quarta-feira, 2 de abril de 2014

OS NOSSOS UTENTES


JOAQUIM JOSÉ PEREIRA


Tem oitenta e dois anos, é solteiro e considera-se bom rapaz. Chama-se Joaquim José Pereira e prestou-se de bom grado a revelar algumas particularidades da sua já longa vida.


“Nasci em Montemor no dia 9 de Fevereiro, do já distante ano de 1932, na Rua do Poço do Passo. Nesta casa vivi até aos 14 anos, depois de concluído o ensino primário. Por essa altura a família foi morar para a Quinta das Laranjas, propriedade da D. Antónia Padeira, onde o meu pai era rendeiro. Dali retirávamos os alimentos que a terra nos dava em abundância.

Mas não tinham outra fonte de rendimento ?

“Colada àquela quinta tínhamos o Pomar Bravo, uma pequena propriedade nossa que, para além, de nos proporcionar o valor da renda de umas casitas, ainda nos permitia criar, essencialmente para venda, umas ovelhas, cabras e galináceos. Era daqui que conseguíamos mais alguns rendimentos pecuniários.”

Deixemos esta fase da vida do nosso entrevistado e avancemos no tempo:

“Teria eu trinta e tal anos quando regressámos à então vila. Deixámos a Quinta das Laranjas mas continuámos a explorar o Pomar Bravo que, mais tarde, foi vendido.”

Já em Montemor houve que procurar meio de subsistência:

“Empreguei-me na serração da família Silva Borges, ali na Vilamor. Estive lá uns meses e depois coloquei-me na Câmara Municipal. Fiz aqui os mais diversos trabalhos, desde colocar alcatrão nas estradas, andar no serviço de limpeza até que, finalmente, fui para a secção de pintura e carpintaria, no estaleiro. Por aqui me mantive  até me reformar.”

Depois dos pais falecerem, o sr. Joaquim Pereira vivia, sozinho, na Rua do Poço do Passo, sensivelmente no mesmo local mas depois do prédio ter beneficiado de obras de fundo. Será que nunca pensou em casar ?

“Quando era novo namorei uma rapariga durante cerca de catorze anos. Claro que pensávamos casar, mas ela era tremendamente ciumenta. As constantes cenas, de ciúmes infundados, que previ poderem continuar pela vida fora, foram decisivas para acabar com o romance antes que fosse demasiado tarde.”

Mas voltemos à actualidade.

“Como estava sozinho, durante os últimos cinco ou seis anos tive o “Apoio Domiciliário” prestado pelo Abrigo. Porém, há cerca de seis meses dei uma queda, no passeio junto ao Minipreço, que me provocou uma séria lesão ao nível da bacia e de que resultou uma incapacidade permanente. Na altura fui radiografado e o ortopedista disse-me que o caso não tinha solução.”

E daí …

“Daí que não tive outra solução senão a de pedir ao Abrigo que me aceitasse no “Lar”, uma vez que a minha casa tem degraus que eu não conseguia, nem consigo, subir ou descer. Tenho bastantes dores e dificuldades para me deslocar mesmo em superfícies planas. Com a ajuda de uma bengala lá vou dando uns passos, mas sempre à custa de muito sofrimento.”

Conseguimos saber que o nosso entrevistado deste mês anda a tentar escrever uns versos. Confessou-nos que ainda não estão prontos mas, mesmo assim, prontificou-se a ditar o que a seguir se transcreve:

                     
                       "Se há Deus, eu não acredito
                        É o que a sorte me diz.
                        Não tem dó dum infeliz
                        Que se vê num conflito.

                        Muita gente me tem dito para eu ter devoção
                        E peço tanto a salvação
                        Que não consigo alcançar
                        Só me custa é o penar
                        Dêem-me todos atenção.

                        Choro a minha desventura
                        Eu estou farto de sofrer
                        Vivo assim até morrer
                        Se meu mal não tiver cura."

                     
Amigo Joaquim: Não desespere. Vamos ter esperança de que melhores dias virão.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

OS NOSSOS UTENTES

ARSÉNIA MARIA ESPONGINHA

Este mês trazemos à nossa página uma cara bonita que celebra 85 anos no próximo dia 3 de Março.


Sendo a mais velha de sete irmãos, nasceu no Monte do Poço da Rua, nos arredores da estação de Casa Branca, na casa da avó. “Ainda com poucos meses fui morar para o Monte do Lagar, no Escoural e depois para o Monte do Outeiro de Santa Sofia”

Nunca andou à escola. Era a sina de quem, naqueles tempos, vivia sobretudo afastado dos meios urbanos. A aprendizagem mais importante fazia-se no trabalho, muitas vezes duro para a idade, mas necessário para equilibrar a economia doméstica. E a pequena Arsénia não fugiu à regra.

“Primeiro tive de ajudar a criar os meus irmãos a fim de a minha mãe poder ir, ela própria, trabalhar. Depois, exactamente no dia em que fiz 12 anos, calhou-me a mim iniciar o que seria toda uma vida de labuta constante. Comecei por ir mondar trigo, na companhia da minha mãe, por conta de uma família de Évora, de apelido Soares, que tinha propriedades que iam de Santa Sofia até praticamente àquela cidade.”

