sexta-feira, 5 de julho de 2013

OS NOSSOS UTENTES


JOSÉ GIL ÁGUIA



Se se perguntar a um grupo de pessoas se conhece o sr. José Gil Águia, provavelmente a maioria não associa o nome ao seu titular. Porém, bastará recorrer-se à sua alcunha para de imediato surgir a identificação. Pois é exactamente o bem conhecido ZÉ GRANDE que hoje trazemos à nossa página.



Sem se fazer rogado, procede de imediato à sua apresentação:

 “Nasci há 76 anos, em 1937, nos Foros de Vale Figueira e sou casado com Esmeralda Maurício Courelinhas Águia. Nesta freguesia do nosso concelho vivi até aos 8 anos, idade em que foi para a “Calha do Grou”, propriedade da família Cunhal, como ajuda das cabras, onde o meu pai era o moiral. Nos Foros apenas andei e completei a primeira classe da instrução primária, nunca mais tendo voltado a frequentar a escola. No entanto, faço questão de salientar que nesse primeiro e único ano tive uma excelente professora, que me ensinou a ler e a escrever. Chamava-se Fraternidade Eva da Póvoa, que viria a ser cunhada do muito estimado Professor Feliciano Oleiro, cuja esposa se chamava Maria Joaquina e que eu também conheci.”


Sabido o seu percurso durante esta primeira fase da vida, o nosso amigo José Gil continuou:

 “Até aos 14 anos fui ajuda do meu pai, altura em que pedi ao feitor, sr. José Barreto, para me colocar em molheiro, que consistia em dar molhos, de cortiça, feno ou palha, aos carreiros. Trabalhei nas herdades da “Calha do Grou”, “Freixo do Meio”,” Amoreira” e noutras propriedades da mesma família Cunhal. Claro que também exerci outras funções: ceifei, gadanhei e até trabalhei em máquinas fixas, às ordens do mestre Filipe Água-Mel.

Aos 22 anos fui trabalhar para o Engº Malta da Costa, como cabreiro, no “Barrocal das Freiras” e “Vale de Carvalhos”. Aqui conheci aquela que viria a ser a minha mulher, então ajudante da mãe, que desempenhava as funções de manteeira. E em 1960 juntámo-nos, como era frequente, e só anos mais tarde legalizámos a situação."


Nova volta na sua vida:

 “Como os negócios não corriam bem para o meu anterior patrão,  fiquei como empregado do sr. João Inácio Freixo, na herdade de “Vale de Carvalhos”, na função de maioral das cabras.

Teria então 28 anos regressei à casa agrícola da família Cunhal. Continuei como cabreiro e depois passei a pastor, com a responsabilidade de um rebanho superior a 300 ovelhas.”


Deu-se então o que viria a ser o princípio de um novo rumo:

“Em 1970, já o meu único filho tinha quatro anos, resolvi emigrar. Fui para Inglaterra, tendo estado em Londres durante 4 anos, a trabalhar num restaurante. Finalmente, em 1974 decidi regressar. Comprei uma taberna no edifício pertencente ao sr. Alfredo Mineiro, ali no nº 8 da Rua do Espírito Santo e por lá me mantive durante 38 anos.”



O seu estabelecimento era conhecido sobretudo pelas codornizes que ali preparava:

 “É verdade. As codornizes eram realmente a especialidade da minha mulher, mas também servíamos outros petiscos igualmente apreciados: iscas, peixe frito, miudezas fritas e grelhadas, sardinhas assadas, bifanas, carne grelhada, etc."


Esta taberna possuía ainda uma outra particularidade que despertava a atenção e a cobiça de quem por ali passava: numa das janelas estava sempre exposto um vaso com bem tratados e vistosos piripiris, que encantavam os transeuntes.

“Confirmo. Aliás, esses piripiris, além dos que mantinha noutros locais, eram depois utilizados na confecção das codornizes, e noutros pratos que a minha mulher, belíssima cozinheira, preparava regularmente.”


