o meu marido, que fora sempre trabalhador rural, quando se transferiu para os Foros começou a aprender a profissão de pedreiro, pelo que ele mesmo construiu a casita onde morávamos.”
         
Mas, pelo que sei, a vossa vida ainda deu mais uma volta…
        
“Pouco depois do 25 de Abril, o meu marido tentou a sua sorte emigrando para a Suiça. Primeiro foi sozinho e quando lá arranjou uma casa fui eu juntar-me a ele. Estivemos neste país durante 9 anos. O Calino como pedreiro e eu arranjei lugar num hotel onde arrumava e fazia a limpeza de quartos. Quando regressámos, para a nossa casa nos Foros, eu já não fui trabalhar, nem para o campo nem para qualquer outro sítio. O meu marido, sim, continuou a exercer a profissão de pedreiro.”
         
E os anos foram passando …
        
“É a lei da vida. O meu marido começou a não poder trabalhar por causa de dores reumáticas e tivemos de vender a nossa casa nos Foros de Vale Figueira e de arrendar outra aqui em Montemor, para estarmos mais próximos do Abrigo, de onde começámos a receber o apoio domiciliário, em Junho de 2015. Até que em Maio deste ano de 2018 ingressámos no “Centro de Dia”. E por aqui vamos estando. Entretenho-me a jogar ao loto, a ir ao ginásio e, especialmente em casa, leio alguns jornais, revistas e folhetos que me chegam às mãos.”
         
Obrigado, D. Princepelinda, pelo tempo que nos dispensou. Votos de boa saúde para o casal.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

SÓ VELAS FORAM CINQUENTA E UMA

            É verdade. Substituindo e tendo herdado a vocação do Asilo de Mendicidade, fundado em Janeiro de 1914, o actual Abrigo dos Velhos Trabalhadores de Montemor-o-Novo assinalou o seu 51º aniversário no dia de Santo António.

            E houve festa rija, parecendo até que os nossos idosos rejuvenescem nestes dias.

            Como aperitivo foi servida aos utentes e convidados a Marcha do Abrigo, que já dias antes se tinha exibido na Praça da República no desfile organizado pela União de Freguesias. Receberam, naturalmente muitos aplausos.



            Depois houve a cerimónia oficial, com a presença de representantes oficiais da Câmara Municipal (que por imperativos de agenda só mais tarde compareceu e disse de sua justiça), da União de Freguesias, da Guarda Nacional Republicana, da Cooperativa Caminhos do Futuro, da Associação “O Girassol”, da Associação “Porta Mágica”e, naturalmente da Direcção do Abrigo, cujo presidente abriu a sessão.


            Seguiu-se a actuação do Grupo Coral Cant’Abrigo que sob a batuta do maestro André Banha interpretou vários temas de música popular.


Ainda se ouviam as ovações quando foi anunciada uma surpresa musical. Perante a expectativa geral e, aos pares, foram subindo ao tablado grande número dos Funcionários e Funcionárias do Abrigo que, não querendo privar todos os presentes do seu reconhecido talento, interpretaram em conjunto uma conhecida e mais ou menos temperada Açorda. Foi o delírio. E todos os presentes, sem excepção, reconheceram que há por ali muitos talentos perdidos…


Falta falar ainda de uma outra atracção: o excelente lanche, servido por mãos competentes e atentas que, sucessivamente, nos foram servindo apetitosas sardinhas, frangos, febras e entrecosto, com a qualidade bem demonstrada por três mestres nos assadores: António Joaquim Falcão, João Alpiarça e Manuel Aldinhas dos Santos. Claro que obedecendo às exigências específicas de cada caso, havia fresca e bem temperada sangria, sumos, águas e vinho (pouco). E finalmente, o doce e o bolo de aniversário, como é da praxe.


Uma última palavra para o organista Telmo Falcão, que animou toda a tarde e serviu a música adequada para o baile que se foi prolongando.