Especialmente para as raparigas mais jovens, nessa altura o namorar era, salvo raras excepções, praticamente tarefa impossível.

“A minha mãe só me deixou namorar quando atingi os dezoito anos. Dizia ela que primeiro tinha que aprender a ser mulher, para um dia poder assumir a responsabilidade de gerir uma casa. E graças a Deus aprendi.”

E foi então que começou o romance de amor com um seu colega de trabalho, de nome Laurentino José Piteira. E passados 4 anos deram o nó.

“Casámos vai fazer 63 anos. Eu tinha 22 e o meu marido estava com 27 anos. Nunca tivemos filhos, ainda que eu gostasse muito de crianças. Nos primeiros anos fomos adiando porque quisemos primeiro estabilizar a nossa vida. Depois, os anos foram passando quase sem darmos por isso e a oportunidade passou.”

Recordemos então algumas fases desses primeiros anos de vida em comum: “Já casados, fomos residir para o Monte de Vale de Rei, perto da Graça do Divor. Continuávamos a trabalhar os dois para a família Soares. Ali morámos seis anos.”

Mas a vida ainda lhes reservava muitas outras voltas: “Labutámos muito para nos orientarmos e levarmos uma vida limpa, digna e sem dívidas. E por isso procurámos sempre o que nos parecia ser o melhor para nós. Viemos depois para o Monte dos Tanques, junto a S. Mateus e mais tarde demos um salto maior. Fomos para os arredores de Palmela para uma exploração pecuária. Estivemos lá até uns meses depois do 25 de Abril.”

E regressaram a Montemor.

“Sim, finalmente comprámos e viemos residir para uma casa no Largo do Terreiro Novo, já dentro de Montemor. Empregámo-nos primeiro na Quinta da Cruz Velha, da D. Nazaré Mousinho, onde tomávamos conta da vacaria e algum tempo depois na Herdade da Amendoeira, da família Salgueiro.”

Mas não acabaram aqui as andanças da D. Arsénia e do Sr. Laurentino.

“Algum tempo depois, o meu cunhado Joaquim Abel, que estava na Suiça, perguntou-nos se não quereríamos ir lá trabalhar uma temporada. Como tinhamos adquirido recentemente a casa, recorrendo a empréstimo bancário, aceitámos o convite para ver se nos conseguíamos ver livres desse encargo. Estivemos lá por duas vezes, num total de 15 meses. Como trabalhámos os dois e os salários eram bons, quando regressámos pudemos pagar o que faltava do empréstimo.”

E a seguir a essa aventura ?

“Ainda trabalhámos durante muito tempo, até que a idade e sobretudo a doença nos impediu de continuar. Foi assim que acabámos por solicitar ajuda ao Abrigo. Durante seis anos prestaram-nos “Apoio Domiciliário”. No entanto, o estado de saúde do meu marido foi-se agravando e, tendo havido uma vaga como residente, entrou o meu marido e eu comecei a utilizar o “Centro de Dia”, situação que ainda se vai mantendo.

D. Arsénia: desejamos-lhe as melhoras do seu marido e que a Senhora vá continuando com esse espírito jovem durante muito tempo.


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

OS NOSSOS UTENTES

JOÃO MIGUEL FERREIRA

Completou 92 anos no dia 18 deste mês de Janeiro mas continua com uma memória e um discernimento notáveis.

O entrevistado que abre a série do presente ano, de nome João Miguel Ferreira, nasceu no Monte da Torre, perto do Escoural e era um dos nove irmãos (6 rapazes e 3 raparigas) que os seus pais trouxeram ao mundo.

“Andei à escola no Escoural, tendo completado a 3ª classe. Nesses tempos, não só a instrução não era considerada prioritária como cedo se tinha de começar a contribuir para a economia doméstica. Muito novo, portanto, comecei como ajuda de pastor e depois de vaqueiro.”

E a actividade desenvolvida ao longo da sua vida esteve sempre ligada ao campo.

“O meu pai tinha quatro parelhas e trabalhava no Monte da Torre, propriedade de Joaquim Correia, de Reguengos de Monsaraz. Era então cingeleiro, o que significava que, em terras do proprietário, comprava as sementes, procedia a todos os trabalhos inerentes a determinada cultura, suportava as despesas e, quando se realizava a colheita, um quarto do que rendia destinava-se ao dono da terra. Claro que havia os maus anos agrícolas em que os resultados eram tão escassos que o próprio proprietário prescindia da sua parte. Como está bem de ver, era eu e os meus irmãos que ajudávamos em todas estas lides.”

O tempo foi passando e chegou a altura de ir para a tropa: “Assentei praça no RI 16, em Évora. Estive aqui dois anos e ao fim desse tempo paguei dois contos para me poder vir embora de imediato, procedimento que era normal na época. O problema surgiu quando, passados cerca de quinze dias, chamaram-me outra vez e fui mobilizado para os Açores. Protestei e só depois de dar muita volta consegui que me devolvessem o dinheiro. E pronto, lá parti para os Açores, onde cheguei à meia noite de um dia de Natal e onde permaneci vinte sete meses. Durante a minha permanência no arquipélago faleceram cá, primeiro o meu pai e, depois, a minha mãe.