Quem esteve durante tantos anos ao balcão de um estabelecimento deste género, certamente que viveu e presenciou muitos episódios:

“Agora, assim de momento, não me recordo de nenhum em especial, mas confirmo que assisti a muitas zaragatas e discussões, originadas sempre por uma pinguita a mais dos intervenientes. Tomei conhecimento de muitas histórias, umas que me eram contadas directamente e outras resultantes de conversas dos clientes entre si. Mas a minha boca nunca se abriu para revelar o que ouvia”. 


Entretanto, o nosso amigo José Gil lembrou-se de um episódio deveras curioso:

"Saiba que fui assaltado uma meia dúzia de vezes. E uma delas, em pleno dia, aproveitando uma pequena ausência em que fui cortar o cabelo ao do sr. José Mira. Como era por pouco tempo, não coloquei o cadeado na porta, ficando esta apenas no trinco. Aproveitando essa circunstância, entraram e levaram-me o dinheiro que lá tinha. Mas o mais interessante é que foi o próprio pai do assaltante que veio ter comigo a dizer-me que o filho tinha sido o autor do roubo. Mais: informou-me do local onde ele poderia ser encontrado, em Évora. Fiz as necessárias diligências, o rapaz foi apanhado e acabou por me pagar o valor do roubo em suaves prestações.”


Outra particularidade de referir é o facto de entrarem na taberna pessoas que passavam, olhavam lá para dentro e solicitavam autorização para fotografar o interior. O que despertava a atenção?

“Eu tinha sempre as prateleiras bem arranjadas, com toda a qualidade de garrafas de bebida. Tinha também muitos quadros com fotografias nas paredes, de personalidades conhecidas, e isso provocava admiração em quem passava, sobretudo forasteiros. Tinha, por exemplo, entre muitas outras, fotografias do famoso embolador Martinho Miguéns e dos mestres cavaleiros tauromáquicos Simão da Veiga e sobrinho Luís Miguel da Veiga.”


O Sr. José Águia está no Abrigo há um ano e a esposa há mais de dois. Diz que é muito bem tratado e não tem a menor razão de queixa de quem quer que seja.

Obrigado amigo José. Foi um prazer falar consigo! 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

ABRIGO DOS VELHOS TRABALHADORES



MAIS UM ANIVERSÁRIO


No dia 13 de Junho, a Associação Protectora do Abrigo dos Velhos Trabalhadores de Montemor-o-Novo comemorou mais um aniversário, o 46º, para sermos mais precisos.



Antes de fazermos um relato sucinto da festa que assinalou o evento, devemos desde já esclarecer que estes 46 anos referem-se apenas à data da inauguração do edifício onde ainda hoje se encontra, conhecendo, evidentemente, no decurso deste tempo, substanciais obras de ampliação e de adaptação aos novos conceitos e regras exigidos a este tipo de associação. E porquê esta advertência? Porque a actual Associação veio substituir, e continuar, o Asilo de Mendicidade Montemorense, fundado em 1 de Janeiro de 1914. Isto significa que estamos a pouco mais de seis meses de se celebrar o centenário da instituição.

Mas esperemos serenamente, porque, por essa altura, ficaremos então a saber em pormenor toda a história desde o seu início. Como? Através de um livro, da autoria da Dra. Teresa Fonseca, a ser lançado em data que atempadamente divulgaremos. O rigor que coloca em todas as suas pesquisas e a qualidade e clareza dos seus trabalhos são garantia segura de que estaremos perante mais uma obra notável da brilhante historiadora que já é montemorense por adopção.
Vamos, portanto, e por agora, contar o que foi a festa.

Claro que a preparação começou dias antes, com as utentes a fazerem as flores de papel que viriam a embelezar o excelente espaço nascido com as obras que há uns meses se vinham a efectuar no Abrigo e que, finalmente, estão concluídas. Ufa!


