sexta-feira, 19 de abril de 2019

OS NOSSOS UTENTES

LUDOVINA DE LURDES CÂRMELO RAMALHO



             Apesar de ter conhecido necessariamente momentos de felicidade ao longo dos anos, a nossa entrevistada deste mês conheceu igualmente muitas horas de sacrifícios e dois momentos de enorme desgosto que igualmente marcaram a sua vida. É viúva desde Agosto passado de Lourenço Manuel Bravo Carreiro. Mas vamos ouvi-la contar a sua história:

            “Sou natural do Escoural e a mais velha de seis irmãos. Os meus pais eram trabalhadores rurais e, com os baixos salários e uma casa de família para sustentar, tivemos uma infância muito difícil. Com tantos filhos, a minha mãe não podia trabalhar porque, ao contrário de hoje, não havia onde os deixar. Assim, era apenas a jorna do meu pai que, ganhando pouco, tinha de sustentar toda a família. Já se pode adivinhar como era difícil a nossa vida.”

            Estava mesmo a adivinhar-se que quanto à Escola …

            “Só os meus dois irmãos mais novos foram. Eu andei lá apenas três meses. E vou explicar porquê: Em certa altura o meu pai foi trabalhar para longe e, então, todos nós fomos com ele. Como a minha mãe também lá arranjou trabalho, fui eu que tive de ficar a tomar conta dos meus irmãos. Vivíamos numa barraca, feita pelo meu pai, com umas estacas e cobertura de plástico.”

            Mas em termos económicos melhoraram um pouco, ou não?

            “Pouco mais. Veja só isto: quando a minha mãe se queixava que os mais pequenos passavam o dia a chorar, sobretudo com fome, porque a comida era pouca, o meu pai a quem, não sei porquê, puseram a alcunha de “Ceroula”, dizia-lhe para lhes dar água e os deitasse, porque eles eram crianças e não sabiam o que queriam…”

            E depois desta passagem o que aconteceu?

            “Voltámos para o Escoural e, com 12 anos, comecei a apanhar azeitona. Depois, fui fazendo praticamente de tudo. Aos 19 anos comecei a namorar e aos vinte e três casei-me ou, por outra, juntei-me com o Lourenço, que tinha menos dois anos do que eu. Fomos então morar com a minha sogra durante vinte meses. Mudámos depois para o Monte da Prata, perto da Estação de Casa Branca. Entretanto nasceu o nosso filho – Manuel José –  e casámos oficialmente no dia do seu baptizado. Quando o Manuel José tinha perto de sete anos e foi para a Escola, ficou com a minha mãe, para que eu pudesse ir com o meu marido trabalhar para Rio Frio. O nosso serviço era num eucaliptal, onde o meu Lourenço, com uma serra eléctrica, procedia ao abate destas árvores. Aquilo não tinha as menores condições e para não dormirmos ao relento, o Lourenço fez uma cabana com armação em pano e coberta por plásticos. Por lá andámos oito anos, apenas com visitas ocasionais ao Escoural.

            Mas para além de todas estas dificuldades, que iam vencendo, um desgosto enorme estava para acontecer…

            “É verdade. Foi um duro golpe. O nosso filho, já casado, e com duas filhas, vivia no Escoural e estava empregado aqui em Montemor. Ele e mais três colegas deslocavam-se todos os dias para o emprego, revezando-se na utilização do carro. Num dia de fim de ano, seriam certa das sete e trinta da manhã, o carro em que seguiam e onde ele viajava ao lado do condutor, colidiu com um outro, ali junto ao Reguengo, e ele não resistiu aos ferimentos. Faria 32 anos no dia 5 de Janeiro seguinte. Foi um golpe muito duro.”

            Mas a vida teve de continuar…

            “Nem quero pensar no que temos sofrido. Mas temos de voltar à realidade. Em certa altura comprámos uma casa velha, no Escoural, que aos poucos fomos reabilitando. E quando regressei foi para lá que fomos morar. Trabalhámos os dois na Cooperativa Agrícola do Escoural cerca de quatro anos e o meu marido ainda fez três anos a tirar cortiça. Porém, já com mais de oitenta anos, adoeceu e, em Agosto passado, cometeu um acto desesperado, certamente fruto do mau estado de saúde em que já se encontrava. Foi outro rude desgosto que me atingiu”

            E agora, como passa os seus dias ?