Estão de parabéns todos os que, de alguma maneira, contribuíram para o êxito da festa.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

OS NOSSOS UTENTES


CALINO FRANCISCO



A nossa conversa começou, quase obrigatoriamente, com o pedido de satisfação de uma curiosidade, visto que, já conhecendo o nosso entrevistado há alguns anos, sempre suspeitámos de que por trás do seu estranho nome haveria uma história para contar. E não nos enganámos. Colocado perante a questão, o nosso entrevistado prestou-se a esclarecer-nos:

“O meu nome nasceu de um erro. Eu nasci no monte dos Cufenos de Cima, pertencente à então freguesia de Safira. Naquele tempo, se se nascesse em freguesias rurais, quem procedia aos registos provisórios era o cabo-chefe da zona. Esta figura, que fazia o papel de presidente de Junta, era muitas vezes pouco mais do que analfabeto. Nessa altura, em Safira, era o sr  Sertório Lagartixa quem desempenhava essas funções. Então, no seu próprio estabelecimento, que servia de sede da Junta, tomava conta das ocorrências e fazia um relatório provisório que depois ia levar à Conservatória do Registo Civil, em Montemor, a fim de oficializar o registo e o tornar definitivo."

E foi isso que aconteceu consigo?

Logo após o meu nascimento, a minha mãe e outros familiares (uma vez que o meu pai faleceu ainda eu me encontrava no ventre materno) dirigiram-se ao representante da Junta, comunicaram o nascimento e informaram que queriam que o meu nome fosse AQUILINO. Mas o cabo-chefe percebeu mal ou errou por desconhecimento e incorrectamente escreveu Calino. Mais: a Conservadora nem sequer estranhou ter sido dado um nome insólito a uma criança e não colocou qualquer objecção ou tentou esclarecer eventual dúvida. Quando anos mais tarde tive de tirar o bilhete de identidade é que esta mesma Senhora  me disse que havia sido cometido um erro porque aquele nome não me podia ter sido atribuído. E eu respondi-lhe que tinha sido ela própria a principal culpada, porque quando o sr. Sertório lhe apresentou o registo provisório deveria ter dito de imediato que aquele nome não podia ser dado, esclarecido o assunto e procedido à necessária correcção. E mesmo nessa altura, quando a Senhora reconheceu o erro, certamente que haveria modo de emendar o nome. Mas nada fez”

E ao longo da vida deve ter sentido alguns constrangimentos e embaraços por causa de um nome tão estranho…

“Claro que sim. Tive vários episódios desagradáveis e alguns aborrecimentos por causa do nome. Quando fui para a tropa, o então major Pimenta, aqui de Montemor, quis alterar-me o nome porque o considerava um absurdo. Mas disse-me que o custo dessa alteração custava doze escudos e cinquenta centavos e só produzia efeitos ao nível da tropa, porque para andar com o processo a nível civil ia custar-me muito mais. E eu desisti do intento e respondi-lhe que ganhando eu apenas vinte e cinco tostões por mês, o valor da primeira alteração dava-me para ir algumas vezes a casa ver a minha mãe e pedir-lhe que me tratasse da roupa."

Esclarecido este “mistério”, vamos saber mais pormenores de uma vida que completou 84 anos em Março passado:

“Como já disse, nasci no monte dos Cufenos de Cima. Fui o mais novo de quatro irmãos (3 rapazes e 1 rapariga) dos quais só eu ainda estou vivo. Como também já disse, nunca cheguei a conhecer o meu pai, que faleceu antes do meu nascimento. Sem a ajuda paterna tivemos dificuldades, como é de calcular. E ainda bem novinho comecei a guardar gado. Por volta dos 13/14 anos deixei o gado e comecei a labutar no campo, o que fiz sempre até ir para a tropa. Estive a fazer a recruta aqui no 16, em Évora e depois passei para a Manutenção Militar, na mesma cidade vizinha. Foram os únicos meses de férias que tive na vida, comendo bem e trabalhando pouco.”
            Mas nunca chegou a andar à escola?

“Foi exactamente na tropa que aprendi a ler e a escrever, porque em contas eu já era um ás, porque um pastor com quem eu trabalhei ensinou-me e bem. Depois dei a matéria da 3ª classe e fiz no fim uma pequena prova, mas nunca me deram qualquer diploma.”

Acabada a tropa, novo rumo…

“Voltei, naturalmente, aos trabalhos agrícolas. Eu fui criado na zona das serras de Cabrela. Ali aprendi todas as tarefas. Só nunca tinha tosquiado ovelhas nem tirado cortiça, mas depois da tropa tornei-me um verdadeiro profissional na arte de extracção deste valioso produto.”

