ISALINA
MARIA MARCELINA
Depois das
festividades carnavalescas a que o Abrigo aderiu, como é costume, voltámos à conversa, já mais calmos e recuperados das folias, com uma das nossas utentes.
A vida, como se sabe, naqueles anos era muito
difícil a todos os níveis. Repare-se nas primeiras declarações da D. Isalina:
“Nunca
aprendi a ler porque para aprendermos tínhamos de nos deslocar para Cortiçadas
de Lavre e dos montes que compunham os Foros dos Carapuções eram só rapazes que
se dirigiam para a escola, pelo que, nestas circunstâncias, o meu pai não me
deixava ir. Outros tempos, outras maneiras de ver as coisas.”
E
como também era habitual em casos semelhantes, começou a trabalhar bem cedo na
lida do campo:
“Ao
longo da minha vida fiz todas as tarefas agrícolas. Com cerca de 20 anos, ainda
solteira, os meus pais foram morar para a Barrosinha. Então, só a minha irmã
mais velha era casada, pelo que os restantes irmãos estavam na casa paterna e a
labutar no campo.”
Por
esta altura, certamente que já havia namorico …
“É
verdade que tive vários pretendentes, mas eu era muito esquisita e nenhum me
agradava. Até que, teria eu os meus vinte e quatro anos, apareceu aquele que
pensei ser o certo. Ainda hoje não sei porque foi o escolhido. Inclinei-me para
ali. Num baile campestre apareceu esse rapaz que começou a dançar comigo e foi
como que o fogo ao pé da estopa. Aceitei-lhe namoro e passados dois anos
estávamos casados. Fomos abençoados pelo Santo António e casámos pelo S. João.”
Passemos
então à fase de casada:
“Depois
do matrimónio, ficámos ainda na Barrosinha, ainda que noutras casas. Mas a
nossa permanência aqui foi sol de pouca dura, porque o monte era muito isolado.
Fomos então para a Sesmaria Nova, da Família Praça, onde, aliás, o meu marido
nascera tal como os seus quatro irmãos. O meu António Filipe sabia e fazia
todos os trabalhos agrícolas e eu ajudava-o, porque desde os meus 12 anos que
sabia o que era trabalhar a sério. E para não perdermos mais tempo arranjámos
logo o primeiro filho, o Manuel António, que haveria de nascer no ano seguinte.”
Teve
de deixar a sua actividade enquanto o seu filho era bebé…
“É
verdade. Só quando o meu filho era pequenino e precisava de mais cuidados é que
interrompi o trabalho durante cerca de dois anos. E só retomei a minha
actividade quando o podia ter ao pé de mim. Porque nessa altura tinha a meu
cargo a cozinha dos trabalhadores. Fazíamos um grande lume ao ar livre e eu
tomava conta das panelas, normalmente cobertas com testos de barro, contendo o
almoço que cada um trazia de casa. Perto desse brasido existia um alpendre,
coberto com folhas de zinco, e era aí que o meu Manuel ficava sob o meu olhar.”
E
terminaram aí as vossas andanças ?
“Não.
Dali fomos para uma outra herdade da mesma Família Praça, chamada “Carregais”,
onde viria a nascer o meu Jorge Manuel. Por aqui ficámos durante nove anos. Seguiu-se mais um igual período de
nove anos em “João Pais”, ali para os lados do Reguengo. Finalmente mudámo-nos mesmo
para o Reguengo, onde o meu marido teve a infelicidade de sofrer uma trombose
que lhe haveria de ser fatal três meses depois.”
E
a sua vida sofreu uma grande transformação.
Não
sabendo ler e não ligando muito aos programas transmitidos nos vários
televisores espalhados pelas diversas salas, o dia da D. Isalina passa-se
normalmente a conversar com outras utentes, quando o assunto lhe agrada ou
desperta interesse.
Confessou-nos que em nova gostava de
cantar, pelo que lhe sugerimos a entrada para o grupo coral “Cant’Abrigo”.
Sorriu, mostrou-se reticente mas ainda não se decidiu.
Boa saúde, D. Isalina, é o que todos lhe desejamos.