            “Vou com frequência ao ginásio, pinto desenhos sob a orientação da D. Maria do Céu e vou passando os dias como Deus quer. Uns melhores que outros e não tenho tido vontade de assistir às festas que por aqui se vão fazendo. É que ainda está muito fresco na minha memória o desaparecimento do meu marido.”

            Coragem, D. Ludovina. Agora, como não pode remediar nada, tem de olhar por si.



segunda-feira, 18 de março de 2019

OS NOSSOS UTENTES

VICENTE MANUEL ROQUE


        Depois de terem revivido, ou simplesmente recordado, os tempos de ceifeiras, azeitoneiras ou pastores, no Corso Carnavalesco em que representaram mais uma vez condignamente o Abrigo, a calma voltou a reinar no interior da Instituição. Mas por pouco tempo, porque dentro de escassos dias, mais precisamente no dia 21 deste mês de Março, pelas 10 horas, outra manifestação vai manter uma velhinha tradição popular que, infelizmente, tem vindo a desaparecer salvo raras excepções. Trata-se da “Queima do Compadre e da Comadre” que no Abrigo mantém vivo o espírito da quadra graças ao esforço, talento e persistência dos seus promotores.

            Ao nosso entrevistado deste mês, recente aquisição para a equipa do “Centro de Dia”, tudo isto ainda constitui novidade. Mas vamos então às apresentações:

            “Nasci no Monte do Valverde, perto de S. Mateus, em Janeiro de 1932, tendo já completado 87 anos. Sou casado com Umbelina Rosa Cabido Roque. Temos três filhos – Gabriel, António e Manuel – que são três joias de rapazes. Casados, e com as suas vidas estabilizadas, continuam a ser um orgulho para os pais.”

            E continua a desenvolver a sua história de vida:

            “´Era o mais novo de três irmãos (dois rapazes e uma rapariga) dos quais só eu ainda por cá labuto. Do meu pai não tenho qualquer memória, visto ter falecido quando eu tinha dois anos.”

            Perante tal cenário, não é difícil adivinhar que a família não teria então uma vida fácil…

            “Pois claro que não. E logo uma das primeiras consequências foi o facto de, com 6 anos, começar a guardar porcos por conta do lavrador sr. Marques dos Santos, que era o proprietário da Courela de S. Mateus. E ao nascer do sol aí ia eu, descalço e mal vestido, enfrentando os rigores do tempo, para o meu local de trabalho. Nem sei quanto ganhava, mas de certeza que era uma miséria”

            E a escola?

            “Isso era apenas uma miragem. Aliás nem sequer o assunto era abordado. Quando tinha já uns dez anos, a minha mãe ainda tentou que eu entrasse. Pegada com a igreja havia uma casita onde uma professora ia dar aulas. Nunca fiquei a saber se as aulas eram diárias ou não, porque não cheguei a andar lá. Parece que havia um número limitado de livros destinados aos alunos mais carenciados, que eram praticamente todos os que moravam por ali, fornecidos não sei se pela Câmara ou se por outra entidade qualquer. O que sei é que quando a minha mãe decidiu que eu havia de aprender a ler, já não havia livros disponíveis e, como comprá-los estava para além do orçamento familiar, acabou por ali a minha instrução e continuei a trabalhar no campo, aprendendo os segredos de cada tarefa.”

            Continuando…

            “A minha mãe faleceu quando eu tinha dezoito anos. Por essa altura já aprendera todosos trabalhos agrícolas e tinha a noção de que os executava como os mais entendidos. Ceifei, trabalhei com enfardadeiras, conduzi parelhas a carregar molhos de trigo para as debulhadoras, podava, fazia enxertos em vinhas e em árvores de fruto, enfim, para mim, os trabalhos agrícolas não tinham segredos.”

            E o tempo foi correndo…

            “Com vinte e quatro anos casei-me com a Umbelina e ficámos a morar no Reguengo (S. Mateus). O sr. Gabriel Carvalhinho era o padrinho da minha mulher e foi com aquele casal que ela foi criada e viveu como se fosse filha. Dada a sua avançada idade, o sr. Gabriel passou-nos a gestão da sua herdade e passámos a trabalhar nas suas terras. Pois este nosso grande amigo, quando faleceu, deixou ficar para a minha mulher uma fatia de terreno onde construímos a nossa casa e sempre cultivámos e explorámos. Cultivávamos a terra e inclusivamente construímos umas malhadas onde criávamos as porcas, vendendo depois os leitões. Foi assim que nos governámos e criámos os três filhos. Durante mais de quarenta anos fui semanalmente vender as hortaliças e a fruta que ali produzia ao Mercado Municipal. Mas a idade não perdoa e nos últimos anos deixei de ir vender ao Mercado e fomo-nos governando com as vendas de frutas, feijão, alhos, batatas, cebolas e toda a qualidade de hortaliça a pessoas que iam lá ao Reguengo de propósito.”