E então? …

“Mas com vinte e um anos mudei-me para o Freixo do Meio, junto aos Foros de Vale Figueira e por ali me mantive. Ficou para trás toda a minha vida nas serras de Cabrela, deixando lá inclusivamente um namoro, e comecei aqui um novo ciclo. Agora ouça esta: quando me mudei lançaram-me como que uma maldição (aquelas coisas que se diziam por dizer) que significava que no novo lugar só iria casar com uma viúva. Mas eu não quis saber dessa parvoíce e sempre disse que haveria de namorar e casar com uma rapariga que fosse de primeira apanha. Ainda tive vários romances mas acabei por namorar e casar, há sessenta e tal anos, com a minha actual e única mulher - Princepelinda Rosa Ferreira, cujo nome próprio também será uma raridade.”

E foi lá mesmo pelos Foros que se foi mantendo.

“Sim, claro. Estivemos ainda durante algum tempo na Suiça e, regressados, lá comprámos uma parcela de terreno onde construímos a nossa casa. Entretanto, os anos foram passando e, sem filhos, sem possibilidade de continuar a trabalhar, com menos saúde e já em idade avançada, resolvemos vender a casa nos Foros e arrendar uma outra aqui em Montemor. As contingências da vida levaram-nos a solicitar o “Apoio Domiciliário” do Abrigo dos Velhos Trabalhadores e, já este mês, começámos a usufruir, também nesta Instituição, do “Centro de Dia”. E por cá vamos estando, até que Deus queira.”

Obrigado, amigo, pela sua disponibilidade.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Os nossos utentes

CUSTÓDIA MARIA (Flamina)

        

         Sendo uma das mais novas “aquisições” do Abrigo, onde entrou em 29 de Março último, a nossa entrevistada nasceu no dia 29 de Janeiro de 1933, contando portanto a bonita idade de 85 anos.    

“Nasci em Montemor e aqui, ou nos seus arredores, sempre vivi. Sou viúva há cerca de onze anos de Jerónimo José Albino e tenho dois filhos – Filipe Albino e Francisco Albino.”

Mas vamos começar pelo princípio.

“Éramos doze irmãos e eu era uma das do meio. Com tanta gente, a vida não era fácil e, a exemplo dos meus irmãos mais velhos, cedo comecei a contribuir com o que estava ao meu alcance para o sustento da família. Com 4 anos já ia para a “bicha” do pão, cuja venda era regulada por senhas. Como éramos muitos, outros dos meus irmãos também para lá iam porque só um pão não chegava para toda a família. E assim tentávamos nós, todas as semanas, arranjar o que era o nosso principal alimento.”

Mas não podiam viver só com o pão …

“O meu pai, nos seus tempos livres, que eram poucos, fazia umas hortazitas de onde tirava umas hortaliças que ajudavam a alimentar o pessoal. E à medida que íamos crescendo, já o trabalho esperava por nós. Com pouca idade começávamos logo a labutar. Apanhar azeitona foi a minha estreia e nunca mais parei. Fiz praticamente tudo o que era trabalho no campo.”

Os anos foram correndo e …

“Apesar de ser muito cortejada, logo aos 14 anos comecei a namorar aquele que haveria de ser o meu marido. Tive muitos pretendentes, mas havia alguns “fadistões” que quando se apercebiam, ou que eu já entregara o meu coração, ou quando vinham a saber que nós éramos muito pobres, depressa desistiam. E quando tinha 24 anos casámos.”

Casamento, vida nova…

“Fomos morar para casa dos meus sogros e por lá estivemos mesmo depois de ter nascido o nosso primeiro filho. Entretanto, passado algum tempo o meu sogro mandou arranjar uma casa desabitada que havia perto deles e, então, mudámo-nos. Foi já aqui que nasceu o nosso segundo filho, tendo, inclusivamente, sido a minha sogra que me acudiu e serviu de parteira.”

Mas não ficaram por ali.

“Em determinada altura fomos morar para o Monte do “Esbarrondadouro”, ali perto de Évora, propriedade do lavrador Manuel Dias Descalço, onde o meu marido era moiral das parelhas. E dessa vez não estivemos lá muito tempo porque em dado momento houve uma greve e o patrão despediu todos os grevistas, onde se incluía o meu marido.”


E ficaram desamparados…

“Não, porque aconteceu uma coisa curiosa. O castigo aplicou-se apenas naquela herdade, tendo o patrão passado todos os trabalhadores nessa situação para uma outra propriedade no Monte dos Álamos, que distava bastante do anterior local de trabalho. Mas eu fiquei a morar na mesma residência, sendo que o meu marido só ia a casa semanalmente.”

E assim continuou?

