quarta-feira, 20 de março de 2013

OS NOSSOS UTENTES



MARIA FLORINDA CÁGADO
Um exemplo a seguir

A nossa “conversada” deste mês tem 79 anos, casou com José Manuel Azinheirinha já lá vão 55 e deste enlace nasceu um filho que lhes deu dois netos.


“Nasci perto da estação do Paião. A minha infância foi como a da maioria das crianças de então que viviam no campo. Apenas frequentei a primeira classe na Escola Primária de S. Mateus. Éramos sete irmãos e, quando tinha uns nove  anos, os meus pais necessitaram de mim em casa para cuidar e zelar pelos mais pequenos, uma vez que a vida era difícil e a minha mãe também tinha de ir trabalhar para ajudar ao sustento da família.”

Até aqui, a história da D. Maria Florinda é igual a tantas outras. O que difere é que esse pouco tempo de escolaridade despertou-lhe o desejo de aprender mais do que o simples conhecer os números, aprender as primeiras letras, de as juntar nas palavras mais simples ou fazer pequenas operações de somar.

 “É verdade”, confirma. “Nesse ano de escola fiquei com uma luzes e, sobretudo, com a vontade de aprender mais. Em casa, o meu pai foi-me ensinando o que sabia e avancei nos meus conhecimentos. Em rapariga, e na altura devida, comecei a namorar com o que ainda hoje é o meu marido. O tempo foi decorrendo e, entretanto, ele foi para a tropa, pelo que o namoro era só por carta, porque a vinda à terra não era tão fácil como é hoje. Depois, para agravar ainda mais a situação, foi mobilizado para a Índia, onde esteve dois anos. E então, era só mesmo por carta.”

E a D. Maria Florinda recorda passagens desses tempos: “Como eu dava muitos erros, fazia uns rascunhos como que se estivesse a escrever a um irmão e dava-o a corrigir ao meu pai. Ele lá ia emendando aqui e ali, dizendo-me onde estavam os erros e depois eu passava a limpo. Claro que quando escrevia aquelas coisas que só se escrevem ao namorado, eu corria o risco de as cartas irem com erros, mas ele perdoava.”

Sobre a sua actividade ao longo dos anos, diz-nos: “Em solteira trabalhei na agricultura e servi nalgumas casas como empregada doméstica. Depois de casada apenas fiz trabalhos do campo. O meu marido foi guarda-florestal e mais tarde cantoneiro, onde se reformou como capataz”.

O casal está no Abrigo há 9 anos, sensivelmente um ano no “Centro de Dia” e os últimos oito como residente:
 “Depois de ter deixado de ser dirigente do Abrigo, a D. Vitalina Roque Sofio, como é professora, prestou-se durante algum tempo, a dar aulas nas suas horas livres a quem quisesse aprender mais. Claro que aproveitei e aprendi muito. Também a D. Alda Falcão deu, e continua a dar, o mesmo tipo de aulas. Porém, e com grande pena, só eu e outra pessoa é que aproveitamos essa oportunidade. Lamento que haja pouco interesse por parte dos meus colegas, que nem sequer sonham o bem que lhes fazia saber ler. Sei pouco, mas reconheço que quem nada sabe é praticamente como ser cego, porque não tem acesso a tantas coisas que os livros nos ensinam.”

E é já com o entusiasmo estampado no rosto que a nossa entrevistada nos revela: “Calcule que até já sei escrever no computador e utilizar a internet em coisas simples. Estas aulas a que me referi abriram-me os horizontes e o gosto pela leitura. Periodicamente, mais ou menos de dois em dois meses, vem aqui uma equipa da Biblioteca Municipal trazer livros que nós podemos requisitar para ler. Normalmente fico sempre com cinco ou seis, que vou lendo até à visita seguinte. Interesso-me principalmente por livros de história, geografia, ciências naturais e romances históricos. Tenho aprendido tantas coisas que nem sequer imaginava que existissem. Adoro ler.”

Também como é tradicional, a D. Maria Florinda recordou-nos duas quadras que cantava nos seus tempos de menina e moça:

Fui ao jardim às flores,
Logo disse o jardineiro:
Não há flor como a rosa
Nem amor como o primeiro.

Fiz uma jura no trigo
Outro no pé da roseira:
Ou hei-de casar contigo
Ou hei-de morrer solteira.