            Entretanto, alguma coisa correu mal …

            Recentemente fomos ambos acometidos de doença súbita que, inclusivamente, me levaram ao internamento no Hospital Distrital de Évora. Eu, felizmente recuperei em grande parte, mas a minha esposa ficou com sequelas das quais tem tido dificuldade em libertar-se.”

            Aliás, tivemos de dar por terminada a nossa conversa porque o Amigo Vicente estava preocupado com o facto da sua Esposa poder estar a sentir a sua falta e a necessitar da sua presença. Pode ser que um dia possamos vir a falar do que hoje ficou por dizer. Melhores dias para o casal são os nossos votos.



sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

OS NOSSOS UTENTES


LIBERDADE DA CONCEIÇÃO COELHO




         Para além das naturais particularidades, o percurso de vida dos nossos utentes é, de uma maneira geral, comum a todos eles, especialmente aos que nasceram e viveram largos anos no campo. Isto porque, como sabemos, as condições de vida, que então estavam estabelecidas, eram favoráveis às dificuldades que cada um ia vencendo como podia.
            A nossa entrevistada deste mês, nascida nos Baldios, é a mais nova de nove irmãos e, só por aqui, se pode avaliar como seria difícil satisfazer minimamente as carências de uma família cujo pai era trabalhador rural. Ouçamos então o que tem para nos dizer a D. Liberdade:

            “Os meus pais trabalhavam no campo, mas o meu pai também ia fazendo os seus biscates de pedreiro. E era mesmo de pedreiro, porque nesse tempo não se usavam os tijolos. As construções, mais rudimentares, eram apenas constituídas por pedras e lama barrenta amassada, usadas sobretudo, não só para casas de habitação modestas, como para instalações para o gado e para guardar as alfaias.”

            Com uma família tão numerosa, certamente que todos tiveram de começar a trabalhar muito cedo …

            “Pois, com certeza. Para além disso, e também porque vivíamos longe de escolas, nunca soubemos o que isso era. Todos começámos a lutar pela vida muito novos. Primeiro no campo e, depois, alguns deles como pedreiros ou padeiros. Escusado seria dizer que também eu comecei cedo. O primeiro trabalho que me coube em sorte foi desmoitar sargaços. Mal podia com a enxada. E, como era norma na altura, trabalhava-se de sol a sol. Passámos uma vida de miséria e de sacrifícios. E, quando não havia trabalho, tínhamos de recorrer a pão com boletas ou azeitonas. A nossa sorte é que tínhamos um pedaço de terra onde íamos plantando e colhendo hortaliças.”

            Passados esses anos de infância entrou na adolescência…

            “Sim, os anos foram passando e já com dezoito anos comecei a namorar o que ainda hoje é o meu marido. Na minha juventude eram frequentes os bailaricos ali na zona. Recordo-me, até, que nesses tempos o Entrudo era a quadra mais festejada. Para além dos tradicionais fritos, fazíamos arroz doce e matava-se o peru, que tinha sido alimentado com os farelos, da farinha que comprávamos para o pão, e com as couves produzidas na horta. E claro que todos se mascaravam, não com roupas porque as que tínhamos eram as que usávamos no dia-a-dia. Pintávamo-nos com mascarra, fazíamos um boneco de palha para queimar e fazíamos versos uns aos outros, a propósito de tudo e de mais alguma coisa.”

            E chegou na altura de dar novo passo…

            “Exactamente. Com 22 anos juntei-me com o meu marido – Mário António dos Santos - mas, passados dois meses, casámos. Tivemos dois filhos, a Brásia e o Carlos, hoje com 54 e 56 anos respectivamente. Quando casámos fomos morar para Vale de Asna, da família Caiados, num monte que hoje já não existe. Só lá estivemos um ano. Fomos depois para os Baldios, ainda que para casas diferentes. Primeiro para uma que era de um dos meus irmãos, que fora trabalhar para o Casal do Marco e depois, na parte de um terreno que nos ficou do meu pai após a divisão, fizemos uma casita onde nos fixámos até à nossa recente entrada no Abrigo.