“Passado algum tempo o patrão mandou-o chamar e disse-lhe que o castigo tinha terminado, pelo que iria voltar para o “Esbarrondadouro”. E foi aqui que teve o acidente com a parelha que lhe fracturou uma perna, inutilizando-o para o serviço. E, como resultado, foi despedido sem receber qualquer indemnização porque o patrão não tinha ninguém no seguro.”

Foi um golpe muito duro…

“Se foi. Especialmente para ele. Dali fomos para o Monte da Alcava de Cima, perto de Santa Sofia. Impedido de fazer o seu habitual trabalho, começou a vender peixe pelos montes. Um dia, teria ele cerca de setenta anos, teve inesperadamente um AVC. Estava sentado num pequeno muro, deu-lhe o ataque e caiu para o lado, já morto. Este, sim, foi o golpe mais duro na minha vida.”

E depois?

“Já viúva, tive de continuar a trabalhar no campo, já para lá dos setenta anos, para garantir o meu sustento. Morando já aqui em Montemor, ao fundo da Rua das Piçarras, tive a ajuda da minha neta, Márcia Cristina, que me conseguiu arranjar esta solução de vir para o Centro de Dia do Abrigo, onde me encontro desde o passado mês de Março.”

Obrigado pela sua atenção, D. Custódia. Gostámos de falar consigo.

segunda-feira, 26 de março de 2018


JOAQUIM RAFAEL MARTINS


Vai completar 92 anos no próximo mês de Abril, mas ainda lhe surge um brilhozinho nos olhos quando evoca os seus tempos de juventude e os bailaricos que, nos mais diversos locais da sua zona de residência, eram frequentes quase todos os fins de semana. Está casado há 67 anos com Margarida Augusta Ladeiras. Não tiveram filhos. Estão como residentes do Abrigo há cerca de 5 anos.

Nascido no Monte Novo, ali perto dos Cavaleiros, o sr. Joaquim Rafael Martins recorda algumas fases da sua vida.

“Sempre vivemos no campo. O meu pai explorava uma pequena parcela de terra que era nossa e trabalhava noutras que arrendava. Na idade apropriada andei à escola, não numa oficial mas numa casa grande onde uma senhora, salvo erro de nome Maria Emília, vivia com os pais e dava aulas a uma dúzia de crianças dos arredores, certamente que a troco de qualquer “milhadura”. Ainda frequentei a terceira classe, mas estou em crer que não fiz qualquer exame. Ainda hoje vou lendo, mas na escrita tenho mais dificuldades.”

E acabada a escola, houve que começar nova fase na sua vida:

"Teria uns doze anos comecei a trabalhar no campo, juntamente com o meu pai. Fiz praticamente de tudo, tanto na nossa terra como na da D. Antónia Padeira, que o meu pai trazia de renda. Ainda me recordo de ir ali a uma casa, com a frontaria de azulejos, em frente da Igreja da Sra da Luz pagar os 8 contos que era o valor anual da renda. Isto para além da pitança, que no caso em concreto se tratava de 3 galinhas e 1 peru, que eu, de carroça, ia levar ao monte de Vale de Nobre.”

E era chegada a altura que toda a juventude conhece…

“A minha juventude foi bem aproveitada. Ali pelas Fazendas, raro era o Sábado em que não havia funçanada. Nem queira saber o que eram aquelas festanças. Bastava haver um rapaz que desse uns toques de concertina e estava o baile armado. Pelo Carnaval, então, aquilo era uma festa pegada. Agora até mete pena. Está tudo praticamente desabitado. Há muitos montes vazios. É um dó de alma.

E era nesses bailaricos que se arranjavam os namoros...

“Claro. Com 18/19 anos comecei a namorar a que haveria de ser a minha mulher. Pelo meio ainda namorisquei outra rapariga, mas acabei por voltar à mesma. Então, tinha eu 24 anos e a Margarida 22, um belo dia juntámos os trapinhos. Mas a D. Antónia não consentia ninguém na propriedade que não estivesse legalmente casado, pelo que tivemos de oficializar o casamento pelo Registo e pela Igreja.”
        
E já com o novo estatuto mantiveram-se por lá muito tempo?
         
“Nem por isso. Já casados, fomos morar para o Monte do Passa Figo, onde permanecemos 34 anos. Passado este tempo a Senhora vendeu a propriedade ao sr. Luís Torres e, então, tivemos de nos mudar. Regressámos ao meu lugar de origem – o Monte Novo – e por aqui ficámos cerca de 30 anos.”
        
E sempre a trabalhar no campo?
      