Quando pouco depois das 15 horas começaram a chegar os convidados, já todo o espaço se encontrava engalanado e as mesas preparadas para receber utentes, familiares e visitas. E desde logo chamou a atenção um porco que dois especialistas faziam girar no espeto, borrifando o animal com os molhos que só eles conhecem e cujo aroma ia despertando o apetite à medida que o churrasco avançava. 
Mas não era só:os infatigáveis António Joaquim Falcão, Manuel Aldinhas Santos e Rui Pedras Alvas começavam os preparativos para a sardinhada que iria constituir o prato de entrada. Do lanche ajantarado, acompanhado de sumos, águas, vinho e sangria, a história apenas dirá que todos lhe prestaram a devida homenagem.


Entremos, então, no relato das cerimónias oficiais (que as há sempre) e dos espectáculos.

Como já é uma tradição da casa, o animador cultural José Manuel Brejo, tendo como assistente de encenação e co-autora do texto a talentosa Maria do Céu Mestrinho, levou à cena uma espécie de peça que arrancou fartas gargalhadas da assistência e com a qual se pretendeu, e conseguiu, caricaturar os elementos directivos do Abrigo durante uma suposta reunião. Foram discutidas hipotéticas situações, votadas sugestões e decididas soluções. Durante a abordagem dos vários assuntos em agenda foram retratados (de forma excessiva, como se exige de uma boa caricatura) os cinco membros da Direcção, colocando em evidente exagero as características particulares de cada um. Houve momentos de grande humor, revelando claramente o respeitoso à-vontade e espírito de amizade que se vive dentro da Instituição. 



Foram intérpretes desta farsa os seguintes utentes: Leopoldo Gomes, que continua a revelar a sua enorme experiência, (no papel de Joaquim Batalha, presidente); José Grulha (vice-presidente Henrique Carvalho); Fabiana Santanita (tesoureira Florinda Martins); Joaquim Martinho dos Santos (vogal António Vedorias); Joaquina Linguiça (secretária Josefina Nifra); Maria Narcisa Ferreira (Gertrudes Caralinda, da limpeza); Joaquina Maria (Ana Cacilhas, da limpeza); Rosária Maria Baixo (Justina Alface, escriturária); Angélica Ferro (Susana Mendes); João Manuel Pinto (Heliodoro Arranja, auxiliar de motorista); António José Lopes (Custódio Varela, motorista) e César Arraiolos (Carlos Maltez, motorista).  
     


Logo depois seguiram-se os discursos. Primeiro foi o presidente da Associação – Joaquim Manuel Batalha – que lembrou o que foi o último ano, marcado especialmente pelas obras de ampliação e beneficiação da sede, lembrou as dificuldades que têm sido vencidas mas que se avolumam de dia para dia, mas salientou o papel fundamental desempenhado por todos quantos, ao longo do tempo, têm tornado possível esta realidade de que todos nos orgulhamos. Agradeceu a todos os colaboradores e colaboradoras, aos incansáveis voluntários que a esta causa se têm dedicado, à Câmara Municipal, Juntas de Freguesia, e outras Instituições, Empresas e Particulares que sempre colaboraram com o Abrigo, inclusivamente hoje mesmo, ajudando a tornar possível esta confraternização.



Seguiram-se os presidentes das Juntas de Freguesia de N. Sra. da Vila e N. Sra. do Bispo, respectivamente António José Danado e Vitalina Roque Sofio, e o vice-presidente da Câmara Municipal, João Manuel Marques.



No final das intervenções assistiu-se a um acto de grande significado. Tratou-se da assinatura de um protocolo entre o Abrigo e a Edilidade montemorense, através do qual a Câmara irá assumir o valor não comparticipado num projecto já aprovado pelo PRODER e que tem por finalidade permitir a aquisição de equipamentos para as três valências (ou resposta sociais): Lar, Centro de Dia e Apoio Domiciliário. É de salientar esta formalidade, pela importância de que se reveste.

Ainda no palco, o José Manuel e a Maria do Céu cantaram o Hino do Abrigo, a que se associaram os presentes.



Por esta altura já as sardinhas, no pão ou no prato, deliciavam os amantes deste saboroso pitéu. E satisfeito este primeiro apetite surgiram as travessas com pedaços do churrasco de porco, tendo os convivas continuado a prestar homenagem à mesa.