            Mas preferiram vir para aqui em vez de estarem na vossa casa?

            “Com grande pena nossa, temos de dizer que os Baldios estão abandonados. Já não há lá residentes. Vivíamos muito sós e sem podermos recorrer a alguém em caso de aflição. A acrescentar a isto, o meu marido é bastante doente. Já foi operado três vezes, à próstata, à bexiga e ao coração. Tudo isto e ainda o facto de estar bastante surdo, que nem a compra de um aparelho resolveu o problema, levou-nos a pedir a admissão como residentes.”

            Ainda não há dois meses que aqui estão. Qual é a vossa opinião?

            “Foi o melhor passo que podíamos ter dado. Sentimo-nos aqui bem. Pela primeira vez não nos preocupamos com o frio que lá faz fora. Aqui dentro não há frio nem calor. Gostamos da comida e não temos razão de queixa de ninguém. Vamos ao ginásio e, pelo menos duas vezes por semana, controlamos a diabetes. E, para terminar, vou dar-lhe outra informação: Eu e o meu marido vamos desfilar no próximo cortejo de Carnaval. Só não posso dizer de que vamos mascarados. Essa vai ser a surpresa.”


            Obrigado, D. Liberdade. Oxalá que possam gozar desse bem-estar ainda durante muitos anos.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

OS NOSSOS UTENTES


CASIMIRO FLORÊNCIO


            
Ainda com o sabor na boca do bolo com que celebrou, no dia 8 deste mês de Janeiro, o seu 95º aniversário, o nosso primo por afinidade CASIMIRO FLORÊNCIO dispôs-se a dar-nos dois dedos de conversa, falando de pormenores da sua vida.
            
Viúvo de Guilhermina Maria Dionísio há 13 anos, tiveram uma filha, hoje com 73 anos, que tem casa junto ao Café Oásis e um filho que, infelizmente, já faleceu.
        
“Nasci no Monte dos Choupos, junto às Silveiras. Fui filho único e nem sequer me recordo do meu pai, que fez a tropa como marinheiro e assim continuou até ao fim da vida, apenas com raras e rápidas visitas a casa. Para além disso, tanto o meu pai como a minha mãe faleceram cedo, ambos na casa dos trinta anos.”
          
Como foi então a sua infância?
           
“Depois da minha mãe falecer vivia com o meu avô. Frequentei a escola na herdade da Duraia, onde conclui a 3ª classe. A professora afirmava que eu era muito bom em contas, mas por outro lado dava muitos erros na escrita. Ainda frequentei mas nunca acabei a 4ª classe.”
            
E dada por concluída a escola…
           
“Com doze anos comecei a trabalhar. Tive como primeira função juntar a cortiça que ia sendo tirada das árvores e que, depois, uma junta de bois transportava para as pilhas que atingiam grandes volumes. E a partir daí nunca mais parei. Entretanto, eu e a minha mãe vivíamos com o meu avô, porque o meu pai nunca estava em casa dada a sua condição de marinheiro. Aliás, e como já disse, não tenho dele a menor recordação, tão poucas foram as vezes em que o terei visto.”
                      
E nunca mais parou de trabalhar…
            
“É claro. Perto dos vinte anos comecei a namorar a minha vizinha Guilhermina e, no dia do meu 22º aniversário, juntámo-nos. A minha mãe já tinha falecido e o meu avô trabalhava então para o Dr. Silva Araújo. Eu ia fazendo o que calhava de entre os trabalhos agrícolas. Algum tempo depois o meu avô também faleceu e eu, e a minha esposa, continuámos a residir no Monte dos Choupos. A seguir fomos para o Monte Novo, junto à estrada para Cabrela. Aqui estive 47 anos, até vir para o Abrigo, em 2010. Durante uns anos deixei de trabalhar por conta de outros e comecei a fazer esgalhas e a tirar cortiça por minha conta. A maioria dos lavradores não queria estar com chatices a contratar pessoal e, então, contra o pagamento de uma determinada verba por cada arroba de cortiça que fosse extraída, era eu quem, para além de executar esse trabalho, arranjava também pessoal para o fazer. Para além disto, ainda comprava as árvores, antecipadamente marcadas e com o derrube autorizado pelos Serviços Florestais, cuja lenha servia para queimar nos fornos domésticos ou para o fabrico de carvão. Iniciei esta vida quando tinha cerca de 27 anos, altura em que comecei a perceber que era mal empregado trabalhar uma vida inteira para os outros e resolvi então alterar esse estado de coisas.
            