“Sim, senhor. Fiz praticamente todos os trabalhos na agricultura e também trabalhei em carvoarias, desde cortar e preparar a lenha, “terrear” os fornos e, depois do carvão estar pronto, retirá-lo e ensacá-lo. Levei uma vida de trabalho, mas calmo, sem grandes alterações.”
         
E agora?
         
“Sou muito nervoso, mas de resto pessoalmente não tenho sido muito massacrado. A minha mulher, essa sim, tem sido uma vítima das doenças. Praticamente incapacitada devido a reumatismo nas mãos e nos pés, ultimamente ainda lhe apareceu mais uma qualquer doença que a obriga a alimentar-se através de uma sonda."

Então, como vai passando os dias?

“Ultimamente não tanto, devido ao estado de saúde da minha mulher, mas participava nas actividades que aqui se vão fazendo. Só este ano é que não desfilei pelo Carnaval. Fui algumas vezes nas visitas que o Abrigo organiza mas, pelo mesmo motivo, agora não tenho ido. Já agora, vou contar-lhe um pormenor curioso: Entrei para o Abrigo numa segunda-feira de Entrudo e, mal cheguei, fui logo metido ao barulho pelo Zé Manel e pela D. Céu, que me convidaram a entrar com o pé em dança. E eu não me fiz rogado.

Felicidades, Amigo Joaquim e os votos de melhoras para a sua Esposa.



segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

OS NOSSOS UTENTES

SOFIA ROSA BREJO

Não sendo, felizmente, caso inédito, bem pelo contrário, é sempre com justificado júbilo e respeito que se assinala o centenário de um(a) utente desta Instituição.


Não é todos os dias, não obstante a esperança de vida ter aumentado substancialmente, que se atinge ainda em boa forma os 100 anos de existência.

Aliás, aqui no Abrigo têm sido vários os casos de longevidade que nos orgulhamos de registar. Pois bem: no passado mês de Janeiro, a nossa utente D. Sofia Rosa Brejo atingiu essa bonita idade. E estivemos agora à conversa com ela.

Possuidora ainda de uma excelente memória, aqui e ali com justificados lapsos de pormenor, foi-nos contando:

“Nasci no Monte da Bola, nos arredores da Maia. Numa família com doze filhos, dos quais estiveram nove vivos ao mesmo tempo. Faleceram os três que eram mais velhos do que eu. Hoje, apesar de ser a mais idosa, sou a única que consegui resistir.”

A infância, bem, a infância foi aquela a que estava destinada a maior parte das crianças que viviam no campo…”

“Não, nunca andei à escola. Ainda hoje não sei ler nem escrever. Naquele tempo, os mais velhos, sobretudo as raparigas, ajudavam na lida da casa e a tomar conta dos irmãos mais novos, para que os meus pais pudessem governar a vida. E assim foi acontecendo até perto dos dezasseis anos, idade com que “enrreguei” a trabalhar no campo, “sargaçando”, isto é, arrancando o sargaço e juntando-o em montinhos. Mas depois ainda fiz muitas mais tarefas.”

Nessa idade é tempo de namorar…

“Nunca fui muito namoradeira. Antes do meu marido só namorisquei um rapaz, mas isso foi breve e sem consequências. Depois comecei então a namorar o que seria o meu marido, mas nessa altura era tudo às escondidas, porque os nossos pais, nesses tempos, não viam com bons olhos os namoros das filhas. Com cerca de 25 anos juntei-me então com o pai dos meus filhos, de nome Francisco Manuel Bravo, situação que durou até à sua morte, há cerca de 20 anos.”

E então para onde foi viver o jovem casal?

Fomos morar para o Gandum e depois para o Monte Novo, ali nas Fazendas, que fazia estrema com a propriedade chamada João Pais. No primeiro daqueles locais tive dois filhos e o rapaz mais novo já na segunda das habitações. Enquanto os meus filhos foram pequenos não podia trabalhar fora de casa. Devido a doença, praticamente já não ia trabalhar para o campo, a não ser a apanhar umas boletas ou outros serviços do género, até porque também tinha problemas na vista que me impediam de fazer outros trabalhos”

Já antes desta altura da nossa conversa, a D. Sofia insistia em contar um pormenor da sua vinda para o Lar do Abrigo, que eu interrompia prometendo-lhe que mais adiante teria a oportunidade de referir esse facto. Assim, continuou:

“Mais tarde tive de ficar em casa para tratar do meu marido, que esteve acamado durante algum tempo. Também ele, nos últimos meses, já não podia trabalhar e, tendo piorado, ainda foi internado no Hospital em Évora mas estava já em situação desesperante. E em 1999, tinha o meu marido falecido há uns meses, fui admitida no “Centro de Dia” do Abrigo. Como se compreende, só durante o dia estava aqui nas instalações. Tive a sorte de, mesmo por baixo do portão do Abrigo, morar uma amiga minha, que era conhecida entre nós por Mariana da Gouveia, mãe da também minha grande amiga Gracinda. Moravam ambas no mesmo prédio: a filha (e a família) no 1º andar e a mãe do rés-do-chão. Foram ambas excepcionais e facultaram-me um quarto no rés-do-chão onde eu pernoitava até em cada manhã seguinte regressar ao Abrigo.”

E parece-me que agora, sim. É chegada a altura de contar o tal episódio que está desejosa de revelar:

“Esta situação manteve-se durante anos. Uma manhã, em Junho de 2010, estava eu ao portão, vinda da casa da Mariana, onde dormira como habitualmente, encontrei um senhor, que julgo ainda hoje ser um então dirigente, que, vendo-me a chorar, perguntou o que tinha acontecido. E eu respondi-lhe que ainda não tinha acontecido mas estava prestes a acontecer. É que, contei-lhe, a minha amiga Mariana ia ser internada em Lisboa para ser operada e disse-me que mesmo na sua ausência eu poderia continuar a dormir lá em casa. Grande coração. Mas eu não queria abusar e sobretudo tinha um certo receio de ficar sozinha É que a filha, que também concordava com a mãe, morava no primeiro andar e eu tinha medo que de noite me acontecesse alguma coisa e, se calhar, só tarde de mais dariam por isso. Então, esse tal senhor, de quem ainda hoje não sei o nome, prometeu-me que iria tentar resolver a situação.”

Então como ficou o caso?

“Cumpriu. E no dia seguinte já eu estava de malas aviadas para vir aqui para o “Lar”, como residente, onde me encontro até hoje. E digo, e afirmo a toda a gente, que gosto de aqui estar e sou bem tratada por todos e todas. Apesar de ter tido dois grandes desgostos, a morte por acidente de trabalho com tractor do meu filho mais velho e a do meu marido, quis o destino que eu fosse caminhando até ao centenário e, não havendo nada que substitua a nossa casa, sinto-me feliz aqui. Ainda no mês passado me fizeram uma festa comemorativa dos meus 100 anos e foi bonita de se ver. Estavam também presentes a minha filha Felicidade Maria, o meu filho mais novo, Manuel Filipe, assim como os meus netos e bisnetos. Obrigada a todos.”

Felicidades, Dona Sofia.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

OS NOSSOS UTENTES

MANUEL ELISIÁRIO PIRRALHO

Menino sem escola e sem brinquedos. Rapazinho que cedo foi obrigado ao trabalho duro de cada dia, Manuel Elisiário Pirralho nasceu no Monte do Casão, perto da estrada que liga Montemor a Évora.


“Irei completar 90 anos no próximo mês de Fevereiro e fui o mais novo de cinco irmãos, dos quais só eu ainda vivo. O meu pai era porqueiro no Pinheiro e no Picote, propriedades do sr. João Manuel Malta.”

E recorda:

“Escola, nem pensar nisso. Com seis anos, perto dos sete, comecei a guardar porcos e, para me estrear bem, comecei logo por levar pela medida grande.. E porquê? É simples: eu não conhecia o terreno por onde caminhava e, sem me aperceber, andava com o gado longe dos gamelões onde estavam o bagaço e a farinha que lhes havia de servir de alimento. O meu pai parece que me assobiava mas eu, que estava longe e com o vento contra, não o consegui ouvir. Quando ele, zangado, veio ter comigo, deu-me duas ou três varadas nas costas. Dizia ele que era para aprender. Não terá sido por causa disso, mas a verdade é que aprendi e tive essa ocupação até perto dos treze.

E foi mantendo sempre a mesma residência?

“Não. A família ia mudando porque o patrão explorava outras propriedades, que ia arrendando, e nós tínhamos de mudar também. Mas aos dezasseis anos já comecei a guardar gado bovino, o que fiz em vários locais. Por volta dos dezanove já exercia outros trabalhos agrícolas, também em diversas propriedades, mas sempre por conta do mesmo patrão.”