Cerca das 18,30 chegou o sempre esperado bolo de velas. Cantaram-se em coro afinado os parabéns e procedeu-se à distribuição por todos os convivas.
 

Por volta das 19 horas e já com os estômagos bem aconchegados nova mudança de cenário. Ainda que, pelo menos entre as utentes, não se saiba que estivessem ali meninas casadoiras a implorar graças ao Santo António, as marchas desfilaram no recinto com arquinhos floridos e empunhados por muitos dos utentes do Abrigo. 



A seguir dançou-se ao som da música de Eduardo Panóias que, aliás, também animou toda a tarde.

Mas a festa ainda estava para durar. Já passava das 20 horas quando surgiu o Rancho Folclórico e Etnográfico Montemorense, que se exibiu à altura dos seus pergaminhos. Inclusivameente, em determinado momento da sua actuação, foram convidados a juntar-se ao grupo, recordando tempos passados, alguns antigos membros do Rancho que ali estavam presentes. A maioria acedeu e não deixou os seus méritos por pés alheios. Até o nosso Joaquim Manuel Batalha parecia estar agora no melhor momento da sua forma.

O Rancho despediu-se, mas o baile continuou!...

Parabéns e até à próxima.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

OS NOSSOS UTENTES



MARIA OCTÁVIA PEREIRA
Admirável lucidez!

No Abrigo desde Junho de 2005, a nossa entrevistada deste mês tem dois grandes desgostos na vida: perdeu o marido há 7 anos e sofre actualmente de graves problemas de visão que a impedem de ler e de exercer outras actividades que a ajudariam a suportar melhor os seus dias.



Nasci em Novembro de 1923, pelo que irei completar 90 anos dentro de alguns meses. Sou a mais velha de 10 irmãos (5 rapazes e 5 raparigas) dos quais seis ainda estão vivos. Vim ao mundo numa casa da Travessa da Adega Funda, mas depois vivi noutros locais.

E explica porquê:

O meu pai era moleiro e, por isso, andámos por vários sítios do concelho onde podia desempenhar a sua arte. Recordo-me de vivermos em S. Geraldo, no Moinho do Porto da Estaca de Baixo (S. Cristóvão), e no Moinho Novo, da família Ananil, perto do Monte da Borracha aqui no Almansor. O meu pai esteve também mais tarde a trabalhar nos celeiros da antiga Federação Nacional dos Produtores de Trigo, lá em baixo junto à Estação do Caminho de Ferro.

Já na zona urbana, mas ainda em solteira, morou na Frontaria do Rossio, actualmente Largo Banha de Andrade, na Rua de Avis e finalmente na Ruinha.

A minha infância e juventude foram iguais a tantas outras. Andei à escola até à terceira classe. De salientar que o meu pai, sendo analfabeto, não quis, por isso mesmo, deixar de dar a todos os filhos a oportunidade de aprenderem a ler e a escrever. De resto, andei à azeitona, na monda e aprendi a costurar. Nesta arte, trabalhava em casa, à tarefa, e a minha especialidade eram os casacos de homem.

Vamos então virar a página e entrar noutro capítulo desta história da sua vida:

Tinha 24 anos quando comecei a namorar o que viria a ser meu marido e namorámos durante 17, pelo que já tinha 41 anos quando juntámos os trapinhos, num dia 27 de Agosto. Residimos primeiro na Rua Condessa de Valenças e depois na Rua das Ricas. O meu marido, Joaquim Poças de seu nome, era pedreiro e bastante conhecido, especialmente junto dos pescadores desportivos. Quase toda a gente o tratava por “Mestre”. Com a doença, que o foi destruindo aos poucos, e porque o destino não quis que tivéssemos filhos, não tivemos outra alternativa que não fosse virmos para o Abrigo. Infelizmente só cá esteve dois meses.

Regressemos a outros tempos mais felizes:

Sempre gostei de cantar, mas só no ambiente da família. E também na minha juventude gostava de dançar, mas como morávamos no campo poucas hipóteses tinha de ir a bailes, tanto mais que os meus irmãos não mostravam interesse em me acompanhar.