E durou muito tempo esse estatuto?
            
“Até cerca dos 86 anos. Continuei a morar no Monte Novo mas, sozinho, porque entretanto a minha esposa e o meu filho tinham falecido, fui forçado a pedir auxílio no Abrigo, para onde entrei em Novembro de 2010.”
            
E agora, como são os seus dias ?
                                  
“Sempre tive dois grandes prazeres na vida: dormir com a minha mulher e ir à caça. Por motivos que se compreendem, de nenhum destes posso continuar a usufruir.”
           
Mas como passa os seus dias?
          
“De há uns anos a esta parte, limitado fisicamente devido a um AVC, pouca actividade posso fazer. Já fiz ginásio todos os dias, mas agora pouco mais posso exigir do que dar os meus pequenos passeios, já que estou dependente de canadianas para me deslocar. Mas quero dizer-lhe que fiz grandes desmarcadas enquanto caçador. Tinha uma cadela, chamada “Académica”, que era um espectáculo. Uma vez, em Moura, matei, num só dia, 32 perdizes, uma lebre e um coelho…”
           
Antes de terminarmos a nossa conversa, e se me der licença, gostaria de saber porque ainda é conhecido por “Frescas”…
           
“Para lhe dizer a verdade, nem eu próprio o sei. Eu tinha um tio no Monte dos Choupos, chamado Filipe, que tinha o costume de arranjar alcunhas para todos os gaiatos dali. E eu não fugi à regra, se bem que nunca conseguisse saber nem adivinhar onde é que ele teria ido buscar esse nome. Sei é que, como represália, os gaiatos baptizaram-no de “Cazumba”, também não sei por que carga de água.”
            
A terminar, quer acrescentar mais alguma coisa?
            
“Quero salientar que a minha família continua a apoiar-me e a acompanhar-me praticamente todas as semanas ou sempre que pode.”
            
Amigo Casimiro: Fica já encontro marcado para festejarmos o centenário !


quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

OS NOSSOS UTENTES

MARIA ISABEL MALTEZ
         
Utente do “Apoio Domiciliário” desde 2011, a nossa entrevistada deste mês já passou por oitenta e quatro Natais, mas não tem particulares recordações agradáveis dos que viveu nos seus tempos de meninice.
         



“Nasci e morava no Monte de Morganhos, perto dos Baldios e a minha mãe faleceu quando eu e o meu irmão gémeo tínhamos apenas alguns meses de vida, pelo que não tenho a menor memória dela. Éramos então seis irmãos a que se juntaram mais tarde três raparigas, nascidas do segundo casamento do meu pai.”
         
E como era vivido o vosso Natal?
         
“Órfã de mãe e a viver com uma madrasta, quer os períodos festivos, quer os ditos normais, não foram de felicidade e nem guardo boas recordações. A minha madrasta nem sequer permitia que convivêssemos com a família da minha falecida mãe, o que nos causava desgosto. Pelo Natal não havia brinquedos nem guloseimas para ninguém, até porque éramos uma família grande. Por vezes matava-se uma galinha ou um peru e, ocasionalmente, fazia-se um pouco de arroz doce para esse jantar.”
         
E quanto a escola?
         
“Eu e o meu irmão gémeo andámos à escola, nos Baldios, com uma professora particular. Frequentei até à 4ª classe mas não fiz o exame final porque a minha madrasta convenceu o meu pai de que não precisava disso para nada.”
         
E depois?
         
“Com 14 anos fui servir para casa do sr. Francisco Malta, ali na Rua das Escadinhas. Tinha sobretudo como missão servir à mesa, tratar das meninas e atender o telefone. Estive lá até aos 18 anos. Como por essa altura já namorava o que haveria de ser o meu marido, tinha eu dezanove quando nos juntámos e fomos morar para o Monte do Picote. Casámos passados quatro anos, tendo sido padrinho de casamento o sr. Mário Bailão, que era o motorista do sr. Malta. Aproveito para referir que uma das poucas coisas que agradeço à minha madrasta foi o facto de ela me ensinar a arte da costura. Quando saí de casa sabia fazer de tudo como costureira, quer fato de homem quer de senhora.”
         
Mas foram ficando pelo Monte do Picote?
         