Já livre do serviço militar, havia que fazer pela vida:
“Quando regressei, juntei-me ao meu irmão José Inácio e explorámos as mesmas terras e nas mesmas condições. Durou dois anos esta sociedade.

Aos 25 anos novo rumo: “É verdade. Foi a altura de dar um grande passo: casei-me com Maria Luisa Charneca. Fomos morar para umas casas do meu sogro em Goudelim. Depois arrendei uma fazenda no monte do Almeida, ao pé do Passa-Figo. Morámos lá durante quarenta e sete anos. Estive sempre ligado à agricultura, quer cultivando quer alugando e prestando serviços a terceiros com as máquinas agrícolas que fui adquirindo. Quando já tinha setenta e dois anos vim definitivamente para Montemor, para uma moradia na Courela da Pedreira.”

Os anos foram passando e já tinha ultrapassado a ternura dos oitenta quando teve de dar um novo passo na sua vida: “A idade, mas sobretudo a doença da minha mulher, foram responsáveis por termos de recorrer ao “Apoio Domiciliário do Abrigo”. Mas a situação da minha mulher piorou, a nossa vida complicou-se e ela acabou por ser internada aqui no “Lar” no dia 10 de Maio de 2012. Infelizmente, faleceu dois dias depois. Hoje, estou aqui eu, sem a sua companhia.”

Ao longo de tantos anos, o nosso amigo João Miguel Ferreira teria muitas histórias para relatar. Quer esquecer as que, por um ou outro motivo, considera menos agradáveis. Mas fez questão de recordar um episódio que o marcou e uma atitude que nunca mais esqueceu. E conta:

“Quando estava no Monte do Almeida, já casado e a trabalhar por conta própria, a debulha era feita pela empresa Barradas & Barradas, aqui de Montemor. Um dia, o Sr. José Barradas convidou-me para ir com ele a Évora e, sem me dizer qualquer coisa, levou-me à firma H. Vaultier, ali na Praça do Giraldo. Apresentou-me ao gerente, Sr. Machado, e saiu, deixando-nos a conversar. Claro que eu vi logo o fim em vista. Este senhor começou de imediato uma longa conversa para me vender um tractor. Eu, na verdade, estava na disposição de o comprar, mas não estava disposto a ter de apresentar um fiador ou avalista. E disse-lhe isso mesmo. Se quisesse nessas condições, tudo bem; caso contrário, nada feito. Disse-lhe ainda que se por acaso eu faltasse com alguma das prestações, a firma poderia ir lá buscar-me a máquina. Essa era a melhor garantia. Estávamos neste impasse quando entrou de novo no escritório o Sr. José Barradas que, ao tomar conhecimento da situação, logo afirmou alto e bom som ao vendedor: Ó Machado, podes vender o tractor à confiança porque estás na frente de uma pessoa séria e cumpridora. E o negócio foi feito. Um ano depois, e já sem se falar em fiador, já lá tinha outra máquina.”

E ainda, segundo nos afirmou, chegou a ter quatro máquinas, incluindo ceifeira-debulhadora, enfardadeira e todas as respectivas alfaias, para prestar serviços de aluguer a outros agricultores.

Boa saúde, amigo João.
           

            

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Já saiu o livro que conta tudo

DO ASILO DE MENDICIDADE
AO ABRIGO DOS VELHOS TRABALHADORES – 1914/2014

UM SÉCULO AO SERVIÇO DA POPULAÇÃO IDOSA DO CONCELHO


Passo a passo foi-se construindo e consolidando o percurso de uma Instituição que será uma das maiores do seu género, em termos de solidariedade social, vocacionada e dirigida aos trabalhadores idosos ou incapacitados para o trabalho.
Vencendo dificuldades, ultrapassando obstáculos, transformando sonhos em realidades, lutando com persistência, perseverança e elevado sentido de cidadania activa, foi com a ajuda desinteressada de centenas de pessoas solidárias, que ao longo dos anos deram o melhor de si mesmas a uma causa que é de todos, que chegámos finalmente ao dia em que se comemorou o centenário da Instituição, cuja história teve o seu início no distante dia 1 de Janeiro de 1914.

Pois no passado dia 11 de de Janeiro, um sábado soalheiro, efectuou-se, nas instalações do Abrigo dos Velhos Trabalhadores de Montemor-o-Novo, a cerimónia de lançamento do livro que assinala exactamente a efeméride.

Na mesa de honra tiveram lugar a presidente da Câmara Municipal, Dra. Hortênsia Menino, o presidente da Direcção do Abrigo, Joaquim Manuel Batalha, o representante das edições Colibri, Dr. Fernando Mão de Ferro e, evidentemente, a autora do livro – Dra. Maria Teresa Rios da Fonseca.