Entretanto os anos iam passando e era chegada a altura de dar outros rumos à sua vida…

“Poucos anos mais tarde, e ainda que me mantivesse na casa paterna, comecei a ter a minha independência e a possibilidade de procurar outros trabalhos sazonais que me permitiam ganhar mais qualquer coisa.”

E a sua juventude, para além do trabalho?

“Como qualquer rapaz da minha idade, ia a muitos bailes e funçanadas, onde conheci e dancei com muitas raparigas. Conversava e mangava com elas, mas não passava disso. Namorei pouco e só me apaixonei uma vez e foi logo por aquela que ainda hoje é a minha mulher – Maria Bárbara Caravela. Tenho duas filhas, já casadas, que residem junto a Montemor.”

E com que idade casou?

Primeiro juntámo-nos, tinha eu 31 anos e a noiva andava pelos 27/28, e só um ano depois legalizámos a união. Fomos então morar para o Monte da Parreira,  junto ao Ciborro. A propósito de moradias, devo afirmar que vivemos em dez locais diferentes. Vá contando: da Parreira fomos para o Monte do Cavaleiro (S.Geraldo) e, seguidamente, para a aldeia do Ciborro, Herdade do Meio, Casal Ventoso (Lavre), Mata Velha (na mesma zona), Lobeira de Cima, Monte da Amoreira (Lavre), onde estive 23 anos, Monte do Cota e Monte do Vale da Rã (Maia). Daqui entrámos para o Abrigo, em Setembro passado.”


Foi, portanto no Monte da Amoreira, perto de Lavre, onde se manteve durante mais tempo…

“É verdade. E sempre como vaqueiro ao serviço da Cooperativa “Boa Esperança”. E foi ali que ao fim desses anos me reformei. Já nesta situação de reformado estive, como já disse, nos montes do Cota e do Vale de Rã onde, por minha conta, ia fazendo umas hortitas e outros biscates que me iam aparecendo. Em Setembro fomos forçados a vir para o Abrigo, sobretudo porque a minha mulher está incapacitada e apenas se desloca com uma cadeira de rodas.”

Guarda, naturalmente, muitas recordações desses tempos de trabalho…

“Claro que sim. E até recordo, com alguma vaidade, o facto de ser admirado pelos colegas de trabalho pelo facto de, enquanto vaqueiro, e apesar de não saber ler nem escrever, conseguir identificar cada animal pelo nome. E chegavam a ser manadas com uma centena de cabeças. Isto sucedia porque eu vivia constantemente com os animais e, em muitas noites em que eu sabia que havia vacas prestes a parir, eu pernoitava junto delas até que o vitelo nascesse. Cria-se, assim, uma amizade aos animais que só quem viveu nas mesmas circunstâncias pode avaliar. Quando um moiral é consciente e gosta do que faz, conhece os animais como se fossem da família. Sabemos quais são as suas manhas e até sabemos fazer o diagnóstico das doenças só pela maneira como se comportam.”


De toda a nossa conversa fica a certeza de que, ainda hoje, fala dos animais com um entusiasmo e um carinho só possíveis para quem gostou muito do que fez na vida.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

OS NOSSOS UTENTES


MARIA INÊS SAMPAIO BARREIROS


A vida dá grandes voltas e, no seu movimento, acontece que muitas vezes até nos troca as voltas. É o caso da nossa entrevistada deste mês, que conheceu muitas dificuldades mas que sempre lutou para vencer as contrariedades que ia enfrentando.

“Nasci aqui na nossa então vila, no dia 25 de Setembro de 1931,numa família com quatro filhos (dois rapazes e duas raparigas), dos quais só eu e a minha irmã estamos vivas. Toda a nossa infância foi passada na Ruinha, onde a família morava.”

Vivendo perto de uma escola, certamente que foi mais fácil frequentá-la. Certo?

“Não. Nessa altura as aulas não eram mistas pelo que, vivendo perto de uma das escolas, fui para a Conde de Ferreira, frequentada apenas por raparigas. No entanto, da escola só me lembro de ir para lá com uma mala de pano, mas apenas por poucos dias, o que não deu para aprender a ler ou a escrever. Fiz apenas uns gatafunhos.”

Mas por que razão não andou mais tempo?

“Os tempos eram bastante difíceis. O meu pai, José Maria Afonso Barreiros, era na altura empregado do sr. Manuel do Alberto, que tinha umas carroças com que fazia o transporte de vários tipos de carga e, portanto, ganhando pouco, havia mais a preocupação de se arranjar sustento para a família do que dar instrução aos filhos. O meu pai, que em jovem tinha aprendido música, era também filarmónico na Carlista. Mais tarde foi para contínuo do tribunal, ainda este estava instalado no que é hoje a biblioteca municipal.”