“Não. Anos depois fomos para o Ciborro, onde o meu marido guardava e tratava das éguas, por conta do sr. Malta. E eu ia fazendo de tudo, desde apanhar azeitona até ordenhar vacas e ovelhas. Entretanto nasceu a nossa filha – a Catarina – que aqui andou à escola e se fez mulher.”
         
E agora, nova mudança…
         
“Depois do Ciborro viemos então para Montemor. Primeiro, a título provisório, para uma casa na Ermida de Na. Sra. da Visitação e, depois, para a Rua dos Almocreves, onde nos mantivemos durante trinta e tal anos. Dali fomos então para a Travessa das Ferrarias, onde estamos há vinte anos.”
         
E como surgiu a ideia de pedir o “Apoio Domiciliário”?
         
“A ideia e a necessidade. O meu marido, naturalmente também já reformado, tem um grave problema de saúde e eu também já não posso fazer certas coisas da lida da casa, pelo que resolvi pedir ajuda ao Abrigo. Ainda que não esteja em regime de permanência, desloco-me aqui amiudadas vezes em visita, quer participando em passeios, quer assistindo às festas que se vão realizando com os utentes.”
         
E a finalizar a nossa conversa, a D. Maria Isabel ainda nos revelou um dos seus talentos, ainda que fizesse questão de salientar que já não exerce essa aptidão:
         
“Tinha um dom natural para responsar. Sabe o que é isso? E sem esperar pela resposta foi logo explicando: “Quando alguém perdia algo de valor, mesmo que fosse só estimativo, vinha ter comigo para que eu lesse o responso, isto é, que através do meu dom pudesse saber se viria ou não a encontrar a peça perdida. E quando eu dizia para a pessoa acreditar que viria a encontrar o que perdera, isso era certo e sabido. Uma vez, houve uma pessoa que perdeu um objecto e o tempo ia passando sem que aparecesse. Eu continuava a dizer-lhe para ter esperança e a verdade é que, passado um ano, esse tal objecto apareceu."
         
Mas continua com esse dom?
         
“Sim, mas deixei de fazer isso porque era muito violento. Eu ficava cansada, sem forças e, portanto, desde há tempo que recusei definitivamente fazer esse procedimento.”
         
Obrigado, D. Maria Isabel pelo tempo que nos dispensou.

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P.S. – Aproveitamos a oportunidade para endereçar a todos os Utentes, Familiares, membros dos Órgãos Sociais, Funcionários(as), Colaboradores e a todos os nossos leitores os melhores votos de um Natal Feliz e Ano de 2019 sobretudo com saúde.

           
           



sexta-feira, 16 de novembro de 2018

OS NOSSOS UTENTES


MARCELINO JOAQUIM PEREIRA


            Curiosamente, ou talvez não, em meses consecutivos estivemos à conversa com os dois membros do casal Pereira. Em Outubro falámos com a D. Perpétua Maria Saiote Pereira e este mês com o seu marido, e nosso velho amigo, Marcelino Joaquim Pereira. Com 87 anos e casado há 44, o casal optou por não ter filhos, já pela idade com que casaram, já pelas condições de vida que, na altura, não eram muito favoráveis. Vamos ouvi-lo:

            “Nasci no Moinho da Pinta, que pertencia ao meu Pai, da antiga freguesia de S. Romão. Tive dois irmãos, infelizmente já falecidos. A minha infância foi a normal para a época. Na devida altura não frequentei a escola porque a mais próxima ficava em S. Mateus.”

            Mas sabe ler e escrever …

            “Através da cartilha de João de Deus aprendi as primeiras letras e depois, já em adulto, em aulas particulares aprofundei os meus conhecimentos. Em Rio Mourinho havia uma professora, de nome D. Rosária, que me deu algumas lições, me fez uns testes e concluiu que eu estava capaz de fazer os exames da 3ª classe e até da 4ª classe. É que, como tive sempre muita curiosidade e interesse em aprender, ia devorando todos os livros que apanhava à mão, quer fossem de história., de geografia ou outros. Aquela professora propôs-me aos exames e vim a Montemor, já tinha então quarenta e tal anos, submeter-me às provas necessárias. E foi o Professor Feliciano Oleiro que me examinou e me aprovou nos respectivos exames.”

            Mas voltemos atrás no tempo.

            “Com treze anos tive o meu primeiro trabalho a ganhar jorna. Foi com um machado a derrubar azinheiras, na herdade dos “Solteiros”. Depois serrava os troncos e carregava-os às costas até às carvoarias, onde se faziam os fornos que davam origem ao carvão. Fiz isto durante muitos anos, ainda que fosse também realizando praticamente todos os trabalhos agrícolas, até me reformar aos 65 anos.”