Ao abrir a sessão, Joaquim Batalha fez a apresentação dos colegas de Mesa e explicou os objectivos que estiveram na origem da ideia de solicitar à Dra. Teresa Fonseca um trabalho que se previa exigir muita pesquisa, devoção e rigor, mas cujo produto final se sabia ter a qualidade superior já bem testada e comprovada em muitos trabalhos anteriores.


Dr. Fernando Mão de Ferro felicitou a Direcção do Abrigo e enalteceu o talento da Dra. Teresa Fonseca, bem expresso nas muitas obras que a sua editora já teve oportunidade de dar à estampa. Disse ainda estar orgulhoso pelo facto das Edições Colibri estarem ligadas a este projecto.

A Dra. Hortênsia Menino exaltou a iniciativa do Abrigo celebrar desta forma os cem anos da Instituição e da garantia de qualidade que a autora coloca em todos os seus livros, onde vem dando a conhecer aspectos menos conhecidos da vida do concelho. Referiu ainda que o livro é uma homenagm a todos os que, ao longo dos anos, têm vindo a dedicar, voluntariamente, muito da sua vida a esta obra solidária para que a velhice seja digna.

Finalmente, usou da palavra a autora do livro “Para a História da Assistência em Portugal – Do Asilo de Mendicidade ao Abrigo dos Velhos Trabalhadores de Montemor-o-Novo – 1914 – 2014.”

Começou por agradecer a colaboração de quantos deram o seu contributo para a realização deste trabalho de pesquisa que, como se adivinha, foi longo e trabalhoso.

Depois, foi uma clara e bem elaborada exposição sobre muitos aspectos do livro que, como é evidente, não seria possível reproduzir neste espaço.

No entanto, para lhe aguçar a curiosidade e convidá-lo a adquirir esta obra, que nos dá a conhecer em pormenor o percurso destes cem anos da assistência aos mais idosos, permitimo-nos transcrever uma breve explicação da autora que se pode ler na contracapa deste volume:
 “O presente livro aborda a origem do Asilo Montemorense de Mendicidade, fundado a 1 de Janeiro de 1914 em Montemor-o-Novo. Traça a sua evolução posterior, até à transformação em Associação Protectora do Abrigo dos Velhos Trabalhadores, ocorrida em 1955.

Refere as casas que esta importante instituição de apoio à terceira idade ocupou até à instalação definitiva no edifício atual, ocorrida em 1969.


Descreve as vicissitudes da sua longa existência, no contexto da história local e nacional, inserindo-a nas políticas assistenciais implementadas ao longo do seu século de existência.

Aborda ainda os diferentes modelos de gestão de que foi alvo, a sua interação com a comunidade local e a sua evolução interna, tanto no respeitante à ampliação e modernização do seu espaço arquitetónico, como quanto às diferentes valências que foi criando, com as naturais repercussões no aumento do número de beneficiados e dos recursos humanos necessários ao alargamento da sua actividade”.


A fechar a sessão e antes de dar a palavra a Manuel Aldinhas Santos, José Grulha, Joaquim Abreu Bastos e Joaquim Salgueiro que teceram várias considerações a propósito do momento que ali se estava a viver, Joaquim Manuel Batalha não quis deixar de agradecer a presença das pessoas amigas que tinham acedido ao convite e, muito especialmente, a todas as entidades e particulares que materializaram o apoio à edição deste livro, em numerário ou na aquisição de um determinado número de exemplares:
Câmara Municipal de Montemor-o-Novo, União de Freguesias de Nossa Senhora da Vila. Nossa Senhora do Bispo e Silveiras, Junta de Freguesia de Foros de Vale Figueira, Junta de Freguesia de S. Cristóvão, Junta de Freguesia de Cabrela, Junta de Freguesia do Escoural, Junta de Freguesia de Ciborro, União de Freguesias de Cortiçadas de Lavre e Lavre, Cooperativa “Caminhos do Futuro”, Agência de Montemor-o-Novo da Caixa Geral de Depósitos, Agências de Montemor-o-Novo e Alcácer do Sal da Caixa de Crédito Agrícola, Delta Cafés, Dra. Maria Margarida Nunes Mexia de Mendia e J.A.

Seguiu-se um “Abrigo de Honra” a todos os presentes.
Este excelente livro, que procura reconstituir, até onde isso é possível, os cem anos de uma instituição de reconhecido valor assistencial, ainda pode ser adquirido no Abrigo e o seu custo é apenas de 10 euros cada exemplar.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

VISITA DE BOAS FESTAS


No passado dia 20 de Dezembro, recebemos na nossa Instituição a Presidente da Câmara Municipal de Montemor-o-Novo, Hortênsia Menino, que se fez acompanhar pelos vereadores João Marques, Palmira Catarro e António Pinetra, com o intuito de desejar à Direcção, trabalhadores e utentes do Abrigo, os seus votos de Boas Festas.



Ainda assim, esta visita contou também com a Inauguração e descerramento das placas respectivas ao encerramento do projecto “Aquisição de Equipamentos para Lar, Centro de Dia e Apoio Domiciliário”, do PRODER.