Mas quis também mostrar os seus dotes de poetisa. Contou-nos que, aqui há tempo, andava com o marido a dar um passeio pela horta do Abrigo quando, inspirada pelo que ia observando, foi fazendo de improviso as seguintes quadras:

Não olhes para a nogueira
                        Que ela nozes tem só duas,
                        Olha aqui para o meu peito
                        Que está cheio d’ofensas tuas.

                        Semeei salsa aos molhinhos
                        Hortelã na outra banda,
                        P’ra lograr os teus carinhos
                        Tenho que andar em demanda.

                        Tudo quanto é verde acaba
                        Em vindo o calor do Verão,
                        Só as penas reverdecem
                        Junto do meu coração.

                        A oliveira esgalhada
                        Sempre parece oliveira
                        Mulher bonita e casada
                        Sempre parece solteira.

                        A flor da fava é branca
E depois faz-se amarela
Minha carta já lá vai
A tua espero por ela.

E se o espaço nos permitisse, muitas mais quadras seriam recolhidas. Ficam para uma próxima oportunidade. 

Entretanto, oxalá que o seu exemplo frutifique e que as suas palavras sensibilizem outros ou outras colegas para que cheguem a alcançar o prazer da leitura.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013


ANTÓNIO JOAQUIM VISEU:
UMA HISTÓRIA COM 100 ANOS


Quando uma associação ou qualquer outra entidade comemora cem anos da sua fundação, a efeméride é, justamente, motivo de referência. Todavia, quando é um cidadão a atingir essa bonita e provecta idade, tal acontecimento ainda mais justificadamente merece um destaque muito especial.
No Abrigo festejou-se no passado dia 14 de Fevereiro o aniversário do nosso utente Sr. ANTÓNIO JOAQUIM VISEU, que nessa data entrou no privilegiado e restrito número dos centenários, facto que, mesmo não sendo inédito nesta Instituição, legitima uma natural alegria entre todos os dirigentes, colaboradores e colegas.
Fomos falar com o aniversariante que, já viúvo, entrou para o Abrigo em Julho de 2000. Tentámos recolher algumas recordações de quem teria muito para contar. Como nos confessou, a sua memória já não é o que era e em termos de saúde queixa-se, sobretudo, da falta de vista e de um zumbido constante nos ouvidos que o incomoda e ensurdece.

Uma infância de pobreza

Mas vamos ouvi-lo: “Nasci no dia 14 de Fevereiro de 1913 no Monte da Amoreirinha, perto de Santa Sofia, filho de Manuel Viseu e de Jacinta Maria. Éramos extremamente pobres e passámos muita miséria. A nossa infância, a minha, a dos meus três irmãos e a de uma irmã, foi penosa. O meu pai foi sempre trabalhador rural e não ganhava o suficiente para alimentar a família. Nenhum de nós andou à escola. O meu pai, que chegou a frequentar o Seminário, sabia ler e escrever muito bem, mas nunca nos ensinou nada do que sabia. Todo o seu tempo era pouco para arranjar comida o que nem sempre conseguia. Tinhamos falta de tudo, desde a comida às roupas. Ainda muito jovem, fui muitas vezes de monte em monte a pedir que nos dessem um pedaço de pão.”
Desses tempos não guarda gratas recordações: “Comecei muito cedo a guardar gado e, com o decorrer dos anos, fui conhecendo praticamente todos os trabalhos agrícolas. A primeira vez que vim à Vila já teria mais de dez anos e, tanto nessa vez como nas seguintes, deslocava-me a pé e descalço, porque botas era um luxo a que não podíamos aspirar. Vinha normalmente encarregado de fazer uns mandados para a minha mãe, mas o objectivo principal era o de, pelo caminho, visitar algumas pessoas amigas na esperança de que nos dessem qualquer coisita. Chegado à então vila, aproveitava para ver coisas que nem sequer suspeitava existirem, tão longe nós vivíamos do chamado progresso. Mais ou menos por essa altura, talvez com 8 ou 9 anos, uma senhora que possuia uma grande quantidade de perus foi falar com a minha mãe propondo que eu fosse para lá guardá-los. Ganhava as refeições e se havia mais algum pagamento em dinheiro não sei, porque nunca cheguei a ver nenhum. Um dia apareceu um peru morto e culparam-me a mim, ainda que injustamente. Não me bateram, mas despediram-me.”
Como recordação mais antiga, tem uma vaga ideia de ouvir falar da 1ª Grande Guerra (1914/1918), mas era muito novo e viviam muito isolados dos locais onde se poderia falar desse assunto, pelo que não ligou muito a isso.