Então, ainda novinha e sem escolaridade, como se ia desenvolvendo a sua vida?

“Por volta dos 9/10 anos, com umas sapatilhas de trapo, que usava quer fosse verão, quer fosse inverno, trabalhava fazendo recados a quem calhava e até lavava o chão da casa de uma vizinha. Ganhava muito pouco, mesmo atendendo a esses tempos. E assim ia sendo a minha vida, fazendo os trabalhos que me apareciam. Até que, já perto dos 20 anos, comecei a ter outros serviços mais permanentes. Estive em casa do sr. Gaspar Ferreira e do dr. Vacas de Carvalho com uma certa regularidade, ainda que fosse aceitando outros trabalhos ocasionais que me iam aparecendo.”

Propomos agora um salto no tempo para trazer novas recordações

“Teria perto de trinta anos, e depois de um namoro atribulado porque os meus pais não eram favoráveis, juntei-me com o meu namorado, de nome Manços Calhau, que era ardina e contínuo do União, quando a sua sede era ali na rua Capitão Pires da Cruz. Foi ele o pai das minhas duas filhas, uma das quais faleceu ainda não há muito tempo. O Manços morreu ainda as minhas filhas eram pequenitas e, dada a minha situação ser bastante difícil, fui forçada a interná-las no Asilo de Infância, gerido por freiras e situado no Convento da Saudação, no Castelo. Por lá estiveram alguns anos. Entretanto, há perto de 50 anos, juntei-me com João Francisco Salgueiro, com quem mais tarde me casei oficialmente. Foi ele que tomou a iniciativa de retirar as minhas filhas do Asilo. Do João não tive filhos, mas tratou sempre as minhas filhas como se dele fossem.”


Então, a partir daí, a sua vida melhorou…

“Passei por grandes desgostos e sofri muito com uma vida de sacrifícios, de contrariedades e de trabalho penoso, porque o pai das minhas filhas ganhava muito pouco. Só anos depois, quando primeiro me juntei e depois casei com o meu actual marido é que a minha vida melhorou. O João foi operário da construção civil e empregado da Gelmar. Quando esta empresa encerrou, ele emigrou para a Alemanha e, passados alguns meses, também eu fui ter com ele. Passámos lá poucos anos, sempre com o medo atrás da porta, porque então ainda não estávamos casados e eu não tinha contrato de trabalho nem autorização de residência.”

Mas ainda deu para amealhar algum dinheirito?

Sim, apesar de não ser muito. De qualquer forma, ainda nos permitiu adquirir    a nossa casita na rua Teófilo Braga, ou seja, na rua Direita. Foi comprada à Família Cunhal e depois o meu marido, que já havia sido pedreiro, fez lá dentro uns melhoramentos que a tornaram na nossa habitação. Neste momento, o meu marido ainda lá vive, sozinho, desde que no dia 10 de Maio deste ano entrei para o Abrigo.”

E o que a levou a optar por vir para o Abrigo?

“Como vê, desde há muito tempo que sofro imenso de artroses, que me atormentam cada vez mais as mãos e as pernas. Esta situação incapacita-me para realizar as tarefas mais essenciais. Andei de médico para médico mas nada resultava. Sem conseguir efectuar as tarefas mais indispensáveis, fui forçada a pedir ajuda ao Abrigo. Quando entrei ainda me movia com duas canadianas mas, passado pouco tempo, talvez cedo demais, puseram-me numa cadeira de rodas e até assim tenho de ser ajudada para me deslocar. Vou frequentemente ao ginásio, mas continuo a ser dependente porque nem sequer tenho força nas mãos para mover a cadeira.”

E o seu marido?

“Está lá na nossa casa, até que haja vaga para se juntar a mim, porque também não está bem. No entanto, enquanto a tal vaga não surge, o Abrigo proporciona-lhe o “Apoio Domiciliário”.

Resta-nos endereçar a todos os(as) Utentes das três áreas sociais, aos Funcionários (as), aos Membros dos Corpos Sociais, ao Corpo Médico e de Enfermagem, aos Colaboradores (as) e aos nossos Leitores(as) os mais sentidos votos de um FELIZ NATAL e de um ANO de 2018 sobretudo com Saúde!