Mais uma vez, e em prol da constante melhoria da qualidade de vida dos nossos utentes, instalações e equipamentos, é com muito orgulho que damos por encerrado mais um capítulo da nossa história, que tão bem dignifica e enaltece o Abrigo dos Velhos Trabalhadores.

A todos, endereçamos os mais sinceros votos de Boas Festas, desejando, como sempre, Saúde e Humanidade.
Feliz Natal!


quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

AQUI HÁ NATAL...

O NATAL NO ABRIGO


Tão certo como haver Natal é a realização, no Abrigo dos Velhos Trabalhadores, da festa que celebra a natividade.
E quando se fala em Festa de Natal vem logo, por associação, a tradicional representação teatral que envolve alguns dos nossos utentes.


Este ano, e numa versão, mais que livre, da história que todos nós ouvimos contar na meninice, foi levada à cena a peça intitulada “A Carochinha, o Leopoldo Ratão e o Menino Jesus”.
Como sempre, o José Manuel Brejo foi o responsável pelo texto, pela encenação e pela direcção de actores. À Céu Mestrinho, para além de desempenhar o principal papel, ainda teve a seu cargo o variado guarda-roupa.
E na terça-feira, 17 de Dezembro, uma sala completamente esgotada riu e aplaudiu as peripécias que se iam sucedendo com o desenrolar da história. Aqui e ali uns breves lapsos de memória apenas serviram para arrancar mais umas quantas gargalhadas.
Para que a memória não os esqueça, aqui ficam registados os nomes dos artistas e das respectivas personagens a que deram vida.


Carochinha - Céu Mestrinho
Leopoldo Ratão  - Leopoldo Gomes
Joaquim Canino - Joaquim Martinho dos Santos
António Gatão - António Lopes
José Joaquim Até Ver - José Grulha
Mãe da Carochinha - Fabiana Santanita
Mãe de Leopoldo Ratão - Joaquina Linguiça
Mãe de Joaquim Canino - Otília Brejo
Mãe de António Gatão - Albina da Visitação
Mãe de José J. Até Ver - Joaquina Maria
Proprietária da Boutique - Angélica Ferro
Padre César - César Arraiolos
Estrela Anunciadora - Luísa Aldinhas
Virgem Maria - Maria Narcisa Ferreira
S. José - Joaquim Batalha

Terminada a récita, e após fartos aplausos, a nossa utente e poetisa Basilissa Senhorinha Pernas cantou um poema de sua autoria, alusivo à quadra que se atravessa.


A concluir esta tarde de cultura e recreio, ouviu-se pela voz de Maria Teresa Barreiros Seatra um poema, intitulado “O Tempo Depressa Passa”, da autoria de Cristina Caravela.
As intervenientes foram muito aplaudidas.
Seguiu-se, como também já era esperado, a distribuição de prendas a todos os utentes ,quer do Lar, quer do Centro de Dia, quer do Apoio Domiciliário, assim como aos colaboradores da Instituição.
A tarde não ficaria completa sem o competente lanche, que serviu à perfeição para o fim de festa.
A quem de alguma forma contribuiu para o êxito desta tarde, vão os agradecimentos sinceros da Direcção do Abrigo.
Mas este relato não ficaria completo se não referissemos que o grupo de teatro fez a ante-estreia da peça, no dia 12 de Dezembro, no Colégio-Jardim dos Sentidos (antigo Bercinho), também com assinalável sucesso.
E mais: Na próxima 5ª feira, dia 19 de Dezembro, nova representação, no ginásio do Abrigo, para a qual foram convidadas a assistir várias instituições do concelho.
Aproveitamos a oportunidade para endereçar um Feliz Natal e excelente Ano Novo, sobretudo com saúde.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

OS NOSSOS UTENTES

LEOPOLDINA MARIA VIEIRA BENAVENTE

Vamos encerrar mais este ano de conversas com os nossos utentes, ouvindo uma senhora de 86 anos cuja memória é prodigiosa. Lembra-se de pormenores que, a serem todos aqui relatados, daria para duas páginas de jornal. Mas vamos então contar alguns. 

A D. Leopoldina nasceu em 1927, e dos seus primeiros anos só recorda privações e dificuldades. Tendo nascido em S. Geraldo, onde viveu até aos dois anos, passou depois para o Monte das Gigantas e, sucessivamente, a família morou em vários montes.

“A vida era de tal forma difícil que os meus pais, com sete filhos, tinham enormes dificuldades para o sustento da casa e, então, nem sempre havia dinheiro para pagar as rendas. O trabalho também não era certo e daí as constantes mudanças, porque não podíamos contar com a compreensão e bondade dos proprietários. Só quando os mais velhos começaram a trabalhar é que a nossa vida se alterou ligeiramente.”


Mas as melhorias não permitiram, por exemplo, que a criança que era então a D. Leopoldina frequentasse a escola.