A vida prosseguiu

Vamos dar um salto no tempo e encontrar o nosso amigo Viseu já a preparar-se para juntar os trapinhos com a sua conversada: “Aos 23 anos casei-me com Augusta Rosalina Coelho, já falecida há 14 anos, e fui morar para o Monte da Azinheira, perto de Patalim e Monte da Crasta, no Alto da Abaneja. Só depois nos deslocámos para Santa Sofia. Vivi sempre por aqueles lados.” E recorda pormenores do casamento: “Quando resolvemos juntar-nos, a Augusta já estava grávida. Então, como a minha patroa – Maria Inácia Soares – não permitia que os seus trabalhadores vivessem amigados, como então se dizia, lá fomos, transportados num churrião, casar a S. Sebastião da Giesteira. Quem presidiu ao acto foi um fulano de nome António Caixeiro, que provavelmente seria um funcionário do Registo Civil. Por essa altura já eu tinha o estatuto de carreiro, trabalhando com uma parelha.”


E continua: “Sem conhecer grandes facilidades na vida, fui feliz no casamento, do qual nasceram dois filhos, mais exactamente um casalinho: primeiro a Jacinta e depois o António Joaquim. O meu filho vive em Setúbal e a minha filha, já viuva, reside em Évora. São muito meus amigos e visitam-me frequentemente. A minha filha, porque mora mais perto, vem ver-me todas as semanas. Tenho quatro netos, um casal de cada um dos filhos, e sete bisnetos. Provavelmente ainda verei trinetos. Assim os bisnetos se despachem e eu for cá estando para ver.


As 100 velas

Como é frequente, nem sempre as pessoas são mais conhecidas pelo seu apelido de baptismo. O Sr. ANTÓNIO JOAQUIM VISEU não fugiu à regra: “É verdade. A partir de certa altura também começaram a chamar-me “Almodôvar”, por causa do meu pai ser tratado por “Tio Almodôvar” devido ao facto da sua família ser natural daquela localidade alentejana.”
No dia em que celebrou os cem anos, rodeado de tanta gente amiga, o Sr. Viseu “saiu-se” ao almoço com estas quadras:
                                               Tenho uma família pequena,
                                               Tenho dois filhos e quatro netos,
                                               Tenho uma nora, sou bisavô
                                               E recebo muitos afectos !
                                              
                                               As minhas primeiras palavras
                                               Vão p’ra esta Instituição,
                                               Agradeço às empregadas
                                               E também à Direcção !

                                               Aos utentes deste Lar
                                               Eu dedico o meu carinho.
                                               Estamos todos aqui à espera
                                               P’ra andar o mesmo caminho !        


Porque ficámos a saber, durante a nossa conversa, que tinha jeito para versos, desafiámos o Sr. Viseu a dizer-nos outros. Apelando à memória, lá nos foi ditando:
 

                                               Sei muito e não sei nada,
                                               Tudo quanto sei nada vale
                                               Sei que vivo até morrer
                                               Sei que não curo o meu mal.

                                               Sei que tenho de trabalhar
                                               Isso já há muito que eu sei
                                               Sei o tempo que já passei
                                               Não sei o que terei de passar.

                                               Sei que tenho voltas a dar
                                               Sei que morro não tarda nada
                                               Sei que a vida é desgraçada

                                               E quem trabalha sei eu
                                               E tudo quanto sei é meu.
                                               Sei muito e não sei nada !

E com estas palavras, que encerram pensamentos muitos íntimos e profundos, despedimo-nos do Sr. António Viseu com um obrigado pela paciência com que nos aturou, com os votos de saúde e os desejos de que possamos voltar a falar e a ouvir novos versos no seu 101º aniversário.
                                   

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

OS NOSSOS UTENTES


ELISIÁRIO ANTÓNIO (PINTO)



 Em Janeiro vai completar 89 primaveras, mas a memória, não sendo já o que era, ainda lhe permite recordar muitos episódios de uma vida que teria muito para contar.

Chamo-me apenas e só Elisiário António. Todos os meus irmãos, e fomos nove, tinham o apelido de Pinto mas eu, ainda hoje não sei por que carga de água, fui o único assim baptizado.”