            E que recordações tem do seu tempo de juventude?

            “Quando era novo ia aos bailes campestres, uma vez que era raro o Sábado em que não havia funçanadas por esses montes fora. E como resultado disso, comecei a namorar cedo, mas só aos 18 anos tive autorização para ir falar com a rapariga, na casa dela. Sentávamo-nos cada um em sua cadeira, sob a vigilância apertada da mãe, que não nos perdia de vista sequer um minuto. A segunda namorada já foi a uma janela que me dava assim pelo peito e durou cerca de sete anos.”

            E foi-se ficando por aí ?

            “Não. Enquanto fui tropa, em Caçadores 5, em Lisboa, cheguei a namorar três ao mesmo tempo. Uma no Carrascal, outra que morava na Casa de Cantoneiros ali à Gouveia, e a outra no Moinho do Pisão. O curioso é que todas elas sabiam umas das outras e, mesmo assim, os namoros prolongaram-se até aos meus trinta anos.”

            E, por capricho do destino, não foi com nenhuma destas que acabou por casar…

            “Já havia algum tempo que eu andava de roda da Perpétua, mas esta só me aceitou namoro quando teve conhecimento de que eu já terminara com as outras. E depois acabámos por casar.”

            E, já casados …

            “Fomos morar para o Moinho da Pinta, que era do meu pai e onde eu nascera. Este moinho foi, em 1970, o último a deixar de laborar de entre os vários existentes naquela ribeira, que começava por alturas da Quinta da Torre e ia até S. Cristóvão, com um caudal que permitia a sua actividade.”

            E foram ficando por ali ?

            “Os dois trabalhando sempre na agricultura, passámos também pelo Monte da Regadia, pelo Reguengo, dali fomos para o Monte das Monas, Vale de Freira e, antes de “assentarmos praça” aqui no Abrigo, vivemos durante quinze anos na Quintinha à Saúde.
            Nos últimos anos antes de atingirmos a idade da reforma, trabalhámos na UCP Vasco Gonçalves. Aqui já eu exercia a função de escriturário que era, afinal, o que eu gostava de fazer.”

            E agora, enquanto residente nesta Instituição?

            “Ainda hoje gosto de ler, sobretudo jornais e revistas. Frequento o ginásio, jogo ao bingo, onde já tive a sorte de ser contemplado com um dos prémios em disputa, que consiste em rebuçados, bolachas ou sumos. Para além de nos divertir, serve para treinarmos a atenção. Como estamos aqui há pouco tempo, ainda não tivemos oportunidade de vivermos outras experiências, mas desde já reconheço que esta foi a melhor decisão que podíamos ter tomado.”


        Obrigado, amigo Marcelino, e que possam continuar, durante muitos anos, a viver juntos e com saúde.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

OS NOSSOS UTENTES

PERPÉTUA MARIA SAIOTE PEREIRA


         Considera que o Pai foi um homem com ideias avançadas para a sua época, tendo especialmente em conta a forma como era comum naquele tempo, e especialmente nas zonas rurais, por questões económicas e outras, não se considerar como necessária a frequência escolar, sobretudo para as raparigas. E inicia a sua história:

         “Nasci no dia 24 de Abril de 1939 no Monte da Gamela, numa família de nove irmãos. O meu pai era o responsável, feitor ou como lhe queiramos chamar, da herdade com o mesmo nome, pertencente à família Alves.”

         E como era então a vossa vida?

         “Como a minha mãe não podia ir para a jorna, uma vez que tinha uma enorme casa de família para governar, ia sempre que possível para um pedaço de terra, que nos era cedido pelo patrão, apanhar azeitona de um pequeno olival onde os filhos também ajudavam na proporção das suas capacidades. Dali tirávamos o azeite com que nos íamos governando o ano inteiro.”

         Mas não era só com esse rendimento que se governavam…

         “O meu pai era aquilo a que se chamava concertado, isto é, não auferia qualquer ordenado. A sua remuneração traduzia-se na concessão anual de um povilhal (ou pegulhal) de cinco porcos e mais dez sacos de farinha, com a qual fazíamos o pão. Para além disso, como tínhamos uma hortazita, dali tirávamos as hortaliças para a alimentação. Íamos aviar-nos a uma mercearia do sr. António Mira, no Monte das Caeiras. Trazíamos poucas porções de cada vez, fiadas, e quando o meu pai vendia uns ovos, a criação ou qualquer outro produto produzido na horta, ia satisfazer as suas dívidas.”