“Era para mim um desgosto enorme ver outras crianças irem aprender a ler e eu não poder ir. E havia vários motivos para que assim acontecesse. As dificuldades económicas e a distância que tinhamos de vencer eram os principais obstáculos. Para além de que, nesses tempos, a instrução escolar não era considerada uma prioridade. Comecei a trabalhar muito cedo, não me recordo exactamente com que idade, mas lembro-me que aos dez anos já ia apanhar azeitona. Vencia, ou tentava vencer, os frios, pouco protegida em termos de roupa, com uns sapatos de borracha muito usados e, como xaile, uma saia velha da minha mãe. Ganhava cinco tostões por cada cesto que enchia, mas tinha dias em que, por causa do frio que me engadanhava, nem um cesto conseguia apresentar.”

Aos 14/15 anos  já trabalhava como uma mulher, merecendo e ganhando a jorna correspondente. E foi nesta altura da nossa conversa que surgiu uma curiosa revelação:

“Se comecei a trabalhar cedo, também cedo comecei a namorar. Tinha 12 anos quando tive o primeiro namorado que, é claro, tinha a mesma idade que eu. Chamava-se Manuel João. Andávamos os dois à monda no Monte das Taipas e, conversa puxa conversa, começámos a namoriscar. Nessa altura morava eu na Courela do Guita. Um dia disse-lhe onde era a minha casa e combinámos que ele iria lá falar comigo no Domingo seguinte. Não disse nada à minha mãe, mas comecei a fazer os preparativos. Limpei muito bem a rua do monte, inclusivamente andei a varrer a vereda por onde ele haveria de passar, arranjei-me com o melhorzinho que tinha, e aguardei. A minha mãe assistia a tudo isto sem me dizer fosse o que fosse. E eu também nada lhe disse. A nossa casa, apenas de rés-do-chão, tinha uma empena alta e lá no cimo um postigo. Como não havia janelas, esta era a única hipótese que tinha de ver e falar com o rapaz. Então, coloquei uma arca junto à parede e em cima desta uma cadeira, pois só assim o poderia ver. Mas fiz mais: no lado de fora ainda pus uns tijolos para o namorado se empoleirar e ficar mais próximo do postigo. Lá falámos o que tinhamos a falar e quando chegou perto do sol posto o rapaz foi-se embora.”

E não houve problemas com a sua mãe?

“Ai não, que não houve. Mal desci do meu poleiro a minha mãe caiu-se comigo, deu-me uma valente tareia e mandou-me acabar desde logo com o namorico.”

E pronto, o assunto ficou aí completamente arrumado…

“Nada disso. Começámos então a escrever-nos numa correspondência que durou cerca de três anos. Como já disse, eu não tinha andado à escola e, portanto, não sabia ler nem escrever. Então, era uma filha do sr. Gil  ferrador que me escrevia as cartas e depois me lia as que me eram dirigidas. Mas era uma carga de trabalhos. Mas tudo ficou por aí, tendo cada um de nós seguido a sua vida.

E depois, perguntei eu ?

“Teria já cerca de dezoito anos quando comecei a namorar o que viria a ser o meu primeiro marido, Joaquim Maria Cartaxo. Tinha vinte e quatro anos quando nos juntámos e fomos morar para o Moinho de Vento. Tempo depois fui trabalhar para casa da D. Nazaré Mousinho, que tratou de nos casar pelo Registo e pela Igreja. Deste casamento nasceram dois filhos, um que faleceu quando tinha três anos e outra, felizmente viva e de boa saúde, casada, que me deu um casal de netos. Morámos ainda na Quinta Grande e na Torre do Almansor, onde o meu marido morreu, em 1964.”

E começou então uma nova etapa na sua vida:

“Deixei de trabalhar no campo, sobretudo porque tinha medo de andar sozinha por esses caminhos. Consegui uma casinha no Bairro de Na. Sra. da Visitação e trabalhei a dias em casas de várias famílias. Estive ainda, durante uns anos, empregada na Azinhex, onde me encontrava quando casei, em 1973, portanto há quarenta anos,  também pelo Registo Civil e pela Igreja, com o meu actual marido, José Joaquim Grulha, que era igualmente viúvo. O José tinha quatro filhos, três dos quais, felizmente, ainda são vivos. Todos eles me trataram sempre com muita amizade e carinho.”

E durante todos estes anos nunca chegou a aprender a ler ?

“Cheguei, sim senhor. Quando estava na Azinhex tive como colega uma bela rapariga chamada Rosinda que, por sinal, hoje é enfermeira aqui no Abrigo. Pois foi exactamente a Rosinda que me ensinou a conhecer as letras e a juntá-las, o que me permitia, pelo menos, ler os jornais. Foi muito importante para mim. Hoje, por problemas de saúde, já nem isso me é possível fazer, mas a minha gratidão mantém-se.

A D. Leopoldina já foi operada várias vezes, duas delas aos joelhos, e viu-se privada do olho direito, mas é uma lutadora e vai encarando o futuro com um certo optimismo. 

Juntamente com o marido está no Lar, como residente, desde há quatro anos, mas já anteriormente era utente , primeiro do “Apoio Domiciliário” e depois do “Centro de Dia”.

Um Bom Natal, na companhia do José, familiares e colegas do Abrigo.
            