E foi abrindo o seu álbum de recordações: “Nasci e sempre vivi no Ferro da Agulha, mesmo depois de, com vinte e poucos anos, ter casado com a minha companheira de sempre, de nome Custódia Maria Roque. Devido à idade, e sobretudo à doença da minha mulher, entrámos para o “Centro de Dia” do Abrigo dos Velhos Trabalhadores em Julho de 2007 e porque as nossas condições de saúde se foram agravando, ficámos a residir permanentemente  no “Lar” desta mesma Instituição a partir de Fevereiro de 2010. Foi o melhor passo que demos, e posso afirmar que fomos aqui felizes. No entanto, quis o destino que a minha mulher partisse vai para dois anos. Sinto bastante a sua falta, mas tenho de me conformar porque a vida dá-nos estes desgostos.”


Mas tudo teve um princípio: “Andei à escola na Associação Operária e conclui a 4ª classe. Aliás, de todos os meus irmãos, só o Manuel não aprendeu as letras. Logo depois comecei a trabalhar no campo, como era norma na altura. Uns anos depois, estava eu a trabalhar na Quinta de Santo António e no lagar do Sr. Daniel Borges (ou Daniel Passinha, como era conhecido) fui vítima de uma doença que me impossibilitava de fazer trabalhos pesados. Estando ainda indeciso quanto ao rumo a dar à minha vida, o Sr. Daniel Borges (também proprietário de um armazém de fazendas) chamou-me e disse: - Elisiário, vai tratar da papelada nas Finanças porque a partir de agora vais ser vendedor ambulante. 


E assim foi. Mas ainda havia outras dificuldades a ultrapassar: “Quando me convenci que aquele seria o meu modo de vida no futuro, reparei que tinha uma carroça, mas não tinha burro nem dinheiro para o comprar. Fui ter com o meu irmão Luís, para quem eu tempos antes tinha comprado um animal, e pedi-lhe que mo vendesse. Ele concordou e ajustámos o preço: 750$00 a pagar em prestações semanais. Já equipado, voltei ao Sr. Borges que logo ordenou que me fosse fornecido o material com que haveria de iniciar o negócio. Foi um avio no valor de 5 contos, fiado, porque eu não tinha um centavo. Fiquei sempre reconhecido a esse Homem, que me incentivou e depositou em mim tal confiança, que eu sempre tive a máxima preocupação de merecer pela vida fora.

Comecei então a andar de monte em monte, com a carrocinha, a vender panos, roupas e outros artigos pertencentes ao mesmo ramo. Foi esta a minha actividade até me reformar.

Foi, como é bom de ver, uma vida de sacrifícios: “Saía de casa à terça-feira e só regressava no sábado. Fazia uma volta muito grande, percorrendo muitos quilómetros. Dormia em cocheiras, em palheiros, onde calhava. A segunda-feira estava reservada para ir repor a existência.


Como se não bastasse toda esta labuta, o nosso amigo Elisiário também teve problemas com a sua “viatura”: Seis meses depois de iniciar estas andanças, e já com o burro pago, partiu-se-me a carroça. Fui ter com o mestre Zé da Gaita para me fazer um orçamento. Levava 600$00 pelo conserto mas demorava dois meses o arranjo. Está visto que não podia ser. Então, dirigi-me ao Mestre Valério de Carvalho, que me levou os mesmos 600$00 e me emprestou uma carroça durante o tempo do amanho.


Mas se as carroças têm história, que dizer dos burros? “O meu primeiro burro chamava-se “Jeremias” e pertenceu-me durante 15 anos. Era muito esperto. Conhecia a freguesia quase tão bem como eu. Quando nos aproximávamos de um monte, eu começava a imitar a voz do burro e ele continuava a zurrar, como que anunciando a nossa visita. Por outro lado, se estávamos perto de um local onde morava freguesa com dívida em atraso, e não convinha por isso pô-la de sobreaviso, dava-lhe um determinado toque e ele já não zurrava. Era manso, mas se durante os nossos percursos via uma “moça” da sua espécie, começava a ficar amalucado. Chegava até a morder, se calhar de raiva por não lhe poder chegar. Tive de me desfazer dele, vendendo-o ao Mestre Fortunato Guita e comprando-lhe um cavalo por 12 contos, que se chamava Neco e que tive de vender anos mais tarde porque lhe apareceu uma pulmoeira. Comprei então uma mula, a que foi dado o nome de  “Cigana”.