         Falou há momentos do seu pai e do que ainda hoje pensa dele. Quer especificar?

         “Só mais tarde me apercebi que realmente o meu pai tinha umas ideias que naquele tempo não eram comuns. Sempre quis que os filhos tivessem instrução. Então, pensou criar para todas as crianças daquela zona um local que pudesse ser adaptado a escola. Ali perto, em Rio Mourinho havia uma casa que estava devoluta e, não sei como, conseguiu transformá-la em sala de aulas. Também ainda hoje não sei por que artes, arranjou carteiras, secretária para professora e o quadro preto. Chegaram a frequentar a improvisada escola mais de duas dezenas de crianças. E não iam mais porque, como se sabe, havia ainda quem pensasse que saber ler não fazia falta a ninguém. Todos os meus irmãos andaram na escola, com excepção dos dois mais velhos que só aprenderam a ler e a escrever já depois de adultos. Era nossa professora a D. Maria Cristina Simão, filha de um GNR e que vivia em Montemor na Rua de Aviz.”

         E até onde chegaram os seus estudos?

         “Fiz apenas a 3ª classe porque, entretanto, tinha chegado a altura de começar a trabalhar. E a partir dos 12/13 anos iniciei-me nos trabalhos agrícolas, que só terminei com a reforma.”

         E como viveu a sua juventude?

         “Na Gamela havia um celeiro, espaçoso, onde nos era permitido fazer bailes nos dias tradicionais, ainda que sob a vigilância do meu pai, que ao menor sinal de desordem ou brincadeira exagerada acabava com a função. Divertíamo-nos mas com regras. E juntávamos ali muita juventude, com harmónios, concertinas e alegria.”

         Foi também a altura de começar o namorico…

         Com cerca de vinte anos comecei a receber umas cartas de um rapaz que era meu companheiro de trabalho. Abria, lia e guardava, mas sem lhe responder. Havia um motivo forte para eu proceder assim aos seus apelos românticos. É que a minha mãe tinha falecido e eu, como a mais velha ainda solteira, tive de me dedicar à casa, ao meu pai e aos meus irmãos mais novos.”

         Mas essa situação acabou por se resolver…

         Um dia, vinha eu com a minha irmã mais nova, encontrei o tal rapaz, de nome Marcelino Joaquim Pereira. Falámos, eu voltei a explicar-lhe que não podia abandonar o meu pai e os meus irmãos. Nesse dia ficámos por ali mas, mais tarde, tinha eu 34 anos, acabámos por nos juntar e vir morar para o mesmo monte dos meus sogros. Mas o meu pai não via com bons olhos o facto de eu não estar oficialmente casada. E um dia disse-me que gostava de ver a situação legalizada e que seria ele próprio o padrinho do casamento. E assim foi.

         E assim se iam passando os dias, semanas, meses …

         “Por esta altura já só estava em casa, solteira, a minha irmã mais nova que ficou a viver com o meu pai. No entanto, rara era a semana em que eu não os ia visitar. Mas o meu pai faleceu e a minha irmã, que ainda viveu comigo uns meses, acabou também por casar.”

         Estávamos a chegar ao fim da nossa conversa, mas ainda assim a D. Perpétua acrescentou:

         “Já casada, continuámos os dois a trabalhar, mais ou menos sempre juntos, cada qual na sua tarefa, já se vê. E os anos foram passando e eles por nós. Já reformados, viemos viver para uma quintinha, à Saúde, mesmo junto a Montemor. Mas a idade não perdoa e os problemas de saúde começaram a manifestar-se mais duramente. Primeiro, em 2011, começámos a usufruir do “Apoio Domiciliário” por parte do Abrigo, até que em Agosto deste ano de 2018 entrámos como residentes.”

         E como vai passando os seus dias?

         Para além do tempo em que estou com o meu marido, tenho a sorte de ter vindo encontrar aqui muitas pessoas minhas conhecidas, com algumas das quais até trabalhei, pelo que vou falando com esta e com aquela, o que me permite ocupar o tempo. E quando tiver as minhas coisas todas arrumadas vou começar a frequentar o ginásio. E depois logo se vê.”

         D. Perpétua, que se vá sentindo bem junto do seu Marcelino, são os nossos melhores votos.