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

OS NOSSOS UTENTES

ROGÉRIO FRANCISCO ARRAIOLOS

O nosso entrevistado deste mês tem uma história de vida fundamentalmente semelhante à de tantos outros alentejanos que nasceram em ambientes rurais.

“Nasci há 76 anos, mais propriamente em Julho de 1937, no Monte da Regadia. Éramos seis irmãos (cinco rapazes e uma rapariga), dos quais já faleceu o Joaquim José.”

O pai também desenvolvia a sua actividade como operário agrícola e, para sustentar a prole, tinha de estar sempre atento a quem oferecia melhores salários.


“É verdade - confirma o nosso amigo Rogério. Durante anos fomos saltitando daqui para ali, sempre na busca de conseguirmos os proventos que nos garantissem o sustento e uma vida mais digna. Recordo-me que da Regadia passámos para o Monte Novo e, sucessivamente, para a Courela do Sampaio, Monte dos Solteiros, Monte da  Cesta, Monte do Outeiro Novo e Monte de Crispim. E foi daqui que parti para me casar.”

Mas voltemos um pouco atrás nas suas recordações:

“Em garoto aprendi os rudimentos das primeiras letras. A “escola” era uma barraca colocada debaixo de um sobreiro, junto à estação do 78 dos caminhos de ferro, na linha da mina do carvão que ia para S. Cristóvão. Chamava-se Aldegundes a moça que nos ensinava. Não sei qual era o seu estatuto e nem se recebia alguma coisa por se prestar a essa missão. Mais tarde, morava então no Monte dos Solteiros, frequentei as aulas no Escoural e a minha professora chamava-se Edviges Pisco. Nunca mais nos cruzámos, mas quando eu estive internado no hospital, em Évora, a Senhora teve conhecimento e foi lá ver-me. Fiquei sensibilizado. Mas voltemos à minha experiência escolar. Curiosamente, as minhas deslocações ao Escoural tinham sobretudo outra finalidade: Estávamos no tempo em que os bens essenciais eram racionados e, então, aproveitava as minhas deslocações para trazer o pão que o padeiro Bem-Feito nos arranjava. Chegava a haver filas com 300 metros e muitas vezes saía de lá cerca das 10 horas da noite. Teria então os meus 7 anos e ainda tinha pela frente, no regresso, seis ou sete quilómetros, de noite e a pé descalço. A minha escolaridade no Escoural só se manteve até durar o racionamento. Quando acabaram as senhas, terminou a escola para mim.”

E o ainda menino Rogério começou então a conhecer o mercado de trabalho.

“O meu primeiro emprego foi guardar cabras. Depois fui ajuda de pastor, vim para moço de recados em casa do lavrador Custódio Simão Nunes, que morava na Rua de Avis, e de seguida voltei novamente a guardar cabras. Quando tinha 17 anos comecei então a trabalhar na agricultura, tendo feito todos os trabalhos inerentes a esta arte.” 

Mas a vontade de aprender e o reconhecimento de que lhe seria importante retomar a escolaridade que nunca concluíra, levou-o já homem, mas ainda em solteiro, a frequentar o programa nocturno para a Educação de Adultos. E fez aí a 3ª classe da instrução primária.

“Chamava-se Alda Maria Coelho a minha namorada e tinha 25 anos quando resolvi casar. Fomos morar para a Zambujeira, freguesia de S. Cristóvão. Trabalhávamos os dois no campo. Passado tempo tivemos um filho, Camilo, hoje com 36 anos. Estaria casado já há uns quatro anos, quando decidi voltar à  Escola, tendo  conseguido fazer o exame da 4ª classe na Escola da Rua de Avis. Infelizmente, mais tarde, a minha mulher viria a falecer. Em Maio de 1993.”

Segundo nos revelou, Rogério Arraiolos trabalhou sempre em tarefas agrícolas até que…:

“Em 1976 fui convidado para integrar o Secretariado das Cooperativas Agrícolas e Unidades Colectivas de Produção, em Montemor e em Évora. Aí continuei até 1982, ano em que comecei  a ser funcionário da estrutura local do PCP. Aqui me mantive até 2002. Por esta altura adoeci com gravidade e fui forçado a deixar de trabalhar, ainda que tenha colaborado em estruturas do poder local, nomeadamente na Junta de Freguesia de S. Cristóvão, na Câmara Municipal e na Assembleia Municipal.”

Entretanto, a doença obrigou-o mesmo a deixar toda e qualquer actividade:

“O mês passado fui operado a um pulmão no Hospital de Santa Marta, em Lisboa, e passados alguns dias desse mesmo mês de Outubro, ingressei no Abrigo, na valência de “Centro de Dia”.


Obrigado, Rogério. Oxalá possa agora desfrutar de uma vida longa e com mais saúde.    

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

OS NOSSOS UTENTES

LUISA  MARIA  PETITA


Completou 95 anos em Junho passado a nossa “conversada” deste mês. A caminho do centenário, a D. Luísa não vive dias felizes. Aliás, e conforme nos confessou, só conheceu mais de perto a felicidade durante o tempo em que esteve casada. Tinha 22 anos quando se “juntou” com o seu companheiro de sempre, porque isso de casar implicava despesas que não estavam ao alcance dos noivos. 