Para além de registarmos os acontecimentos mais recentes da vida do nosso entrevistado, recordámos juntamente, e aproveitamos para transcrever, algumas passagens das peripécias que foram contadas, já há mais de vinte anos, ao autor destas linhas, que as publicou então num jornal local. Daí para cá, muitas voltas deu o mundo e as vidas de cada um de nós.


“Claro que não há nada como a nossa casa, mas chega uma altura em que, por diversas circunstâncias, somos forçados a pedir ajuda. Foi o que eu fiz. Mas em boa hora recorri ao Abrigo. Sempre fui bem tratado. Penso até que todo o pessoal tem muita paciência para tratar de tanta gente com feitios tão variados. Aqui, como em todos os lugares semelhantes, todos temos de perceber que tem de haver regras para serem cumpridas porque, de contrário, isto seria um pandemónio, com cada um a fazer o que lhe apetecesse. Vejo que muitas vezes há falta de compreensão.”


Sr. Elisiário: Que os anos se vão sucedendo com a qualidade de vida que bem merece.


quarta-feira, 14 de novembro de 2012

OS NOSSOS UTENTES


JOAQUINA ADELAIDE

Chamo-me Joaquina Adelaide, mas lá para os meus lados sempre fui conhecida como “Joaquina Sacristoa”, alcunha que me vem do facto do meu pai ter sido sacristão.Foram estas as primeiras palavras proferidas para início da nossa conversa deste mês.


E continuou a desfiar o seu rosário de recordações: Nasci há 87 anos em S. Romão, que à data era freguesia mas que mais tarde acabou por ser anexada a S. Cristóvão. Cedo comecei a trabalhar no campo, porque havia que contribuir para o orçamento familiar. Nunca fui à escola, não só porque ficava longe mas também porque, por esses anos, não era reconhecida tal utilidade nos meios rurais. E hoje tenho pena, porque apenas sei desenhar o meu nome e poucas letras conheço.

Aos 26 anos, a sua vida deu uma volta: Conheci pouco antes o que haveria de ser meu marido e casei-me com essa idade.. Chamava-se Joaquim Inácio aquele que partilhou comigo os meus anos mais felizes. Tinha uma barbearia e uma oficina de bicicletas na Torre da Gadanha e foi aí que vivemos até ao seu falecimento, há perto de 20 anos.

A D. Joaquina nunca parou: Durante aqueles anos na Torre, trabalhei muito a ajudar na matança de porcos, migando carnes e fazendo enchidos, para serem vendidos no estabelecimento de João António Mira Gião, que infelizmente faleceu há poucos meses. Ao serão, ou quando ali não havia serviço, era costureira de calças de homem.

E foi recordando: Com o falecimento do meu marido, o meu mundo desmoronou-se. Nunca tivemos filhos e já não tinha familiares próximos, a não ser três sobrinhas. Fiquei praticamente sozinha e a minha vida alterou-se completamente. Vim para Montemor, para uma casa na Travessa do Espírito Santo e, presentemente, resido na Travessa da Cruz da Conceição.

Mas nunca deixou de labutar: Já viúva, continuei a trabalhar. Durante uns anos ia ao Monte das Colheireiras ajudar uma senhora, chamada Ana Glória, na lida da matança dos porcos, nos enchidos e, ainda, na queijaria.

Mas não ficou por aqui: Anualmente, ia um mês para o Algarve, mais propriamente para Cabanas de Tavira, acompanhar e tratar de uma senhora viúva, cega e praticamente sem ouvir, que ali tinha uma moradia e ia passar as suas férias. No resto do ano estava num lar em Alhos Vedros. Apenas lá fui dois anos porque, entretanto, a senhora faleceu.

Até que …: Com os anos a passarem e tendo fracturado um braço, o que me impedia de fazer certos trabalhos, pedi auxílio ao Abrigo, onde estou no “Centro de Dia” há cerca de três anos. Tenho sido muito bem tratada mas, como deve compreender, não há nada que chegue à nossa casinha. E nem quero pensar no dia em que as coisas da minha casa, reunidas ao longo dos anos com tanto trabalho e carinho, serão desmanteladas e possivelmente muitas delas atiradas para o lixo. É doloroso.

Aqui no Abrigo, a D. Joaquina ocupa os seus tempos de ócio a ver televisão, a conversar e a participar nas viagens e nas actividades sócio-culturais que periodicamente têm lugar.
Nunca tive, e continuo a não ter, feitio para estar desocupada e, então, ofereci-me como voluntária para pôr diariamente a mesa de todos os utentes nas principais refeições servidas no Abrigo. É a maneira de ocupar o tempo e de continuar a sentir-me útil.