Apesar de se queixar de falta de memória, esse facto é completamente desmentido quando começa a evocar versos da sua juventude. Aqui oferecemos aos nossos leitores um poema curioso que reflecte particularidades da alma humana e que, segundo nos diz, fazia parte do seu livro de leitura da 3ª classe:

Em certa aldeia indigente,
Isto em tempos já passados,
Viviam muito santamente
Dois velhinhos bem casados.

A mulher e o companheiro
Diziam juntos os dois:
Se tu morreres primeiro,
Morrerei logo depois.

E num coro afectuoso,
Ambos diziam ali:
Eu só peço a Deus bondoso
Que me leve antes de ti.

E nisto uma pancada forte
Na porta se fez ouvir.
Quem é? E responde a morte:
Quero entrar, venham abrir.

Diacho, diz o marido,
Como há-de isto agora ser?
Tenho aqui um pé dorido,
Vai lá tu abrir, mulher.

Mas ela logo se queixa:
Valha-me Nosso Senhor,
Este flato não me deixa.
Vai lá tu, fazes favor.

E então a morte enfadada
Investiu pelo postigo
E entrando assim na pousada                  
Levou os velhos consigo!

Votos de boa saúde, D. Maria Octávia! Foi um gosto falar com a Senhora!
                       

segunda-feira, 22 de abril de 2013

OS NOSSOS UTENTES



LEOPOLDO JOSÉ GOMES
Um cidadão exemplar



A nossa figura deste mês é de tal forma uma inesgotável fonte de informação, de conhecimento e de recordações que se torna impossível desvendar e descrever neste espaço obrigatoriamente limitado.

Corria o mês de Dezembro de 1926 quando Montemor o viu nascer, tendo depois acompanhado o seu crescimento e toda a sua vida até hoje. Pautando desde tenra idade a sua conduta pelos elevados padrões de uma vida simples e honesta, que haveria de o caracterizar ao longo da vida, o nosso amigo LEOPOLDO JOSÉ GOMES é, sem receio de desmentido, porque o conheço e sou seu amigo há mais de cinquenta anos, um homem bom que nunca precisou de se colocar em bicos de pés para conquistar, com naturalidade, a admiração e o carinho que lhe dispensam todos quantos têm tido o privilégio de com ele conviver de perto.
Gráfico de profissão, outros e variados interesses lhe despertaram o sentido de cidadania, dando o melhor do seu esforço no sentido de contribuir para obras de solidariedade social. Esteve quase sempre ligado a iniciativas de índole cultural que durante muitos anos se realizaram em Montemor, terra que foi o seu berço e que continua a adorar.

O Leopoldo foi músico, amador teatral (e ainda é, quando aqui no Abrigo dele necessitam), continua a manter uma colaboração regular, iniciada há cerca de sessenta anos, no jornal “O Montemorense” e manifesta-se disponível para colaborar em qualquer actividade em que possa ser útil.

Mas deixemo-lo então sintetizar a sua história:

Tenho 86 anos e sou o mais velho de nove irmãos, felizmente ainda todos vivos. Comecei a trabalhar com 13 anos na Tipografia Santos, ali na Rua de D. Vasco, onde se compunha o jornal “A Folha do Sul”, fundado em Agosto de 1897. Estive aqui mais de um ano e, curiosamente, era onde me encontrava quando foi o ciclone, em 15 de Fevereiro de 1941. Numa época de Verão, incluído num grupo de outros rapazes, andei pelas ruas a raspar ervas, por conta da Câmara. Ganhava não sei se quinze se vinte e cinco tostões por dia.”

Começou então uma nova fase da sua vida: “O meu pai faleceu quando eu tinha 17 anos. E se já antes não era fácil governar uma casa numerosa, mais dificuldades surgiram a partir daí. E, como irmão mais velho, recairam sobre mim acrescidas responsabilidades. Logo depois comecei a trabalhar na Tipografia União, onde estive 56 anos, primeiro como aprendiz e mais tarde como gerente. Nesses meus primeiros tempos de gráfico, a oficina situava-se na que é hoje a Rua Capitão Pires da Cruz, perto do Rádio Cine. Era ali que se compunha a primeira edição de “O Montemorense”, semanário fundado pelo proprietário da tipografia, Tomé Adelino Vidigal, e por Jaime Ernesto dos Reis. Estava então longe de imaginar que, anos mais tarde, Tomé Adelino Vidigal, meu patrão, viria a ser também meu sogro.”

