MARIANA VILALVA CASIMIRO SALGUEIRO
Depois de um
breve interregno para recuperar energias, regressamos hoje às conversas
periódicas com os nossos utentes.
Para este mês convidámos a D.
Mariana Salgueiro, figura bem conhecida, que usufrui actualmente do
acompanhamento do “Centro de Dia”, depois de ter sido assistida durante algum
tempo no “Apoio Domiciliário”.
Ouçamos então o que tem para nos
dizer:
“Nasci no Vimieiro e completei no passado
mês de Abril a idade de 88 anos. Sou casada com João Luís Salgueiro e tenho
três filhos, uma rapariga e dois rapazes. O meu pai era 2º Sargento-Músico no
Regimento de Infantaria 16, em Évora, o que nos levou a deslocar-nos para
aquela cidade. Se bem me lembro, teria então uns 10 ou 12 anos. Por diversas
circunstâncias, só mais tarde, já fora da idade normal de escolaridade,
consegui fazer a 4ª classe.”
Mas mudaram várias vezes de
residência, como nos disse:
“O meu pai gostava de conhecer novas terras,
novas gentes e, então, quando achava oportuno pedia transferência para outras
cidades onde houvesse quartéis e pudesse, portanto, exercer a sua actividade
enquanto músico militar. A memória já me vai faltando, mas lembro-me
perfeitamente de termos estado nas Caldas da Rainha.”
Os anos foram passando e a
vida da D. Mariana conheceu uma nova faceta:
“Em determinada altura vim a Montemor
conhecer uma tia que cá tinha. Era costureira, morada ali para os lados da Rua
Curvo Semedo e era casada com o antigo guarda-rios José Abrantes. No primeiro
andar da casa era onde a minha tia trabalhava e tinha sempre lá raparigas que
andavam a aprender a arte de costurar.”
E
foi a uma janela desta casa que viu pela primeira vez aquele que viria a ser o
seu marido.
“É verdade, sim senhor. E eu já conto como
foi, mas antes quero dizer que tinha muito jeito para cantar e gostava de
representar. E em solteira, ainda moça, cantei muitas vezes em festas. Já por
essa altura, e quando comecei a deitar corpo, a minha mãe levava o tempo a
avisar-me: - Mariana, minha filha, vê lá, tem cuidado, olha que os rapazes são
maus e quando eles pedem um beijo isso já não é bom sinal. E aquelas palavras,
de tantas vezes repetidas, não me saíam da cabeça.”
Mas vamos lá então a saber
como é que começou o namorico:
“Um dia, estava eu à janela da minha tia com
uma prima e vi passar um rapaz todo jeitoso, com umas formas de sapateiro e
disse para a minha prima: - É com aquele rapaz que eu hei-de casar. E ela
respondeu-me: - És parva, rapariga, então tu não o conheces, nem sequer sabes
se é solteiro ou casado e estás a dizer uma coisa dessas… “
Mas não desistiu da ideia:
"Eu continuei na minha e a verdade é que
passado pouco tempo já estávamos a namorar. Ele tinha uma sapataria mesmo em
frente da janela da minha tia e, então, a troca de olhares começou e o
resultado foi o que se viu.”
E o namoro lá foi correndo
normalmente, segundo os padrões da época.
“Apesar de tudo, eu tinha sempre presente o
aviso da minha mãe. Um dia o João, que sempre me respeitou, pediu-me: dá-me um beijo,
Mariana. Lembrando-me do que a minha mãe me dissera tantas vezes, fugi a chorar
e fui contar à minha tia que o meu namorado me tinha pedido um beijo. E ela
respondeu-me: - Oh rapariga, então estás a chorar por causa de uma coisa dessas?
Não há mal nenhum nisso. É uma coisa natural.”
E então…"Ele durante muito tempo nunca mais me falou
em tal. Só mais tarde surgiu uma oportunidade e, aí, já não recusei. Passado
algum tempo, teria eu vinte e tal anos, finalmente casámos e durante todo este
tempo decorrido fomos sempre muito amigos e felizes. Mas os anos não perdoam e
com o avançar da idade e com o facto do meu marido estar todo o dia na sua
loja, ali na Avenida Gago Coutinho, a minha filha receava a situação de eu
estar todo o dia sozinha em casa. Então, com o nosso consentimento, tratou das
coisas e depois de algum tempo a receber “Apoio Domiciliário” entrei finalmente
para o “Centro de Dia” do Abrigo. Foi uma decisão acertada porque sou aqui bem
tratada e gosto de cá estar.”
E como ocupa os seus tempos?
Faz parte do grupo coral ou do grupo de teatro, uma vez que nos disse que eram
duas artes que apreciava?
"Não faço porque quando me comprometo com
qualquer coisa não gosto de faltar e tenho receio de uma vez ou outra não poder
corresponder ao compromisso assumido. Mas já este ano participei em duas
actividades que aqui se realizaram: na “Queima do Boneco” e num desfile
carnavalesco onde me apresentei vestida de “Minie”. Foram experiências
engraçadas.”
Chegara ao fim a nossa breve
conversa. Desejamos à D. Mariana que vá tendo saúde e a boa disposição se
mantenha.