Que possa continuar por muitos anos!

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

OS NOSSOS UTENTES



 JOAQUIM MARTINHO DOS SANTOS

O nosso entrevistado deste mês é sobretudo conhecido como “Joaquim da Cabrela”, alcunha que lhe vem, como é habitual nestes casos, do facto de ter nascido, há 80 anos, num local com este nome. E foi no Monte da Cabrela que viveu até aos 27 anos, altura em que se casou com Florentina da Visitação Catarro.

Labutou no campo até aos 30 anos, após o que enveredou pela actividade de pedreiro. Aprendeu depressa a profissão e passados dois ou três anos tentou a sua sorte em Lisboa, visto não achar justo já estar a exercer as funções de oficial mas a ganhar como servente.

“Na capital comecei ao serviço do empreiteiro Jaime Bibe, mas durante os treze anos em que trabalhei por aqueles lados conheci outros patrões. Por causa da escola do meu filho, estava lá sozinho. Aluguei um quarto com cozinha e vinha a casa, de motorizada, quase todos os fins-de-semana. Só durante as férias escolares é que tinha mais tempo a família junto de mim.”

O nosso amigo Joaquim recorda ainda que depois esteve em Setúbal durante cerca de três anos, após o que se mudou para a Moita do Ribatejo. “Estive aqui a trabalhar na Novobra, ao serviço da qual percorri quase todo o país, juntamente com os engenheiros da firma, a marcar obras. Durante este tempo fiz dois cursos de especialização, numa escola técnica da Moita”.

Regressou a Montemor por volta de 1976, convidado para fazer parte de uma cooperativa de construção civil. “Tudo parecia ir correr às mil maravilhas. Tínhamos trabalho, fizemos bairros em S. Cristóvão e Foros de Vale de Figueira e várias moradias em Montemor. Ao fim de três anos, as coisas começaram a correr mal, por circunstâncias que agora já não quero sequer recordar, e fomos forçados a desistir. Comecei por ter muitas esperanças neste projecto, mas acabou por ser o passo mais mal dado da minha vida.”

Joaquim Martinho dos Santos ingressou depois nos quadros da Câmara, como responsável pelos trabalhos da sua especialidade. Aqui permaneceu durante 24 anos, até se reformar. 

“Entretanto, a minha mulher, que há vários anos se tinha lesionado seriamente na coluna, devido à queda de uma oliveira, quando procedia à apanha de azeitona, viu o seu estado de saúde a agravar-se progressivamente e fomos forçados a recorrer ao Abrigo. Primeiro no “Centro de Dia” mas, devido ao facto de, pouco depois, ela ter fracturado uma perna, a nossa situação piorou e acabámos por aqui ficar como residentes. Infelizmente, a doença foi mais forte e a minha companheira de toda a vida acabou por falecer em Março de 2011.”

Conhecido de várias gerações de pescadores desportivos, o Sr. Joaquim Martinho dos Santos era figura incontornável em todos os concursos de pesca à linha nas barragens e albufeiras da região, e não só. “Desde miúdo que tenho a paixão pela pesca. Dei os meus primeiros passos com apetrechos rudimentares e, mais tarde, fui-me munindo com material já mais adequado à alta competição. Claro que a idade já não me permite desfrutar tão frequentemente do meu passatempo favorito, mas ainda o ano passado fui a um concurso promovido pelos Serviços Sociais da Câmara.”

Como nos revelou, o facto de já não poder exercer, com a assiduidade que gostaria, aquela actividade lúdica que, ainda assim, exige esforço físico, isso não significa que desperdice os seus tempos livres: “Troquei as canas de pesca pelas ferramentas. Ultimamente tenho-me dedicado a construir, em madeira, miniaturas tão diversas como os vários utensílios de cozinha, instrumentos de trabalho agrícola e outras peças que acodem à minha imaginação. Neste momento estou a arquitectar um barco, que até à sua conclusão ainda tem muitas voltas a dar”

Sabemos que muitos destes trabalhos têm sido expostos em diversos eventos e mostras artesanais, sempre com a admiração de quem sabe apreciar esta arte na sua forma mais pura.

Aqui deixamos algumas fotos ilustrativas dos seus trabalhos.