A Música …


Alguns anos depois a tipografia mudou-se para as novas instalações na Rua do Pedrão. E prossegue a narrativa:

“Não foram fáceis aqueles tempos, pelo que havia que deitar mão a outros trabalhos que me proporcionassem mais alguns proveitos a fim de ajudar a economia doméstica. Fui, por exemplo, bilheteiro do Rádio Cine, onde mais tarde também haveria de ser gerente, e músico de uma orquestra que formámos na Carlista e com a qual íamos ganhando algum dinheirito, fazendo bailes por aqui e por ali.”

A propósito e na sequência da conversa revelou: “Fui durante vários anos músico da Banda Filarmónica da Sociedade Carlista e, curiosamente, fiz a minha estreia num concerto realizado em Lisboa num pavilhão da “Exposição do Mundo Português”, em Outubro de 1940, sob a batuta do maestro Pires da Cruz.”

Mas a sua actividade musical não se ficou por aqui: “Integrei o Conjunto “Pinto de Sá”, que gozava de um grande prestígio na época. Tocava saxofone e bateria e dele faziam ainda parte, para além do maestro António Pinto de Sá ao piano, o Abílio Delca, que foi um dos melhores músicos que conheci, e que passou, por diversas circunstâncias, ao lado de uma grande carreira internacional. Tocava indiferentemente viola, saxofone e bateria. Faziam ainda parte o acordeonista Joaquim Raposo, o Francisco Salgueiro no violino e contra-baixo e, ainda, o Manuel Justino Ferreira, guitarrista, apresentador, animador e vocalista.


… O Teatro …


O teatro amador também marcou indelevelmente a vida do Leopoldo desde a juventude: “Comecei a representar na Carlista, tendo como encenadores, entre outros, Francisco José Mareco e José Maria Barros. Um dos grandes êxitos, de que ainda hoje me recordo, e de que me orgulho de ter feito parte, foi a peça “Os Vizinhos do Rés-do-Chão”, interpretada também por Francisco Mareco, Alexandre Figueiredo, Emílio Macedo, Manuel Justino, Gracinda Coimbra, Angelina Várzea da Conceição, Estela Gomes, Maria Eugénia Rosado, Joana Maria Caeiro, Maria Custódia Gião e Cristina Maria Rosado. Para além de termos actuado inclusivamente no Rádio Cine, levámos este espectáculo a outras localidades da região.
Em 1950 estreámos “O Perdão”, da autoria do Manuel Justino Ferreira.

Mas não ficou por aqui: “Houve uma fase, também muito dinâmica, dos espectáculos teatrais a favor do Hospital Infantil de S. João de Deus, encenados pelos saudosos Padre David e Prof. Manuel Balbino. Percorremos, com diversos espectáculos, várias localidades alentejanas.

Veio depois um período fecundo do Grupo de Teatro da Pedrista, do qual, naturalmente, também fiz parte. Relembro alguns: No Carnaval de 1955 representámos a opereta “A Tassca”, escrita por Carlos Cebola e Manuel Justino (Karl Osce Bollah e Emanué Justinovsky), antecedida de um “Auto de Carnaval”. Estive em palco, nas duas peças, com excelentes colegas: Ernesto Pinto Ângelo, Abílio Delca, Luís Mira, Emílio Macedo, Francisco Santos e Martinho Delca. Sobretudo com os excelentes textos do Prof. Carlos Cebola e encenações do Prof. Balbino, conhecemos depois muitos outros sucessos: “Três Tardes de Três Outonos”, “A Cigarra e a Formiga”, ”João Cidade” e  a opereta “O Barbeiro de… Patilha” foram alguns dos títulos que permitiram actuações brilhantes a artistas que nesta época áurea pontificavam naquela colectividade montemorense: Abílio Delca, José Gastão Fialho Ferro, Manuel Justino, Emílio Macedo, Rosa Maria Marques e muitos outros. Tive a felicidade de fazer parte deste núcleo que animava os serões culturais de então.”