“A minha juventude foi muito dificultosa. Nasci no Monte do Pinheiro, perto de Foros de Vale Figueira, numa situação muito complicada. A minha mãe namorava com um rapaz que a engravidou mas, depois, nunca mais quis saber dela nem de mim. Toda a nossa família era pobre, pelo que se pode imaginar as dificuldades que passámos. Aos 4 anos fomos morar para o Moinho do Álamo. Na idade certa palmilhava muitos quilómetros para ir à escola a Santo Aleixo. Fiz a primeira classe da instrução primária e ainda frequentei a segunda, mas entretanto a escola fechou e terminou aí a minha aprendizagem. Tive imensa pena de não ter continuado até saber ler e escrever, mas os tempos não eram favoráveis nem havia escolas por perto.  Hoje ainda conheço as letras, mas já não as sei juntar.”

O caminho que a D. Luísa teve de percorrer foi igual ao de tanta gente a quem a vida não sorria:

“A minha vida começou desde cedo a dar muitas voltas e as preocupações eram constantes. A primeira grande infelicidade aconteceu quando o meu pai nunca quis saber de nós. Se hoje não é fácil, naquele tempo era muito pior a situação de uma mãe solteira com uma filha nos braços. Tivemos, portanto, de vencer muita miséria e ultrapassar inúmeras dificuldades.”

Cedo começou a conhecer os trabalhos mais duros:

“Aos 13 anos comecei a trabalhar no campo, a ceifar, e depois disso nunca mais parei. Fiz praticamente todos os trabalhos agrícolas, e já era uma sorte quando se conseguia arranjar patrão. A enxada e a foice foram as minhas companheiras de toda uma vida”.

Atingida a idade adulta, foi a vez da jovem Luísa dar novo rumo à sua vida:

“Tinha 22 anos quando me juntei com o que seria meu marido para a vida inteira. Foi o tempo em que mais de perto conheci a felicidade, ainda que sempre com inúmeras dificuldades. Chamava-se José Francisco e, infelizmente para ele e para mim, faleceu há cerca de 21 anos. Tivemos dois filhos: o primeiro morreu no dia seguinte ao do seu nascimento; o outro, de nome Guilherme, muito meu amigo, graças a Deus ainda é vivo e goza de uma saúde normal.”

Como já referiu, apesar de ser feliz com o companheiro, nem por isso as dificuldades económicas se afastaram do seu lar:

“Quando casei fui residir para o Monte de Vale de Figueira e, sucessivamente, passámos pelo Monte do Lagar, junto à Ribeira da Lage, pelo Berlonguinho, perto de Santa Susana (onde o meu Guilherme andou à Escola), e  pelo Monte da Basbaia, entre outros. Passámos tempos muito duros, numa vida sempre atribulada.”

Apesar da crise com que o País actualmente se debate, e que é bem real, que dizer então de tempos em que as dificuldades ainda eram maiores:

“Especialmente enquanto solteira, os tempos eram muito difíceis. Nuns dias comíamos pão com azeitonas, noutros pão com boletas e ainda noutros, pão com o que se apanhava. Saiba que até éramos perseguidos quando tentávamos apanhar umas boletas para comer. Havia sempre alguém de vigia, normalmente armado. Nunca dei por chegar a haver disparos, mas veja que até as boletas tinham de ser disputadas com os animais. Grandes misérias se viviam em dezenas de famílias.

Depois de casada, a vida melhorou alguma coisa, porque sempre eram dois a ganhar, por pouco que fosse.

“Enquanto fui solteira nunca saía de casa para passear ou divertir-me. Lá ia a alguns, poucos, bailaricos que se realizassem nas redondezas, mas não passava daí. Até mesmo à vila só vinha caso fosse mesmo necessário. Depois de casada, e alguns anos mais tarde, fomos a meia dúzia de excursões. Duas vezes a Fátima, uma vez a Elvas e duas vezes à praia. Porém, destas idas à praia poucas recordações guardo, porque o meu marido sofria do coração e o médico desaconselhava a proximidade do mar. Assim, enquanto as restantes pessoas iam para a praia, nós ficávamos no autocarro a esperar que regressassem.”

No “Centro de Dia” do Abrigo vai fazer 3 anos para Novembro, a D. Luísa reconhece que é uma ajuda e que é bem tratada. Porém:

“Para viver com mais tranquilidade e segurança o resto dos meus dias gostaria bastante de ficar no Abrigo como residente. Não é porque tenha receio de ficar sozinha, porque infelizmente não possuo quaisquer bens e a pensão que recebo é uma miséria que nem sempre dá para a mensalidade e para os medicamentos, mas a minha idade e a doença já não me permitem fazer as tarefas domésticas. Moro relativamente perto do meu filho mas, infelizmente, a minha nora, por motivos de saúde, não me pode prestar assistência. Assim, limito-me a fazer a cama e pouco mais.”

Tenha esperança, D. Luísa. Os responsáveis estão atentos ao problema e certamente que o resolverão quando houver oportunidade.