… e o que mais adiante se verá !


De repente, o nosso amigo Leopoldo ainda estendeu as suas recordações a outra faceta da sua actividade cultural e artística:

Em 1947 integrei o grupo fundador da Biblioteca da Carlista, obra que na época constituiu um marco importante na vida da colectividade.

No início dos anos 50, realizaram-se umas marchas, por ocasião dos Santos Populares. Eram quatro os conjuntos que desfilaram pelas ruas da então vila e prolongaram as suas actuações no Jardim Público, que se encheu de uma multidão entusiasta que adquiriu com agrado os seus ingressos, até porque a receira revertia a favor do Hospital Infantil de S. João de Deus. Os bilhetes, depositados em caixas preparadas para o efeito, serviam ainda para eleger a melhor marcha. Não interessa quem ganhou, porque todas foram antecipadamente vencedoras. Eram elas: “Marcha de S. João de Deus”, ensaiada pelo Padre David; “Marcha do Castelo”, preparada pelo Prof. Manuel Balbino; “Marcha de S. Mateus”, da responsabilidade de Manuel Justino; “ Marcha da Rua Nova”,  que eu próprio orientei.”

Mas se quem nos lê pensa que ficam por aqui as actividades do nosso Leopoldo, desengane-se: “Na década de 50 fui correspondente da secção desportiva do jornal nacional “O Século”, escrevendo crónicas e outros elementos respeitantes ao Grupo União Sport nas épocas áureas em que esteve a um passo de subir à primeira divisão nacional.”

Mais: “Fiz parte da equipa inicial da “Rádio Almansor”, que começou com um estúdio junto à ermida da Sra. da Visitação e depois passou para a sede do União. Tive sob a minha direcção e responsabilidade o programa “Montemor é Praça Cheia” que, como o nome sugere, abordava temas ligados à tauromaquia.”

Estou certo de que se dispuséssemos de mais espaço, a conversa não teria ainda ficado por aqui. Dizia-nos o Leopoldo, quando nos sentámos, que pouco teria a dizer porque a sua memória já o atraiçoava. O que está escrito desmente os seus receios. Tudo o que acabaram de ler foi-nos relatado sem preparação prévia e sem recurso a apontamentos de qualquer género. Afinal, que boa memória que ele tem!

O Leopoldo Gomes está no Abrigo, como utente do “Centro de Dia”, desde Novembro de 2012. Diz que é bem tratado, que não tem nada a apontar, que para além de respeitar os horários das refeições tem absoluta autonomia, podendo sair para dar os seus passeios sempre que o desejar. Confessa no entanto, com uma indisfarçável ponta de tristeza, que se sente só. Falta-lhe a companhia e o convívio dos seus amigos de sempre. É natural, ainda que tenha de ter presente que, infelizmente, alguns deles não voltam mais.
 
Este será, talvez, o problema maior de quem está nas mesmas condições. De entre tanta gente que se encontra num mesmo espaço físico, quer seja neste ou noutro local qualquer, são poucos os que encontram alguém com quem partilhar os mesmos interesses, os mesmos ideais, semelhantes experiências de vida, porque cada pessoa tem a sua personalidade, a sua sensibilidade, fez o seu percurso, conheceu outras realidades, viveu durante décadas num círculo muito próprio e pessoal, num mundo que foi construindo e consolidando à sua maneira e agora vê-se perante um ambiente não hostil mas simplesmente diferente.

Mas o Leopoldo, com a ajuda dos seus familiares e dos muitos amigos que ainda possui, não pode deixar-se abater. Isso é próprio dos fracos e ele já demonstrou que consegue ir buscar forças mesmo nas situações mais adversas. E nos últimos anos conheceu duas bem difíceis.

Vamos, Leopoldo, porque mesmo aqui, no Abrigo, ainda terá oportunidades para desempenhar os papéis principais.

Um abraço de amizade.